Análise: Speed Grapher

Só para constar, eu contei o final da série inteiro aí. Se for comentar, LEIA o texto primeiro antes de falar qualquer asneira que o texto já tenha respondido por si só. As palavras sublinhadas são links que geralmente ilustram o que foi indicado, basta clicar (se houverem). Ficou meio grande esse.

Assisti a Speed Grapher pela primeira vez há uns sete anos, quando foi exibido em sua versão dublada pelo Animax. Apesar de naquela época ter assistido com a intenção de ver sacanagem (criança é foda ¬¬) e por passar no bloco noturno Lollipop, que prometia a exibição de shows mais picantes que minha doce “inocência” acreditava estar assistindo a Hentai — quando, na verdade, o bloco exibia no máximo um ecchi mais recheado de fanservice. Isso no máximo.

Contudo, o erotismo explícito em Speed Grapher não é apenas fanservice de Ecchi. A série consegue quebrar a barreira do exagero e retratá-lo de forma que contribua na própria história, bem como as obras do realismo, período literário dado no final do século XIX e que visava retratar a sociedade da forma como ela é, agindo de forma contrária à ilusão criada pelo Romantismo, onde todas as coisas são belas e cheio de floreios, colocando a sociedade como algo fantasioso. Assim, Speed Grapher é uma série que consegue provar que a indústria cultural japonesa é capaz de desenvolver enredos que evadem a dicotomia entre os públicos-alvo fetichista e infantil.

Apesar de apoiar a dublagem e preferi-la quando existe, eu optei pela versão legendada por fansubs, uma vez que já havia assistido a série anteriormente em sua forma dublada. A partir daí, quero trazer à tona outro ponto, mesmo que de forma paralela, que é a questão dos Fansubs que encantam as legendas com floreios visuais, mas carece de tradução competente, o que devia ser prioridade.

O enredo de Speed Grapher é retratado num Japão fictício em seu pleno crescimento econômico, uma espécie de período pré-bolha. Nesse contexto somos apresentados a Tatsumi Saiga, um fotojornalista de guerra que se depara com a existência de um clube secreto frequentado pela alta sociedade japonesa. Dentre seus frequentadores, estão os principais nomes da política, figuras importantes na economia e celebridades. O clube Roppongi é capaz de satisfazer os desejos — principalmente eróticos — daqueles dispostos e capazes de pagar uma quantia altíssima em dinheiro como taxa de inscrição e mensalidade.

Infiltrando-se nas instalações do clube, Saiga consegue invadir uma cerimônia realizada aos VIPs, que consiste em receber a benção de uma garota chamada Kagura Tennozu, mas cunhada pelos frequentadores do clube como Deusa. O fotógrafo então invade o altar onde é realizada a cerimônia e acaba recebendo a benção da Deusa — um beijo — no lugar de um velho gordo que deveria recebê-la. A garota implora por ajuda e Saiga apaga.

Kagura é filha de Shinsen Tennozu, a presidente do Grupo Tennozu, a corporação que é o principal pilar econômico da economia japonesa. Por conta disso, Kagura sempre foi tratada como uma princesa e não conhece a realidade do mundo. Shinsen, contudo, é uma mãe abusiva que não dá a devida atenção à sua filha, provocando-a de diferentes maneiras, como a deixando com fome a ponto de desnutri-la e indo para a cama a professora da garota. Seu braço-direito é Suitengu, o dono do clube Roppongi e, obviamente, aquele que levava Kagura aos rituais realizados pelo clube, mas em segredo.

Ao acordar alguns segundos depois, Saiga, como todo bom jornalista, não poderia deixar escapar o furo e começa a tirar fotos do que acontecia lá dentro, mesmo com toda a segurança do clube tentando matá-lo. Ao apertar o botão de sua Nikon, ele percebe que é capaz de explodir qualquer coisa que tente fotografar. Suitengu explica que a bênção da Deusa é capaz de trazer à tona os desejos mais profundos do subconsciente humano. O de Saiga, por sua vez, é retratar o destino final das pessoas em sua câmera, como fazia em sua época de fotojornalista de guerra.

Saiga, confuso e desesperado, se joga com Kagura nos canais de esgoto e vai parar no mar. Tentando fugir, ele é baleado e Kagura é levada de volta para casa. Saiga consegue escapar e sobreviver graças ao seu novo estranho poder que, além de explodir as coisas, era também capaz de curar suas feridas, mesmo em estado crítico. Ao se recuperar, ele assume a responsabilidade de salvar a garota. O homem, então, parte em uma investigação para descobrir quem ela é, se infiltrando na mansão Tennozu como professor substituto da menina, que não podia sair de casa por causa dos últimos acontecimentos. A desculpa inventada por Suitengu à Shinsen era que Kagura tinha sonambulismo e, portanto, precisava ser mantida em observação.

Saiga e Kagura se reencontram. Numa fuga heroica, o fotógrafo explode a parede do quarto com sua câmera e juntos eles saltam de paraquedas da mansão, que ficava no terraço de um arranha-céu. Suitengu não deixa barato e, na mesma noite, manda um dos VIPs do Clube atrás dos dois, um dançarino capaz de contorcer de forma sobre-humana, a quem Saiga derrota após explodir sua cabeça.

A partir daí, Saiga e Kagura começam a fugir pelo país, sendo perseguidos pelos principais homens de Suitengu: Niihari, um criminoso mafioso ao estilo GTA, Makabe, o capanga do estilo brucutu, e Tsujido, alguém que eu até hoje tenho algumas dúvidas quanto ao sexo e que tem um olfato extremamente apurado, apesar de seu nariz estar tampado com um tapa-nariz (igual a um tapa-olho, mas tapando o nariz, naturalmente). Eles são responsáveis em perseguir Saiga e normalmente estão sempre acompanhados de algum outro VIP do clube que possui lá seus poderes estranhos, como uma mulher que se transforma em diamante e ataca o casal enquanto eles estão escondidos numa boate gay (cujo dono é amigo do vizinho bicha-doida do Saiga) e um dentista psicopata que tenta matá-los quando Saiga e Kagura estão visitando o doutor Ryogoku, antigo amigo de guerra do jornalista, a fim de descobrirem qual é o problema com seus corpos. Ambas as lutas são geniais, com inimigos que exigiram medidas inteligentes para serem vencidos, como a moça diamante que, por ser transparente, não era focada pela câmera.

Durante sua viagem pelo Japão enquanto fogem da gangue do Suitengu e buscam por respostas sobre o que está acontecendo com Saiga e o que tem de errado com o corpo de Kagura, o casal descobre que Kagura pode não ser filha legítima daquele que até então era considerado seu pai (o senhor Tennozu, quem quer que ele seja) e o doutor Ryogoku descobre que a moça está com um câncer no cérebro, além de ser portadora de um gene especial que estimula ao extremo os hormônios do prazer, fazendo os que são expostos a esse gene ganhar seus poderes esquisitos. Todas as informações reunidas os levam até um laboratório desativado no Japão. Enquanto buscavam por documentos antigos, Suitengu decide ele mesmo agir e demonstra seu poder: Controle de Sangue. Eu não me lembrava desse poder até rever a série e, de repente, Deadman Wonderland nunca me pareceu tão pouco original. Sabia que já tinha visto o conceito em algum lugar.

Depois da briga. Saiga e Kagura são resgatados por Hibari Ginza. A policial é antiga conhecida de Saiga e tem uma queda por ele, que sempre aproveita a posição de Ginza na polícia para receber informações privilegiadas e assim conseguir furos de reportagem — foi assim, inclusive, que ele acabou se metendo nesse rolo todo. Ginza devolve Kagura à família Tennozu com a condição que ninguém mais encostaria um dedo que seja no protagonista. É agora que os personagens enfrentam o seus respectivos declínios narrativos.

Suitengu convence Shinsen que Kagura está doente e precisa ser mantida sob tratamento (o que, de certa forma, não deixa de ser verdade). Em seguida, convence Shinsen a se casar com ele e assim, o que faria com que Suitengu conseguisse tomar grupo Tennozu para si. O que acontece é que Kagura consegue fugir do laboratório onde era enclausurada e, às vésperas do casamento, Shinsen passa a acreditar que tanto a sua filha quanto seu até então noivo estavam armando contra ela. Suitengu não vê alternativa senão matar a própria noiva e se casar com Kagura, herdeira do grupo Tennozu.

Do outro lado, Saiga descobre que a mutação genética pela que seu DNA havia passado é resultante de um vírus chamado Euphoria. Apesar de estar em estado latente em Kagura, Saiga havia sido contaminado a níveis ribonucleicos e, portanto, não havia cura. Além disso, existia a chance de ficar cego, pois todas as vezes que ele tirava fotos, as células de seus olhos eram destruídas e reconstruídas, mas de forma imperfeita. Porém, ele ainda continua com a determinação de fazer Kagura sentir-se livre.

Depois de ser atacado por outro membro VIP do clube Roppongi — um estilista capaz de materializar suas tatuagens — Saiga decide ir ao casamento de Suitengu (disfarçado como o próprio noivo) e impedir a cerimônia. Ele então explode a igreja com várias câmeras de uma vez só acopladas a seu corpo, igual a um homem bomba, e foge com Kagura mais uma vez. Depois de alguns acontecimentos, Tatsumi Saiga consegue abrigo numa embaixada de um país (fictício) e descobre um grupo que apoia sua causa e pretende derrubar Suitengu e o Primeiro-Ministro do Japão: os Águias-Brancas, lideradas por um ex-jornalista chamado Seiji Ochiai. Acontece que Ochiai é um espião e está, na verdade, ao lado de Suitengu. Ele mata quase todos os Águias (menos Saiga e seu editor do jornal) antes do fotojornalista fazê-lo ir aos ares. Enquanto iam em direção ao aeroporto para fugirem do país, Kagura e o doutor Ryogoku são sequestrados e levados à casa do Primeiro-Ministro.

Nesse momento, começa uma sequência de episódios de flashback onde se descobre que Suitengu é uma criança cujos pais haviam sido mortos pela máfia por causa de dívidas, foi separado de sua irmã e treinado para ser um soldado. Ele sempre carregava consigo uma caixa de som que restou de seu passado e a tocava quando precisava se manter calmo. Após ser ferido no campo de batalha, Suitengu é usado como cobaia original na criação do vírus Euphoria. O principal cientista por trás do projeto era o verdadeiro pai de Kagura, que a fez herdar o gene estimulante em sua forma latente, enquanto Suitengu foi o primeiro a tê-lo em sua forma ativa. Assim, ele começa a planejar sua vingança. Fim dos flashbacks e a história volta ao presente, entrando em seu clímax.

O clube está às vésperas de sua reabertura após um tempo fechado devido ao pequeno incidente com Saiga no começo da série. A alta-cúpula do Japão pretende tomar o estabelecimento de Suitengu e nacionalizá-lo, enviando uma tropa para matar Suitengu. Entretanto, o homem não será morto tão facilmente e consegue tirar Kagura do cárcere da casa do Primeiro-Ministro e a conduz para o arranha-céu do Grupo Tennozu, onde também fica o clube Roppongi (e a mansão).  Saiga, quase cego, decide ir salvá-la pela última vez e é auxiliado por Ginza. Enquanto Ginza luta contra Tsujido e Makabe, dois dos braços direitos de Suitengu (o terceiro, Niihari, havia fugido com o dinheiro, após ter sido liberado de seus serviços pelo próprio Suitengu), o fotógrafo vai atrás do chefão cujo plano é explodir o arranha-céu com todo o dinheiro que o Clube Roppongi e o Grupo Tennozu haviam acumulado, bem como títulos e bens suficientes para levar o Japão inteiro à falência, como uma vingança particular contra a sociedade gananciosa e hedonista onde viviam. Mais: ambos descobrem que já se encontraram antes, na guerra, muito feridos, com Saiga se lembrando de ter sobrevivido graças ao som da caixa de música de Suitengu. É nesse momento que, depois de Saiga ter dado seu último clique e seus olhos explodirem fabulosamente em sangue, deixando-o cego, o herói é salvo da explosão por ninguém menos que Suitengu, que não era tão mal assim, afinal. Kagura foi salva por Ginza, apesar de relutante, uma vez que a garota havia roubado o coração do fotógrafo, algo que a policial tanto queria.

Cinco anos se passam. O Japão foi à falência e acontece o fenômeno do Abismo Fiscal, tão falado pela mídia hoje, onde literalmente aparece um abismo, um penhasco na economia, devido ao fluxo em caixa que desaparece do dia para a noite. Niihari usou bem o dinheiro que levou de Suitengu e agora é um magnata com um sonho é construir três grandes prédios no centro do Japão, chamando o maior deles de Suitengu, enquanto os dois menores ao lado seriam Makabe e Tsujido. Ginza acabou fazendo par romântico com o doutor Ryogoku, que voltou a ser médico de guerra. Kagura, depois de viajar pelo mundo e conhecer sua liberdade, volta ao encontro de Saiga, agora cego e finalmente tirando fotos do jeito que tanto queria – e ainda melhores do que os novatos do jornal. Fim.

A primeira observação que farei é sobre a crítica que a série faz à sociedade em queda. O declínio da sociedade moderna apontado em por Gilles Lipovetsky, especificamente em A Era do Vazio, com seu conceito de hipermodernidade (também discorrido por uma caralhada de autores), se aplica à série de um modo geral. Speed Grapher explora esse ponto a todo o momento, como o fato de Shinsen reclamar de estar ficando velha e perdendo a sua beleza, o culto à boa-aparência e ao status praticado por praticamente cada um dos vilões menores — A Donzela Diamante literalmente digeria as pedras preciosas, o estilista e o dentista estavam atrás da pele e dos dentes perfeitos, respectivamente — são um exemplo disso. Apesar de suas intenções, Suitengu, para continuar seu disfarce na alta-sociedade e continuar com seu plano, fumava cigarros feitos de dinheiro vivo. Quando o grupo Tennozu começou a vender a essência da Deusa (em uma forma mais fraca), o fez em forma de produtos de beleza, como batons e cremes.

O próprio Clube Roppongi também é uma representação da sociedade hedonista. Ele é um símbolo de status aonde só vão aqueles de grande poder aquisitivo. É um desespero para se manter naquele clube. Em diversos pontos da série, Suitengu é mostrado indo cobrar a mensalidade dos frequentadores e todos estão desesperados atrás de completar a quantia necessária, procurando até os trocados atrás do sofá. No clube, os frequentadores recebem comida à vontade, quartos, strippers e mais tudo que quiserem. Esse tipo de coisa é colocado por Lipovetsky como o que preenche uma sociedade vazia. Por fim, o pensador também coloca que, no pós-modernismo, a sociedade está cada vez menos definida quanto à sua sexualidade. Isso pode ser representado não só pelo Bob e as dançarinas do cabaré onde Kagura e Saiga se escondem, mas por Tsujido também.

Falando em comida, uma pequena observação que gostaria de fazer é a paráfrase com outra obra japonesa. Com uma crítica menos descarada, falo de A Viagem de Chihiro. Em Speed Grapher, o Euphoria do Primeiro-Ministro é o da gula extrema. Ele come tudo que encontra como um porco. O mesmo vale para a cena do filme de Miyazaki quando os pais de Chihiro encontram comida à vontade e acabam engordando até virarem os suínos. Ambas são referências à bolha econômica, onde a economia passa por um grande êxtase em que investir e lucrar é algo muito fácil e simples — só que devido ao grande contingente, a bolha cresce e estoura.

A série também coloca em pauta a questão da liberdade. Apesar de Saiga não tirar fotos publicitárias, uma de suas fotografias de guerra foi parar num outdoor com os dizeres “Você é Feliz?”. Tal foto captura o sorriso de uma criança pobre que teve tudo que ela conhecia destruído pelos conflitos. O retrato entra em contraste com Kagura, que é presa em seu próprio universo materialista, é infeliz, e não conhece o mundo afora. Isso mostra que a maneira como as pessoas são criadas influi diretamente em seu conceito de felicidade. Quem foi criado em berço de ouro é mais exigente e não fica se dá por satisfeito com qualquer coisa. Já quem não tem nada, tem mais facilidade em se alegrar, porque o sentimento é tudo que lhe resta. Speed Grapher mostra que a felicidade não está no ter tudo à sua disposição e sim ter o direito, a liberdade de escolher o pouco que é oferecidos.

A teoria jornalística também pode ser aplicada. Isto é, a maneira como a série retrata a mídia e como as editorias de jornais trabalham. A começar pelo fato de Saiga ter se metido na furada por ser jornalista. Perceba que jornalista que acaba descobrindo o que não deve acaba se fodendo de uma maneira ou outra (Tropa de Elite 2 é outro exemplo). Jornalista é bicho curioso por natureza. Quer descobrir mais e mais. Coisa de vocação. Jornalista não quer dinheiro, não quer aumento de salário. Jornalista quer ser reconhecido, quer sua reportagem na capa, quer mudar o mundo, deixá-lo um lugar melhor. O próprio Saiga é a mais pura encarnação deste sentimento, principalmente quando ele decide ajudar cegamente (trocadilho não intencional, juro) Kagura a fugir e desmascarar o que existe de podre no clube Roppongi e na politicagem japonesa.

Não é incomum, contudo, o jornalismo acabar cedendo aos interesses econômicos, tomando partido ao publicar as notícias, muito porque o próprio jornal é sustentado por investimentos das corporações. Isso é claro durante o casamento de Kagura e Suitengu. A mídia do país todo estava lá e viu o que aconteceu. No dia seguinte, Saiga abre o jornal e reclama, alegando que nada sobre a explosão foi noticiado. O Grupo era o principal órgão investidor de tudo que existia no Japão e, portanto, também estava no controle da mídia.

O jornalismo é considerado o quarto poder. É o órgão não-oficial que fiscaliza os outros três. É a principal arma contra um Estado. Esse embate é colocado diretamente na luta de Saiga contra Seiji Ochiai. Apesar de ter sido um jornalista no passado, ele ingressou na política e tornou-se um frequentador dos encontros do clube. Seu Euphoria consiste na emissão de sons, como uma grande caixa-sonora que estoura os tímpanos e o cérebro de quem é alvo, uma alusão ao discurso político. No ápice da briga, Saiga pergunta o motivo dele ter traído a todos e ficado do lado do Clube Roppongi. Ochiai debocha, falando que o jornalismo não é uma ameaça, que não tem poder algum. Saiga se enfurece e faz seu disparo final com um “Nunca duvide da capacidade do Jornalismo”.

Apesar de ter um enredo magistral, lamento o fato de o estúdio Gonzo ter feito algo tão porco na animação em si que além de pouco fluida, é simples demais. Algumas cenas são umas linhas retas feitas de qualquer jeito, pouco detalhadas, faltando esmero na coloração, com anatomia estranha e movimentos duros. Os cenários são simples e escuros — uma tela mal regulada impede a compreensão do que está acontecendo. O efeito do sangue especial do Suitengu é simplesmente lamentável, de tão simples e sem-graça. Ah, é notável também a reutilização de quadros e cenas, coisa que diminui os custos. É óbvio que Speed Grapher foi confeccionada com baixo-orçamento. Acho que a grana foi toda para o licenciamento da abertura: Girls on Film, hit da famosa banda Duran Duran. Falando nisso, a OST é um dos grandes pontos da série, encarregando-se praticamente sozinha de entreter o espectador, coisa que deveria fazer em conjunto da animação (que não cooperou em nada). Ao menos a abertura é linda — como já citado — e os encerramentos são satisfatórios, mas nada ao ponto do memorável.

É uma pena que problemas técnicos existam, visto o enredo fantástico. Ele é bem trabalhado e consegue se dividir muito bem nos 24 episódios, sem enrolar com capítulos inúteis – tirando uma retrospectiva dos acontecimentos gerais que foi apresentada na forma de um balanço detalhado dos prejuízos e lucros do clube desde o incidente com o Saiga no começo da série, mas que foi feita de forma tão interessante que a gente releva. Lamento também o relacionamento entre o Saiga e Kagura. Concordo que ele existir não é um problema, mas da metade da série para frente é algo que cansa o espectador. A Ginza sendo uma Overly Attached Girlfriend com o Saiga durante a primeira parte da série era bem mais empolgante, sem falar que o seu destino ao final não é tão satisfatório. O maior mérito, contudo, é como a série consegue abordar temas pesados como a zona que é o clube Roppongi sem ficar forçado com aquele fetichismo irritante tão presente na animação japonesa hoje. E o gore, quando tem, é totalmente sem censura. 2006 era realmente uma época bem diferente.

É engraçado assistir animes pela segunda vez, principalmente de outro ponto de vista. Antes, eu vi dublado (aliás, tive que rever um dos episódios dublados, a mixagem de som é horrorosa, não me recordo se já era assim ou é coisa da versão ripada mesmo). Agora, pude ver legendado e não me conformo como fansubs perdem tanto tempo e se esforçam tanto para enfeitar as legendas com 30 fontes diferentes, dançantes, karalhokê em japonês romanizado, ideogramas, em inglês, espanhol, português e latim tudo ao mesmo tempo, honoríficos desnecessários, logotipo do fansub estilizado e várias outras coisas, mas não têm a capacidade de passar sequer um corretor gramatical. Para que existem três revisores (eles se preocupam até nisso, de creditar a staff inteira dentre as letrinhas da abertura) se eles cometem gafes ridículas como [sic] “denovo” e “apelhido”? Sem falar que as frases não se ligam entre si e a escolha dos termos traduzidos é péssima. Isto é, pode até fazer sentido porque você vê o que acontece na tela, mas se pegar o script da legenda só, é visível que os personagens não falam coisa com coisa.

Isso acaba com a experiência de se assistir a uma série, anime ou qualquer coisa. Pô, traduza direito e em bom português. Traduzam termos e variem o vocabulário. Se eu quiser ver tudo em japonês, com honoríficos e etecetera, eu estaria vendo a Raw, não uma tradução. E ainda tem gente que reclama de dublagem e das traduções do material licenciado, como as da JBC e Panini (se bem que essa segunda é muito parecida com as toscas traduções otacús). Isso é simplesmente ridículo. É um saco isso. Todo mundo que sabe inglês se pensa tradutor, só que não é bem assim. Existe toda uma técnica por trás disso.

Acho que o mais interessante de Speed Grapher é o fato de eu tê-lo assistido numa época em que não me preocupava tanto assim em ser jornalista ou sequer pensava no meu futuro. Eu queria ver peito e bunda de madrugada e escondido dos meus pais no volume 2 (para não acordar ninguém) quando eu, na verdade, já deveria estar no sétimo sono. Eu posso não ter feito todas essas assimilações que fiz aqui lá naquela época, mas me lembro de o enredo ter me marcado muito positivamente, caso contrário não teria esse interesse em revê-la. Eu nem entendia o Saiga como um fotojornalista. A meu ver, ele era só um fotógrafo ou sei lá. Naquele momento, eu só estava com uma vaga ideia sobre ser jornalista porque queria jogar videogame e escrever sobre os jogos que não gostava para que todo mundo que fosse contra mim ficasse butthurt e eu rir da cara dessas pessoas.

Hoje em dia, eu vejo o quão foda é o enredo de Speed Grapher e vejo Saiga não como um fotógrafo que acabou se envolvendo em altas confusões ao investigar um clubinho do barulho e acabou tendo que fugir dos caras maus, como diria o ilustre Narrador da Sessão da Tarde, mas sim como um fotojornalista premiado que ama seu trabalho e tem compromisso com o ofício. Tem mais: agora eu entendo o Saiga quando ele falava termos técnicos relacionados à abertura da máquina e tempo de exposição, uma vez que fotografia também acabou se tornando um hobby meu, anos após minha experiência original com a série.

Speed Grapher é uma experiência fascinante. Não é catártica, não é um “Mamãe, quero ser Evangelion” ou essas superproduções megalomaníacas. É uma série provando que um enredo pode ser envolvente e intrigante. É uma série que consegue entreter e criticar. Você não desliga seu cérebro ao assisti-la. É uma trama bem escrita e que merece ser lembrada, ao contrário de histórias cujo enredo parece ter sido escrito por um macaco, como Death Note, ou que o autor só quer dar uma de Troll em todo mundo como é Evangelion.


Informações

  • Produção Original
  • Episódios: 24
  • Ano: 2005
  • Direção: Kunihisa Sugishima
  • Trilha Sonora: Yota Tsuruoka
  • Estúdio: Gonzo

4 comentários sobre “Análise: Speed Grapher

  1. Amanda

    Oi! Aqui estou eu novamente, (uns três anos depois, eu acho) mas é melhor eu explicar isso direito… Algum tempo atrás, quando eu estava (quase que literalmente) caçando um anime inteligente para assistir eu me deparei com essa sua matéria e mesmo não a lendo inteira (por causa dos spoilers) eu fiquei realmente interessada e assisti Speed Grapher e se tem algo que eu possa lhe dizer é obrigada! Agora que reencontrei e reli sua matéria, posso dizer que nossas opiniões (principalmente sobre os fansubs) foram bastante parecidas e realmente valeu a pena. Se não fosse você, eu muito provavelmente, nunca teria encontrado esse super enredo… Então, novamente obrigada! 🙂

    1. Olha, você não faz ideia de como seu comentário me deixou feliz. Você não faz ideia do sentimento de realização (de qualquer escritor, na verdade) ao ver que seu texto marcou alguém ao ponto dele ser lembrado desse jeito como você acabou descrevendo agora. Eu é que agradeço!

      Aliás, se estiver atrás de outro anime com uma pegada mais trabalhada, pega Un-Go.

      1. Amanda

        Fico realmente feliz por você ter gostado tanto assim do meu comentário, (eu só falei a verdade u.U) se eu soubesse teria procurado melhor e comentado antes haha… E muito obrigada pela dica! Estava mesmo procurando algo assim.

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