Análise: Killer is Dead

Vou abrir o jogo sobre os meus textos para os 10 5 2 leitores frequentes do meu blog. Percebam que, apesar de eu fazer um review de algum objeto, seja jogo, anime, filme ou qualquer outra besteira, é notável que em 90% desses textos usem tal objeto para ilustrar uma ideia central à qual ele está atrelado, seja de forma direta ou indireta. E é por isso que escrevo esse post. A imagem de Killer is Dead é fruto de uma imprensa de videogames estupidamente imbecil. Ou melhor, IGNorante.

Desenvolvido pela brilhante Grasshopper Manufacture, o estúdio de Suda 51, Killer is Dead é mais bem descrito como uma Space Opera de No More Heroes. O protagonista é Mondo Zappa, um misterioso imã de mulheres que trabalha numa agência de assassinos chamada Brian’s Executioner Office.

O Enredo é meio xarope, como toda produção da Grasshopper que se preze. Até onde consegui me situar, Mondo recebe a visita de uma moça chamada Moon River e que vive no lado escuro da lua. Ela pede para que a agência execute um homem chamado David. Depois do serviço não ser cumprido na primeira tentativa, Mondo recebe várias outras tarefas e deixando Moon River em “stand by”, digamos assim.

O desenvolver do jogo apresenta uma variedade boa de missões. A minha favorita foi uma em um Dojô, contra um mestre de artes marciais que tirava sua força de uma tatuagem de Tigre. Além dessa, existe uma fase em um trem cujo chefe é o próprio trem, uma em um prédio de uma gravadora, cujo chefe é um músico chamado Victor e que rouba a audição de outros músicos e até uma fase temática de Alice no País das Maravilhas. Inicialmente, essas missões não parecem ter relação alguma com a de Moon River, mas várias delas acabam citando o homem David de alguma maneira. Para piorar a situação, Mondo começa a ter sonhos esquisitos que recontam seu passado aparentemente amnésico.

A briga final contra David, depois de esclarecer alguns fatos do passado de Mondo  – nota que é um jogo da Grasshopper. Três novas perguntas para cada esclarecimento – acaba na lua, tomando proporções épicas, Deus Ex Machina e tudo que o jogador tem direito.

Como já foi colocado anteriormente, é impossível não pensar em No More Heroes durante a jogatina de Killer is Dead.  Seja em vários momentos do enredo, seja nas referências quase diretas, como o chefão gigante que tem o mesmo padrão de ataques que o Jasper Batt Jr, de No More Heroes 2 e, principalmente, pela jogabilidade. O lance rápido de combos com a espada, a movimentação entre um inimigo e outro, a própria mobilidade do personagem, a esquiva e até mesmo golpes de finalização. Toda a jogabilidade de No More Heroes, mas melhorada com a alternativa de disparar projéteis com o braço biônico de Mondo, além de um sistema que recompensa o jogador quando ele realiza combos muito compridos. É uma jogabilidade que funciona estupidamente bem, é divertida e vicia.

Além disso, existe um modo extra, chamado “Modo Gigolô”. É muito bobinho. A rigor, você tem que conquistar algumas garotas para receber upgrades para o braço biônico. O processo consiste em ganhar um determinado número de pontos após observar discretamente o corpo das moças usando o analógico. Em seguida, você dá um presente a elas até que uma “barra de interesse”, digamos assim, se encha por completo e uma cutscene de sexo não explícito passa na tela. É algo meio imbecil. E que puxou mais atenção da imprensa de videogames do que o próprio jogo em si. Aqui, crianças, chegamos à discussão do dia.

Em que mundo um modo extra do jogo é mais importante do que o jogo em si? Isto é, o visual do jogo pode ser interessantíssimo, a jogabilidade pode funcionar e ser viciante, mas o simples fato de ele ser misógino – porque é, não vou negar – é suficiente para detonar um jogo inteiro? Umas duas sidequests tão imbecis assim? Puxa, falando sério. Eu concordo que é ruim. Eu concordo que não é pra apoiar a misoginia imbeciloide por simplesmente ser misógina. Contudo, há um contexto envolvido. É Sucker Punch tudo de novo.

Pegando o exemplo do filme que acabei de citar. Sucker Punch se passa num puteiro. É uma questão de contexto. É normal que num puteiro/cabaré daqueles ainda, as mulheres sejam bem tratadas? Não. Não é. O modo gigolô é imbecil? É, mas está em um contexto de um personagem galanteador e misterioso. Se o modo gigolô em si funciona mal, já são outros quinhentos. O sistema merece críticas porque é ruim. Porque você não se sente interessado em conquistar a garota. Não porque é misógino. O moralismo nos dias de hoje está cada vez mais e mais imbecil. Acho muito pior a propaganda de Ocarina of Time que fala “Você vai salvar a garota ou vai jogar como uma?”. Aí sim foi misoginia gratuita.

O mais engraçado é que eles fazem uma análise dessa só porque a Grasshopper não é um estúdio grande. Todo santo título recebe críticas negativas. Lollipop Chainsaw e Shadows of Damned são jogos divertidíssimos, mas receberam críticas por nada. Agora, No More Heroes, que até foi feito pela Grasshopper, mas produzido pela toda-poderosa Ubisoft, não. E tem mais: Eu não me lembro de uma análise sequer que tenha criticado a objetificação da Bayonetta. Ela pode muito bem ser encarada como a representação de mulher forte, mas espera aí. E o arquétipo de bruxa? Um indivíduo das sombras? Cadê a crítica chata reclamando nessas horas, de que a mulher foi colocada como um indivíduo das trevas e todo esse medievalismo que veio à tona?

E pelo amor de Deus. Na mesma época de Killer is Dead, veio GTA V. É, porque aquele monte de merda sem sentido que é GTA pode ser uma exceção à regra e todos os problemas como violência, incentivo ao crime e besteiras do gênero podem ser coisas menores. Já Killer is Dead, que é da Grasshopper, um pobre estúdio japonês, tem que ser metralhado de críticas sem sentido e que recaem principalmente sobre um modo extra, que nem é o foco central do jogo. E, enquanto os falsos moralistas ficam detonando o jogo por absolutamente nada, o Japão produz aquelas Visual Novels simuladoras de encontro em escala industrial. E nunca vi um artigo sequer reclamando daquela bobeira.

Desta forma, se Killer is Dead é Misógino, por que os filmes de 007 não são? O galantismo bobo de Mondo não é diferente do galantismo de James Bond, que tem todas as garotas aos seus pés. Deve ser por isso que Zelda e Mario vêm mudando de uns tempos pra cá, colocando a Zelda em papéis mais influentes no jogo e colocando Peach mais vezes como personagem jogável, em vez de ambas as princesas serem apenas resgatadas pelo protagonista, como sempre foi em videogames e sempre foi em toda a história das narrativas de ficção. A Nintendo só está fugindo de eventuais problemas.

Mas acho que no caso do Suda 51 é normal. Isto é, até o Tarantino tem vários problemas com a mídia moralista, principalmente em Django Livre, criticado por usar em excesso a palavra “crioulo” (aqui a questão do contexto vale também, só olhar a época e você vai ter certeza que afrodescendente não é o termo correto para se usar se quer que o filme seja condizente).  É como se a crítica se fizesse de difícil só para tentar mostrar algum respeito e seriedade, mas todo ano ela abre as pernas e dá o GOTY pra Cowadooty.

A verdade é que Killer is Dead é um puta de um jogaço. Talvez, o melhor da Grasshopper desde No More Heroes. Sine Mora é legalzinho e viciante, mas não tem tanta substância que o torne um jogo épico. Lollipop Chainsaw e Shadows of Damned são fodas, mas também não têm a grandiosidade que Killer is Dead tem. E tal grandiosidade só é compreendida por quem tem a mente aberta o suficiente para compreender e deixar de lado de os problemas éticos e morais relacionados ao gênero, de vez em quando. Aliás, não só isso, mas esses ideais bobos deviam parar de influenciar na degustação do produto em si e começarem a realmente analisá-lo como ele é por si próprio (até hoje me refiro à crítica americana que até hoje não consegue ver prédios caindo).

Quanto à parte técnica, peguei uma versão de X360 e me deparei com uns lags, mas nada que realmente influa na jogabilidade que é estupidamente fluida (dizem que a versão de PS3 não tem esses problemas de lag). Os desafios são difíceis e apesar de ser um jogo curto, tirar AAA em todas as fases dá trabalho. Tá pensando o quê? Isso é Grasshopper, não é Devil May Cry em que no menor peidinho que o jogador der, acaba tirando ao menos um S no placar final.

A qualidade gráfica é estonteante. Assim como No More Heroes, Killer is Dead utiliza um estilo Cel Shaded pesado. Não é um gráfico perfeito, desses HD que parece gente de verdade, mas é genial porque é charmoso à sua maneira. Estilo artístico vai ser sempre superior a qualquer gráfico ultrarrealista e essas imbecilidades do gênero.

Trilha Sonora, baixei no PC antes que eu pudesse jogar. Sozinha, achei bem genérica e fraca, porque é mesmo. Contudo, a experiência muda durante o jogo. É uma trilha sonora que ajuda na imersão e que encaixa perfeitamente naquele clima obscuro. Também acho válida a música do último chefão, uma citação à Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak, que está lá no jogo, mas não consta no CD de OST propriamente dito.

Assim, Killer is Dead é uma maravilha de jogabilidade e é estupidamente divertido. Contudo, o jogo tem sim seus problemas. É misógino, tem uns modos de jogo imbecis, é curto e a versão de X360 tem uns lags ocasionais, sem falar do enredo 2deep4u. Mas KiD é lindo e pronto. Love & Kill.

Li um review em que o maluco dá 4/10 para o jogo com a desculpa “Porque eu quero”. É. Eu também vou fazer igual ao cara. Só que eu vou dar a nota máxima para Killer is Dead, mesmo eu achando que ele “só” mereça 4 estrelas. Só porque eu quero.


Informações

  • Produção: Xseed Games
  • Estúdio: Grasshopper Manufacture
  • Ano: 2013
  • Gênero: Aventura, Ação, Hack and Slash, Beat’em Up
  • Plataformas: X360, PS3

Notas:
[1] Meu problema não é ser a favor ou contra dessa questão feminista. O problema é serem chatos com isso.
[2] ideia era colocar só screens do modo gigolô, mas fiquei com preguiça de dar mais essa trollada. Em compensação, o google faz por mim e um bom naco das imagens da busca “Killer is Dead” já são do modo gigolô.

Anúncios

5 respostas para “Análise: Killer is Dead

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: