Análise: Guilty Crown

Só para constar, eu contei o final da série inteiro aí. Ah, comentem AQUI, não no link do Facebook. Se for comentar, LEIA o texto primeiro antes de falar qualquer asneira que o texto já tenha respondido por si só. As palavras sublinhadas são links que geralmente ilustram o que foi indicado, basta clicar.

Guilty Crown é uma série montanha-russa. Tem tantos sobes e desces de enredo, de desenvolvimento de personagem, de tudo, se for resumir, que teremos que colocar tudo no papel e pesar os prós e os contras. Para começar, eu não consigo ver Guilty Crown ganhar algum mérito como uma série original. Simplesmente não consigo. É tão Rip-off de outras séries que fica difícil ignorar as diversas influências.

GC conta basicamente o enredo de uma sociedade assolada por uma epidemia – acontecida anos antes do início da série – de um vírus que transformava as pessoas em uma espécie de cristal. Tal evento ficou conhecido como “Lost Christmas”, ou “Natal Perdido”, justamente por ter acontecido na época indicada. A epidemia foi então controlada por uma empresa chamada GHQ. A partir desse evento, a mesma empresa acabou por se tornar, de certo modo, a administradora de todo o Japão.

O personagem principal é um garoto colegial (japorongos adoram colegiais, inacreditável, acho que é uma idade mais fácil de trabalhar) chamado Ouma Shu que, sem querer, acaba recebendo uma droga que lhe permite retirar os chamados Voids dos outros. O Void de cada um é único e representa sua personalidade. Geralmente se apresentam na forma de armas, embora outros possuam poderes variados, como a cura e a defesa perfeita. Com esse poder, ele é convidado por um indivíduo chamado Gai a ingressar numa organização denominada de Funerária (ou Undertakers, como preferirem). Na mesma organização, atuava uma misteriosa garota – também famosa por ser cantora – chamada Inori Yuzuhira, protegida de Gai.

Até então, diversos episódios se seguem, apresentando algumas operações de Shu na funerária, ele se aproximando de Inori, ficando amiguinho do Gai e participando de dramas colegiais (como toda boa série colegial porcaria), com direito até a um episódio de praia. A série acaba por tomar outro rumo exatamente no episódio 12, em que a funerária tenta evitar uma ação da GHQ que traria de volta a contaminação novamente, repetindo os eventos do Lost Christmas. Acabo lembrando bem disso porque o episódio foi ao ar exatamente na semana do Natal.

No episódio doze acontece algo que transforma toda a trama: Gai morre, num sacrifício heroico. Não vou reclamar da morte do personagem porque isso é coisa de fanboy/fangirl babaca. Vou reclamar das consequências dessa morte. Graças a isso, Ouma Shu pensa que é o fodão, porque acabou como líder da Funerária. E foi aí que a série começou a engrenar na descida.

Shu não é mais o personagem tímido que nos foi apresentado. Não há motivo para ele se tornar desse jeito, simplesmente. Isso não foi o que chamam de amadurecimento. Foi simplesmente uma troca de atitudes do personagem principal. Ele precisava se tornar o herói? Tudo bem, que não mudassem a característica principal do personagem até então. E como mostrarei mais a frente, sim, eu provarei – com um exemplo – que é possível realizar esse tipo de façanha.

A operação foi um sucesso parcial. Metade da cidade foi para o saco. Interditaram essa metade e todos passaram a ficar loucos. Shu, o novo líder, virou o Hitler da turminha. Maquiavélico que só, depois de perder sua namoradinha por culpa da própria incapacidade, passou a classificar todo mundo. Quem tinha um Void útil, era útil. Quem tinha Void inútil, era inútil e não faria a mínima diferença se morressem. Shu então era o paquitão, até que, olha só! Gai voltou. Do lado da GHQ. Não sei se choro porque ele voltou de forma totalmente nonsense ou se rio, porque a primeira coisa que ele fez quando voltou foi arrancar o braço do chatonildo do Shu.

Shu, ao perder o braço, voltou a ser amiguinho de todos, pedindo desculpas, coisa e tal. Após diversos acontecimentos, Shu conseguiu materializar seu Void, convenientemente em forma de braço para ocupar o lugar de seu cotoco. Seu Void tinha o poder de armazenar todas as características genômicas dos outros – isso incluía tanto os Voids quando a doença do cristal, as quais acabaram por se tornar relacionadas.

Mais ou menos na altura do episódio 19, a série toda é explicada. Gai foi criado como um experimento do GHQ e que fugiu de lá, Inori é na verdade a casca vazia de Mana, aquela que era a irmã do Shu e a culpada de tudo isso ter acontecido por portar o genoma que causava o cristal-câncer. Gai pretendia usar o corpo da Inori para trazer Mana de volta e aquela baboseira toda a com a qual estamos acostumados. Faltam três episódios para o fim da série, portanto, hora do quebra-pau.

Gai e Shu têm sua lutinha final causal, em meio a uma destruição toda. Eu geralmente não torço pelo vilão, mas aquele Shu era muito pentelho. Dei sorte e o Shu apanhou do Gai durante a luta inteira. Acontece agora uma coisa inexplicavelmente inexplicável e a Inori – que já não existia mais, pois Mana havia tomado seu corpo, de repente, aparece para dar um power up para o Shu e o Gai acaba perdendo. Na hora do golpe final, somos transportados para uma daquelas conversas dentro do subconsciente – igual a que o Dumbledore teve com o Harry Potter, no último livro/filme – em que, acreditem só: Gai era um troll e na verdade, ele só estava atuando, esperando que Shu ativasse todo seu poderzinho e o matasse, para que assim levasse Mana junto, salvasse todo o mundo e coisa e tal. Isso é uma coisa que eu esperava do Kubo, afinal, “foi tudo parte do plano”, como diria Aizen. Comparando com a montanha-russa de novo, foi praticamente um looping, porque você sobe e desse bem rápido, sem entender porcaria nenhuma do que aconteceu.

Por fim, Shu utiliza seu braço mágico que absorve tudo para absorver os vírus-câncer-cristalizados de todos, bem como seus Void’s. O prédio explode e “todos chora”, acreditando que nosso chatíssimo protagonista estava morto. Mostram-se alguns anos depois, quase todos os amiguinhos se reúnem para dar uma festa de aniversário? Adivinhem só quem aparece! Ouma “Chato” Shu. É, ele está vivo e está cego, a única coisa que vê em sua frente é o espírito da Inori. Fim da história. Esse epílogo foi até que interessante, se quer saber.

O início foi bom, o desenvolvimento de merda e o final mais ou menos. Parece que a fama subiu à cabeça de Guilty Crown, com como a vontade de ser uma sériezinha intelectual. GC é uma mistureba de várias séries consideradas cult. Temos desde Evangelion – o finalzinho, aquela parte que o protagonista acaba tendo que dar um jeito no próprio subconsciente -, passando por No. 6 e toda sua história de vírus (mas sem as referências homoeróticas), Death Note, em que o personagem queridinho da fanbase morre bem no meio da série até chegarmos em Speed Grapher, onde depois de tudo, o protagonista cego olha para o horizonte sem ver porra nenhuma. Alguns amigos me disseram que tem umas pitadas de Code Geass também.

Nem os videogames escaparam. Mana, depois de ressuscitada, cantava e dançava em pleno ar para transmitir por meio de ondas a porcaria do AIDS cristalizado. The Legend of Zelda: Skyward Sword tem uma cena igualzinha, interpretada por Fi. Aquela história de lacrar meia cidade para depois exterminá-la lembrou-me imediatamente de Batman: Arkham City.

Agora, talvez a pior influência tenha sido 「C」: The Money of Soul and Possibility of Control. Não que 「C」 tenha sido ruim, é fantástico. O que eu não engulo é a maneira de como Guilty Crown fez copy/paste dos conceitos gerais dessa primeira. Ouma Shu é uma cópia mal-feita do Kimimaro Yoga. Não porque são parecidos, personagens assim de cabelo castanho curto são comuns em animes (o protagonista de Another, por exemplo). Acontece é que ambos são garotos tímidos que entram nessa sem ao menos querer. Ambos acabam se envolvendo com algum chefão maneiro, no caso de 「C」, Mikuni; no caso de GC, Gai. Os dois chefões são trolls e acabam tentando acabar com a porcaria do mundo em que vivem e sobra para o protagonista enfrentá-los. Até relação incestuosa os dois têm: Enquanto Kimimaro se acabou se relacionando, mesmo que de forma tímida, com Msyu, a personificação de seu futuro que tomou forma de sua futura filha; Shu tentou dar uns pegas naquela que seria sua irmã, Inori.

Ainda existe uma diferença entre Shu e Kimimaro, contudo. Enquanto Kimimaro era tímido e não perdeu essa característica que o marcava, Shu virou um bundão metido a ser líder. 「C」 provou que é possível sim um herói continuar com essas características. Guilty Crown falha miseravelmente. Shu acaba virando um cara arrogante, mas ao espectador, não impõe confiança como herói. Parece até o emo Shinji Ikari, de Evangelion, mas esse era proposital, era a intenção que ele fosse assim, ao contrário do restolho que se tornou Ouma Shu.

Para Evangelion ainda, além do restolho Shinji Ikari 2.0 de protagonista, temos toda uma concepção bíblica aí de novo, como a ideia de Eva e Adão, que gira em torno de Inori, Gai e Shu. A ideia de impedir um novo desastre que já aconteceu tempos atrás (os impactos em Evangelion, Lost Christmas em Guilty Crown) também é válida.

E o que vou dizer então do enredo? O problema não foi o final. Problema foram as pontas que deixaram abertas e não fecharam. Alguns personagens secundários simplesmente sumiram do mapa. Um exemplo é Daryl, que atuava pela GHQ e, apesar de ser um tanto arrogante e metido, percebia-se que era uma boa pessoa, principalmente quando foi insinuado que ele era interessado na Tsugumi. A última aparição dele foi fugindo pelo elevador com outro cara falando para que ele aproveite a chance de vida que lhe foi concedida, sendo um homem bom. Na cena de vários anos depois, nem sinal da existência dele. Outra coisa: por que o Void da Inori era uma espada, afinal? Foi uma questão jogada no início da série. O espectador comum acaba não descobrindo apenas acompanhando o enredo, mas como estou já escrevendo essa análise, é cabível explicar.

Para a simbologia ocidental (aquela não era uma Katana, portanto não se aplica o sentido oriental, mesmo sendo um anime) a espada é um símbolo de destruição do que é material. É também o símbolo da realeza e da bravura para quem a maneja. Quem empunha a verdadeira espada é o Rei, representado por Ouma Shu. Agora é a deixa para explicar o título também. Guilty Crown é “Coroa Culpada” ou “Coroa da Culpa”. Basicamente, Shu é representado pelo rei e todas as suas ações pseudo-heroicas dele são movidas pela culpa: Morte do Gai, morte da namoradinha dele e coisa e tal.

Apesar de tudo, Guilty Crown tem lá seus momentos de subida e que também são divertidos. Os primeiros episódios são muito empolgantes, antes de a série virar essa putaria toda. Os dois últimos também. A série poderia ter terminado muito bem se não fosse o momento catártico do final, por parte do protagonista. Só dele também, nenhum espectador é idiota para cair em toda essa ladainha forçada. A sequência final, apesar de todas as falhas já citadas, é bastante bonitinha.

A parte técnica também é muito boa. A animação é fluida, bonita e limpa, com quadros feitos em bons ângulos. A trilha sonora é belíssima, bem como as aberturas e os encerramentos, todos muito bem feitos. Apesar de ser um enredo porcaria, ele é bem estruturado, com os pontos de virada bem posicionados. Acho que foi por isso que eu não larguei Guilty Crown no meio.

Contudo, de um modo geral, a verdade é que Guilty Crown é um anime megalomaníaco com síndrome de grandeza. De fato, o começo foi empolgante e dava brecha para muita coisa boa. Acontece é que ficou preso a várias outras séries consideradas Cult só para ganhar o status de uma. Dica: uma série Cult não tem o fanservice que Guilty Crown teve. Série cult é original, não é rip-off. Guilty Crown é uma série falha. Arrependo-me amargamente de ter escolhido GC como melhor enredo do ano passado – isso foi na época que a série estava no começo e estava boa. GC é apenas sombra do que poderia ter sido.


Informações

  • Produção Original
  • Episódios: 22
  • Ano: 2011-2012
  • Direção: Tetsurō Araki
  • Trilha Sonora: Hiroyuki Sawano
  • Estúdio: Production I.G
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10 respostas para “Análise: Guilty Crown

  • Análise: Un-Go « Horny Pony

    […] lamento o fato de Un-Go ter passado despercebido. Talvez seja porque Guilty Crown estava roubando toda a atenção para si e naquela época era um anime que prestava. Eu me […]

  • Houg

    Quanta baboseira.

  • Rayanne Depp

    Gostei da sua análise.’ mas se vsê achou o anime tão ruim’. qual o motivo de ver assistido até o final?.,Ou melhor pra quem achou uma bosta, prestou muita atenção nos detalhes né . Bom comparado a uns e outros animes merdinhas ,Guilty Crown foi um anime bom sim [/ pelo menos em minha opinião (ñn me critique k’ ) ] e uma observação sobre o Gai , não que vse tenha falado que ele é ruim, mas ele teve o seu motivo para “voltar” e se comportar de tal maneira no final ele sabia que ele teria que morrer com a bocó da Mana. * ui cansei de escrever rsr! *

    kissus!

    • Creissonino

      Eu vi até o final para sustentar a hipótese que é ruim. Isto é, se eu criticar sem ter visto, vão falar “Ah, mas você nem viu até o final, não pode comentar”. Só que muitas vezes me aparece essa sua pergunta (de forma grosseira, o que não foi o seu caso) e acaba gerando um impasse. Significaria que ninguém pode criticar a série?

      Enfim, obrigado pelo comentário e pela educação em discordar. Eu não ligo de discordarem, só que fazem isso sempre de forma mal-educada. Parabéns à você que aparentemente compreende a argumentação alheia.

  • Lua Goulart

    Olá!
    Só queria tirar duas dúvidas que me ficaram em sua análise:
    1. o que seria originalidade para você? tudo não é uma cópia ou influencia de algo anterior? a originalidade não estaria em saber fazer uma boa mistura de influências?

    2. porque você acha que o protagonista mudou tanto assim de personalidade? Ele não era timido, ele era um arrogante, covarde e individualista preocupado com a imagem que os outros teriam dele. Todos os acontecimentos com a Funerária e a morte do Gai e da Hare só funcionaram como impulsionadores dessa personalidade interior dele, como uma injeção de coragem. Concordaria com você se você achasse que a personalidade dele foi contraditória quando ele começou a querer salvar todo mundo e virar heróizinho. Aí sim.

    É isso,
    Beijos.

    • Creissonino

      1 – Existe um liminar muito tênue entre a referência escrachada, o que define a série como um rip-off tosco e a grande originalidade. Isto é, uma obra é sim a junção de referências passadas do próprio autor. Contudo, o que vale é a maneira como são transmitidas tais estruturas.

      2-Shu era inseguro, se não me engano. Já faz algum tempo desde quando escrevi essa análise, Mas é o que eu me recordo ao reler o texto ao ver que o comparei com o protagonista de [C]. Enquanto escrevia isso, fiquei em dúvida e fui lá nos meus arquivos verificar GC rapidinho parar rever. Logo no primeiro episódio, o próprio protagonista assume, quando é taxado de ser alguém fechado: “Eu não sei o que dizer para as pessoas, por isso eu escondo o meu nervosismo e concordo com o que os outros dizem”. Ser covarde, sim, ele era e concordo com isso. Mas não o covarde-hitler que usa meios baixos para conseguir o que quer, mas covarde de botar o rabo entre as pernas e fugir. Que ele precisa evoluir como personagem? Precisa, mas não se tornar o mártir que acabou virando. Esse tipo de mudança vai contra o ethos do personagem, que vai além da personalidade, um recurso narrativo que serve como um código de conduta que o define como um personagem de uma trama e que impõe os limites de suas atitudes. A partir do momento em que esse ethos é quebrado, você acaba por perder o respeito nutrido por ele e é por isso que eu rechacei o personagem dese jeito ao longo do texto. O que ele deveria fazer, seguindo o seu Ethos, é assumir a responsabilidade, mas sempre com alguma pulga atrás da orelha, assim como o protagonista de [C], já comparado anteriormente, coisa que não acontece, já que o Shu vira um hitler zumbi. Nesse aspecto, o caminho seguido demonstra que o personagem errou como humano, mas, dada sua personalidade, não existe uma prediposição para esse erro em específico, ou seja, ele quebrou seu ethos e, a partir daí, é considerado um erro de estrutura narrativa.

      Enfim, agradeço o comentário. Fico satisfeito ao ver que esses textos velhos ainda são lidos e chegam às pessoas de alguma maneira, mesmo sem nem tocar ou lembrar da existência deles.

  • godys

    Eu achei ele até um bom anime porque não gosto muito de fazer uma análise profunda sobre qualquer anime o que me importa e a emoção que o anime transmite e a forma que os personagens reagem na trama.Concordo com o você disse sobre guilty crown ter copiado vários outros animes mas mesmo assim assim não perde as suas características pois a trilha sonora e única os traços dos desenhos são bem legais.Shu pode ser um personagem meio patético por os varios erros que teve mas o mas idiota ainda e o souta que foi quem teve culpa na morte da hare .No começo não gostava do gai porque não conhecia os motivos dele mas no final ele foi mas heróico que shu e a inori foi a 2 melhor personagem feminina que ja vi so perde para a yuno de mirai nikki .O final concordo foi bem fraco e o meio também mas tirando isso foi legal

  • Paulo

    Esse anime foi doloroso de acompanhar, por um lado eu queria muito gostar dele porque todo o conceito da história dele é interessante, os visuais são lindos e o protagonista é bem desenvolvido… mas por outro lado, eu só me decepcionei cada vez mais com a narrativa que era super inconsistente e não sabia o que diabos fazer com os seus personagens, muitas coisas são indicadas e depois deixadas completamente de lado e outras coisas acontecem sem nenhuma explicação.

    Se fosse jogado nas mãos de um roteirista mais competente, Guilty Crown com certeza ele teria sido um animezaço.

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