Análise: MDNA – Madonna

A Madonna hoje é apenas uma sombra dos anos oitenta. Não sei, mas os últimos materiais dela são um tanto intragáveis (Hard Candy e Celebration). Ano passado veio o anúncio que ela estaria trabalhando num novo disco. Eu fiquei com uma pulga atrás do ouvido quanto à qualidade, afinal, a Madonna de hoje é uma Madonna totalmente diferente da Madonna de 30 anos atrás.

MDNA não cumpriu expectativa alguma que eu tenha feito, seja de forma positiva ou negativa. Acontece que o disco não é sua redenção, mas, à medida que ia escutando as demos que eram liberadas, eu estava criando tanto pessimismo para cima do disco, mas tanto pessimismo (cheguei até a matar a velha em uma postagem no meu Facebook) que o resultado final não pareceu tão ruim, agora que o CD vazou e eu pude escutá-lo na íntegra.

Olhando bem por cima, a atmosfera do disco se exibe como algo bem hipnótico, psicodélico e paranoico. O pop eletrônico (ou synthpop, como preferirem) integra boa parte do disco. Nota-se que o disco é um tributo da Madonna a si mesma. É também quase uma lavagem cerebral anti-gaga, como será ilustrado nos parágrafos que se seguirão.

A primeira faixa do álbum MDNA é Girl Gone Wild. Impossível não traçar um paralelo com Girls Just Wanna Have Fun, de Cindy Lauper (só que de uma forma muito mais agressiva e menos inocente); mas com uma batida eletrônica – e muitos, muitos filtros – à Britney Spears. Saiu um preview do clipe dessa música e digamos que polêmico é a palavra que o descreve, com direito até a um beijo homossexual numa psicodelia preto e branco. .

Gang Bang aposta numa atmosfera pesada e progressiva. O Eu-lírico é uma mulher prometendo se vingar do marido/amante que havia a traído. O ponto alto da canção é a partir do tempo 3:30, quando a atmosfera da música muda totalmente após uma pausa silenciosa, passando de uma batida simples para uma eletrônica à moda de Skrillex, com todo aquele caos sonoro. Esse ponto também marca o assassinato do marido, cometido pela garota retratada na música.

Na sequência, I’m addicted surge como mais uma música synthpop. Essa com uma atmosfera muito mais leve que a anterior, compara o amor a uma droga; MDMA, especificamente (outro nome do Ectasy). Pegaram a referência? Aliás, essa música também surge uma reviravolta quando chega perto do final, aproximadamente no terceiro minuto. Comparável a Your Love Is My Drug, da Ke$ha.

Agora vem Turn up the Radio. Agora é um exemplo metalinguístico de tributo. Uma música à própria música. Talvez a canção mais oitentista do álbum, simplesmente incitando as pessoas a esquecerem de seus problemas e apenas aumentarem o volume do rádio. Que todos nós sejamos livres para fazermos o que nos deixa felizes. Contudo, ainda é um tributo à própria cantora, pois é quase uma versão 2.0 de Get Together (do álbum Confessions on the Dance Floor – bom álbum, por sinal).

Essa já é mais conhecida, sendo o primeiro single do álbum. Com a contribuição de Nicki Minaj e M.I.A, Give me All Your Luvin’ é a música que define a obra como um auto-tributo, com referências à própria Madonna e à sucessos anteriores, como Lucky Star e Material Girl (o clipe tem também referências à Papa Don’t Preach e Like a Virgin) . Essa música é ligeiramente princiniana (gostaram do termo?), por enfatizar a própria pessoa que a canta de forma megalomaníaca. Nessa música, a cantora chuta o balde ao enaltecer suas qualidades e ordena que todos a amem. Sendo também uma canção anti-gaga, a aparição de Nicki Minaj e M.I.A faz todo o sentido possível. Ambas possuem uma rixa com Gaga de alguma maneira. A primeira é tão extravagante quanto (o que gera uma revolta de ambas as partes) e a segunda acusou a Gaga de plágio. GMAYL é uma lavagem cerebral. Aquele refrão insuportável gruda na mente das pessoas de forma insuportável.  Seguindo o padrão pop moderno, era mesmo a música perfeita para ser lançada como primeiro single.

Some Girls é quase um Material Girl Redux (lembrem-se, MDNA é tributo a si própria), mas sem a magia da original, infelizmente. Trata sobre os temas que denigrem a imagem feminina no século XXI. “Cocô” é o adjetivo correto para descrevê-la. Ruim que só.

Dando sequência, surge Superstar, uma música mais leve que as demais. O Eu-lírico é simplesmente alguém declarando o amor ao seu ídolo, fazendo diversas analogias. Contando com a presença da Lourdes Maria (filha da Madonna) nos back-vocals. Muito bizarro que foi a própria Madonna que intimou a presença dela. Imaginei-a no quarto de castigo caso não cantasse no “álbum da mamãe”. Certo, essa é uma canção restolha e não faço questão de ouvi-la de novo tão cedo.

A próxima é I Don’t Give A, feita com mais uma participação de Nicki Minaj. Afirmo com toda a certeza que é a melhor do álbum. É uma canção realmente única. Madonna consegue fazer rap praticamente sem ser um rap (é igual ao Prince em Laydown ou Michael Jackson em Privacy). A progressão da música é fantástica. A letra trata sobre um dia “comum” da Rainha do Pop e é uma provocação às novinhas do pop. Mesmo a parte de Nicki Minaj foi escrita enaltecendo a Madonna e denigrindo a si própria (e suas companheiras contemporâneas), chamando-as de garotas materiais (pegou?) e sem conteúdo. E ao fim de tudo isso, uma fantástica explosão instrumental, suprimindo toda música eletrônica presente na música, com Nicki se pronunciando ao fim “Só existe uma Rainha. Seu nome é Madonna”. Fantástica, tomara que seja lançada como single, ganhe clipe e tudo que ela merece. Falei tudo isso e olha que eu tenho birra com Rap e similares. Sim, isto é Madonna, não o que eu escutei em Hard Candy.

I’m a Sinner é meio que um tributo à Like a Prayer. É mais uma vez a Madonna querendo criar briga com a Igreja, debochando da morte de Cristo, obrigando Nossa Senhora à se ajoelhar e rezar e coisas do gênero. Curiosamente, essas passagens são as melhores da música, pois as rimas são confortáveis aos ouvidos e acabam contagiando.

Love Spent é uma crítica a casamentos que são praticamente comprados. O Eu-lírico é cheio da grana e ela só quer o amor do seu par. É bem composta e a letra não é das piores. O mais interessante é que não é uma música tão egocêntrica igual às outras, apesar de ser ainda um tributo de Madonna à própria pessoa: Love Spent contém um sample de Hung Up, música de Confessions on the Dance floor que por sua vez contém o mesmo sample de Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight), do Abba

Vinda da trilha sonora do filme W.E (dirigido por Madonna), Masterpiece resgata um pouco das canções de amor do trovadorismo, populares na idade média, em que um eu-lírico masculino sonha com a mulher perfeita e a idolatra. Simples, porém bonita canção. Mereceu o Globo de Ouro.

A última canção da versão comum do álbum standard (tem também a versão de luxo) é Falling Free. É a única música cuja batida não parece um estupro sendo realizado nos ouvidos do ouvinte. Muito agradável, assemelha-se a uma canção de ninar ou a uma dessas músicas usadas para meditação e que servem de estímulo para “se tornar um só com a natureza”. Deve se relacionar de alguma forma à Cabala, religião da cantora.

MDNA é um disco anti-gaga. É um disco sobre Madonna, simples e puramente. É também o pop em sua essência, com músicas grudentas que ficam martelando em sua cabeça o dia todo, com aqueles refrãos repetitivos que ficam dias na sua cabeça. Não é algo memorável, mas também é melhor do que os últimos trabalhos da Madonna. Interessante é que essas músicas realmente possuem mais de um compositor, mas todas elas são muito bem arranjadas e compostas, justificando a presença de tantos, por mais que a música seja chiclete e boba.

Esse é o fenômeno Madonna. Simples, escrachada, escatológica, convencida, pentelha e polêmica. Sejam os melhores dos tempos ou os piores dos tempos, uma Rainha jamais perde a majestade. MDNA, por fim, é Madonna sendo uma Lady Gaga melhor que a própria, se bem que para isso, não é necessário muito…


Lista de Faixas

  1. “Girl Gone Wild” – 3:43
  2. “Gang Bang” – 5:26
  3. “I’m Addicted” – 4:33
  4. “Turn Up The Radio” – 3:46
  5. “Give Me All Your Lovin'” (Feat. Nicki Minaj & M.I.A)– 3:22
  6. “Some Girls”  – 3:55
  7. “Superstar” – 3:53
  8. “I Don’t Give A” (Feat. Nicki Minaj)– 4:19
  9. “I’m a Sinner” – 4:52
  10. “Love Spent” – 3:45
  11. “Masterpiece” – 3:58
  12. “Falling Free” – 5:13

Nota:
Para uma análise da versão Deluxe, clique aqui.


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