Análise: Gatchaman Crowds

Só para constar, eu contei o final da série inteiro aí. Se for comentar, LEIA o texto primeiro antes de falar qualquer asneira que o texto já tenha respondido por si só.

Sentai é um gênero japonês que diz respeito aos heróis que agem em grupo e estão quase sempre fardados em roupas espalhafatosas. A ideia por trás desse gênero é “trabalhar em equipe para resolver problemas”. Exemplos famosos são Changeman, Kamen Rider e Flashman. Ser Live-Action também não é um pré-requisito, como é o caso de Batalha dos Planetas, também conhecido como Gatchaman. Gatchaman Crowds, por sua vez, chegou para quebrar qualquer paradigma que tenha sido consolidado anteriormente.

Desde o começo, Crowds deixa claro que, apesar de se utilizar do nome da franquia original, não tem lá muita coisa a ver com ela. Isto é, o que temos? Alguns personagens com o mesmo nome e a capacidade deles de se transformarem num super-herói, um Gatchaman. Nem o tema das transformações se manteve da série antiga — antes, cada um dos personagens da equipe tinha uma vestimenta que fazia referência a alguma ave — agora, nem uma temática há.

Hajime-chan (Kawaii Desu) é uma colegial que é escolhida por uma entidade chamada JJ para integrar a equipe de super-heróis defensores da Terra chamada Gatchaman. Desta forma, ela ganha um caderninho chamado NOTE com a capacidade de materializar em si uma espécie de um uniforme-armadura, causar amnésia nos transeuntes e coisas assim. Haijme, então, se torna a novata no time Gatchaman, formado também por Sugane Tachibana, um jovem educado com síndrome de samurai justiceiro; Jou Hibiki, um veterano niilista e depressivo; Utsutsu, uma garotinha tímida e quieta; Paiman, uma raça alienígena sem noção autointitulado líder e que se parece com um panda anão; e, por fim, OD, uma bicha louca alienígena.

A sociedade de Gatchaman Crowds é “presa” a uma rede social de cooperação entre as pessoas. Se há algum problema em algum lugar, as pessoas pedem ajuda pelo GALAX e outras podem ajudar. Essa rede foi criada por Rui, um transformista agraciado com um poder de controlar um pequeno exército formado por um entidades denominadas de “CROWDS”. Cada uma dessas entidades é uma representação de um usuário do GALAX e Rui as usa para ajudar as pessoas.

O enredo se desenvolve, o vilão, Berg Katze – outra bichona fabulosa – aparece e começa a armar a maior confusão. Ele tem a capacidade de se transformar nos outros, teletransportar e também possui um NOTE. Seu objetivo é a simples e pura destruição. Desta maneira, ele começa a causar o caos na cidade e coloca em prática o seu plano-mestre que envolve liberar os CROWDS para a população fazer o que quiserem com eles.

Nisso, os Gatchaman entram em ação porque, depois que cada um passou controlar o seu CROWD, houve aqueles que começaram a realizar atos de vandalismo e coisa do gênero. A série começa a ficar ligeiramente esculhambada aí até antepenúltimo episódio, que acabou com a galera partindo para a briga. O penúltimo foi composto metade por flashbacks, enquanto o final mostra o Rui colocando em prática um plano capaz de resolver a parada toda, quando ele desbloqueia todos os CROWDS para geral e propõe um jogo entre os usuários do GALAX. Essa gamificação consegue acalmar toda a galera e o caos se torna ordem novamente. A questão é que, após a sequência de cidadãos comuns resolvendo a situação toda, o anime acaba e nada é mostrado dos outros Gatchaman. Hajime, Paiman, Sugane, Rui e Berg Katze têm seu final. OD não tem seu destino explícito, mas é deduzível. O que faltou foi desenvolverem um pouco a conclusão do Jou e da Utsutsu.

A rigor, o foco principal dessa série não são as personagens individualizadas. Os personagens existem apenas como arquétipos do mundo moderno e a personalidade deles eram apenas recursos narrativos, alegorias que reforçam o ideal que a série quer passar. Assim, Gatchaman é uma série mais conceitual, que se foca numa ideia.

Analisemos o título: Crowd é multidão em inglês. Gatchaman Crowds, por sua vez, aborda uma ideia de que multidões podem mudar o mundo para melhor. Quando você integra uma massa, você não é uma personalidade individua, mas integrante de um grupo, uma massa com um objetivo. O GALAX em si existe a partir desse ideal. Acho que foi no episódio 3 em que os integrantes de uma escola se uniram para impedir que um lote de leite contaminado seja distribuído. A pergunta, então, que Gatchaman Crowds tanta responder é: o que acontece com quem recebe uma informação que tem ligação direta com o mundo à sua volta?

A ideia de anarquia é muito forte durante a série, mesmo que de maneira bastante despretensiosa. No mundo moderno, as pessoas pensam igual a Berg-Katze. Berg deu o poder às massas para que elas façam o que quiserem com ele. Nisso, instaurou-se o caos, uma vez que o governo não existia mais, pois era incapaz de controlar aquela crise. Isso vem também da ideia de que a anarquia em seu estado puro e simples é algo ridículo e que a sociedade moderna precisa de um órgão mediador e superior para administrá-la.

A resolução desse problema vem com a verdadeira anarquia: a cooperativa. Quando toda a sociedade se movimenta para colocar ordem no caos instaurado. As pessoas podem fazer bem pelo mundo. As pessoas hoje conseguem, principalmente com o auxílio digital, se organizar, muitas vezes independentemente do governo ou de alguma entidade, querendo ou não. Paiman é, teoricamente o líder dos Gatchaman, mas Hajime só o contraria. E o contraria para fazer coisas boas e, à sua maneira, instaurando a ordem. A rigor, a lei só existe como uma contenção contratual para aqueles que não seguem as normas de uma boa convivência social. Quem é íntegro, não precisa se preocupar em burlá-la.

Gatchaman Crowds, até agora, é sobre pessoas comuns realizando ações que melhorem o mundo. Não é uma série sobre ser Gatchaman, um herói especial. Essa ideia é reforçada no final, quando Hajime liga para a sua mãe para falar que ela sempre será ela mesma. Ela não é uma Gatchaman. É alguém como eu, você e qualquer um que não deveria ficar parado coçando o saco quando é possível transformar a sociedade num lugar melhor apenas fazendo boas ações e agindo de forma altruísta.

Contudo, apesar toda essa ladainha e enchimento de linguiça que dão destaque aos cidadãos comuns e supostamente justifica a ausência da conclusão do Jou e da Utsutsu, eu acredito que tais personagens podiam sim ter seu final explícito. Falando sério, é só não terem perdido tempo com a porcaria do flashback que comeu metade do episódio 11.

Isso pode ser tanto um defeito como mero detalhe. Houve muita discussão a respeito desse final, mas quem reclama dele o faz por puro choro. Afinal, quando um anime finalmente se foca em sua mensagem por trás em vez de simplesmente colocarem dois ou três personagens interagindo no simples intuito de explicitamente mastigar todo o seu conteúdo para facilitar a compreensão de quem o assiste, o público chora e fala que não entendeu. É isso muitas o que geralmente acontece quando alguém se depara com alguma coisa com enredo e conceito depois de tanto assistir moeshit gratuito.

Gostaria de ressaltar que, apesar de eu falar a todo o momento coisas como “mensagem” ou “ideal”, nunca deixei de encarar Gatchaman Crowds como o produto comercial que é. E isso se dá principalmente na ideia de “Gatchaman”. Se decidissem fazer o mesmo anime só que o chamando de “Galaxman” e trocassem só o nome de um naco de personagens que fazem referência à série antiga, não ia fazer diferença alguma. É óbvio que usaram o título só para tentar fisgar a galera que já conhecia Batalha dos Planetas antes. Bom, isso deu certo, porque fui um desses caras. E não me arrependo. Obrigado, baseada Tatsunoko.

Falando em Tatsunoko, novamente ela foi impecável. A trilha sonora é genial e grudenta (GATCHAMAAAAAAAN… GATCHAMAN!), mas de uma maneira boa. As sequências de encerramento e abertura são viciantes. O estilo de animação não é perfeito em sua fluidez, mas é estupidamente charmoso em sua estética. Destaque até para o dublador do Berg-Katze, que é o mesmo do Dent/Cylan, de Pokémon, com direito até a uma pequena referência no último episódio (O sabor de vocês é horroroso!). Mesmo o CG, tão odiado por todos, quando usado mesclado à animação ficou bem caprichado (A Tatsunoko também usou CG em Karas e ficou ótimo).

Por fim, Gatchaman Crowds se consolida como um anime centrado em um conceito, uma ideia. Tem, como foco, não uma equipe se caras vestidos em roupas bizarras para brigar contra o mal, mas sim explorar o contexto de uma sociedade movida por mídias sociais e como elas mudam o mundo. Vale lembrar que a Primavera Árabe e a questão da Jornada de Junho no Brasil ocorreram principalmente por causa de tais mídias, que têm a capacidade de agregar multidões.

Muito porque Gatchaman Crowds é um anime sobre como as pessoas conseguem qualquer coisa quando trabalham juntas como uma equipe.

É, talvez Gatchaman Crowds seja um Sentai mais tradicional do que parece.


Informações

  • Produção Original
  • Episódios: 12
  • Ano: 2013
  • Direção: Kenji Nakamura
  • Roteiro: Toshiya Oono
  • Trilha Sonora: Taku Iwasaki
  • Estúdio: Tatsunoko Production

Nota:
[1] Depois do texto pronto, cheguei nesse link, da Wikipedia. Relativamente relevante. Teria citado-o no meio do texto, caso tivesse descoberto antes.
[2] Revisão é só pra quem tem luxo. Eu não tenho luxo. Portanto, como de praxe, tá aí essa merda sem revisão.
[3] Por curiosidade, o último episódio teve uma versão alternativa chamada “Gatchaman Crowds: Embrace” e decidiu focar com mais clareza no destino dos próprios Gatchaman, em vez de se concentrar na população e os GALAX. Divergindo quase que por completo do décimo segundo episódio original, muitas das resoluções que estavam apenas subentendidas na edição para a TV ficaram bem mais explícitas nesse especial em Blu-Ray, como o combate final contra o vilão.

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