Jornalismo 10/10, It’s Okay


Quem já me acompanha ou me conhece de perto sabe que eu sustento uma relação de amor e ódio com a imprensa de games. Não é de hoje que eu critico o trabalho realizado pelos chamados “game journalists”, sejam eles em âmbito nacional (como as revistas da Editora Europa, a Nintendo World, o Omelete e o Uol Jogos) ou gringo (as gigantescas IGN, Gamespot e outras).

A crítica de hoje não é (a priori, nunca se sabe como o texto vai se desenrolar) a respeito da tendência que tais veículos costumam assumir, como criticar qualquer jogo que abuse da sexualidade (como Killer is Dead), que demonstre um prédio caindo (por ser uma alusão aos atentados de 11 de setembro) ou até mesmo que estimule o videogame como prática cinematográfica (Heavy Movies, Last of Movies e Beyond 2 Movies). É sobre a própria – ausência – da prática jornalística propriamente dita na confecção de pautas para o assunto. Apesar do vídeo que botei de abertura tratar sobre as notas atribuídas aos jogos, a questão vai muito além disso (embora essa das notas seja importante).

Isto é, você tem as pautas-padrão dessa editoria jornalística caracterizada principalmente pela presença de um conteúdo mais analítico e crítico e menos informativo, principalmente depois da consolidação da internet, onde as empresas lançam suas novidades diretamente ao público (como a Nintendo faz com os seus Nintendo Direct, por exemplo) e a imprensa não tem mais acesso ao chamado furo de reportagem. Até aí tudo bem. É uma crise que o jornalismo como um todo está encarando.

O problema é que o jornalismo de videogame cai sempre no clichê na hora de se consolidar. Revistas de videogame são geralmente repetitivas e frouxas porque não se atrevem a contrariar as empresas – mesmo quando não há rabo preso como as publicações gringas, caso da Nintendo World brasileira, por exemplo.

O resultado dessa incapacidade é notável quando comunidades como o 4Chan  descobrem coisas que a própria imprensa poderia descobrir, tipo o caso dos 10 gazilhões de Playstation 4 vendidos. Isto é, a Sony anuncia esse número, mas se você for ao financeiro da empresa, vai verificar que ela engloba juntas, no mesmo número, as vendas PS3. Além disso, se forem cruzadas as vendas semanais do VGChartz, vai ver que aproximadamente 30% dos números de Playstation ainda se referem ao 3 (quando este texto foi escrito). Isto é, por cima, você já encara que 3 gazilhões dos consoles vendidos não são de fato o PS4. Isso porque estamos trabalhando com estatísticas recentes. Antigamente, as vendas do PS3 para o PS4 estavam 50-50. Ou seja, é um buraco gigantesco na informação repassada pela Sony.

(Ressalta-se que mesmo com todas essas trambicagens e rombos, o de videogame é o único setor que anda dá lucro para a empresa, para ver como a situação do lado deles está feia).

E cadê as análises de vendas como um todo? Não se vê análises financeiras realizadas por jornalistas de games sobre o mercado que ruma para um colapso. A geração anterior fez o mercado inflar de uma maneira absurda. Hoje, estamos com a nova geração aí apanhando para engrenar de vez porque ninguém compra console nenhum e essa ausência de vendas não é suficiente para segurar o grande monstro solto na geração anterior. É um crescimento muito grande que atualmente não se sustenta. A tendência é simplesmente cair vertiginosamente, assim como foi o seu crescimento.

Outra coisa que não falam é que não é só o Wii U que está mal das pernas. Os outros videogames também estão porque nenhum deles consegue sustentar as vendas. Nenhum estúdio anda com algum interesse real de desenvolver para essas novas plataformas – porque quanto mais avançado o hardware, mais complicado é para se desenvolver para ele – e, sem jogos, o console não vai vender mesmo. A Nintendo está tendo que passar por uma reformulação e assumir o próprio console como um produto de nicho de baixa elasticidade (já que o Playstation 4 e o XOne podem competir entre si por apresentarem características similares).

Agora, vocês sabem o que é a elasticidade que eu citei? É a atribuição econômica de uma variável sobre a outra. Isto é, como não existe um console similar ao Nintendo Wii no mercado, a Big N não tem concorrência direta e pode direcionar o seu público, enquanto os dois outros consoles precisam brigar entre si para justificarem a compra. Ou seja, deturpando o sentido da palavra só para fazer um trocadilho, você é mais elástico na sua escolha de console entre o XOne e o PS4, enquanto no Wii U, não existe alternativa.

E aí? Em dois parágrafos saiu uma pauta de análise de vendas com teor econômico, algo realmente difícil de encontrar nos sites de games aqui no Brasil. Até existe, mas eles vão parar aonde? Na editoria de economia.

Nerdy não lê jornal de economia.

Ou melhor, Nerdy não lê jornal.

Eles se reúnem para discutir os jogos e, se leem, leem algo da mídia especializada. Geralmente para usar como argumento a favor quando lhes convém.  O que falta é prática jornalística, de fato. A que esclareça tais números, cuja ideia seria pegar a análise de dados que a editoria econômica faz e cruzar com o conhecimento gamer – que o economista geralmente não tem. Por exemplo, que o súbito crescimento nas vendas do Wii U se deve ao lançamento de Mario Kart. Isso até rende uma nota no fim da matéria de economia. Se fosse o jornalismo especializado em games, a matéria seria focada exatamente nessa questão.

É algo que todo mundo já sabe? É. Só falta maior flexibilidade na hora da transmissão da notícia. Trazer uma consolidação melhor dessa informação que já permeia o senso comum. É um dos grandes paradigmas do jornalismo.

Afinal, o FIFA15 não vai ter times do Brasil. TODOS os veículos de maior porte que pesquisei simplesmente reproduziram o discurso da EA de que “É difícil trabalhar com os direitos dos jogadores do Brasil”. Agora, quem tem o mínimo de conhecimento futebolístico saberia que isso se deve à lei Pelé (que foi o início do fim do futebol brasileiro, aliás). Custa fazer uma matéria cruzando as duas informações? Trabalhar melhor na porcaria do press-release adicionando essa informação?

Isso tudo sem falar do panorama brasileiro. É uma imprensa fechada e sacana que não é feita por jornalistas de fato, por isso que deve tanto em qualidade jornalística. Você vê matérias sendo escritas por dedos de salsicha sem senso crítico algum na hora de fazer os reviews. Você vê matérias especiais com curiosidades que são facilmente encontradas na internet. Pelo amor de deus, vamos inovar um pouco, né? Faz um tempo absurdo desde a última matéria sobre mercado ou economia relacionada a games que eu li numa Nintendo World.

Aliás, a última revista que realmente tinha um conteúdo relativamente bacana desse que eu me lembre é a extinta NGamer Brasil. Só que a NGamer não mantinha um padrão. Era 50% exemplar, com textos excelentes – como o de Metroid Prime 3 e No More Heroes – e propostas que nem são tão originais assim, mas conseguem trazer um novo frescor ao panorama jornalístico em questão – como os Reviews de Super Smash Bros. Brawl e Super Mario Galaxy; e 50% lixo, com links imbecis e matérias dignas de blogueiros superficiais fracassados (tipo este que vos fala), cujo trabalho é apenas repostar links de youtube e notícias em seus próprios blogs.

Detalhe que esses quatro textos que citei como exemplares me encantaram porque eles realmente têm algum quê a mais na redação dos mesmos que acabou me convencendo de alguma forma.

Super Mario Galaxy, inclusive, tenho o hábito de pregá-lo como a maior enganação pela qual já passei, uma vez que, quando fui jogar, não me deparei com absolutamente nada de mais. Metroid Prime 3 também, ganhou um texto do caralho e realmente apaixonado (escrito pelo Eduardo Trivella, que agora se relega a traduzir material para a Editora Europa, triste) nas páginas da revista. Fui jogar e achei um saco. Contudo, jornalisticamente falando, eram textos fantásticos. O de Metroid, inclusive, era num modelo padrão de review simples, ele só foi bem escrito e acabou.

Agora, por mais que eu adore a Nintendo World, irei criticá-la sim, porque ela é confeccionada por uma galera que muitas vezes não detém nenhum conhecimento jornalístico, de fato (“revelações” obtidas direto da fonte, em off) e só está lá para jogar. E esse tipo de gente é justamente o que o mercado brasileiro (de jornalismo de games) quer, porque eles uma hora vão se cansar de trabalhar com isso; porque a própria editora não precisaria respeitar o piso salarial para jornalista formado em contratação CLT; e porque os figurões carimbados do mercado são extremamente alheios a algum jornalista jovem que tenha potencial de tirá-los de lá. Sabe aquele problema da CBF, sobre o fato de ela ser gerida pelos mesmos caras há décadas e que por isso não evolui? O jornalismo de videogame hoje é basicamente isso. Encontram-se sempre os mesmos nomes que não propõem renovação alguma, seja na prática jornalística, seja entre próprio corpo de jornalistas. Assim, tal prática fica basicamente travada.


(Olha a falta de profissionalismo e despreparo na entrevista. Eu como jornalista, que não sou um às da apresentação, consigo fazer algo menos ruim. A edição de vídeo também é lamentável. Aliás, podia rolar uma legenda, já que nem todo mundo entende inglês, ainda mais esse inglês sofrível do apresentador. Chega a dar pena, não de desprezo, mas de dó pelo nítido esforço que foi vão.)

Não entrarei muito fundo aqui sobre a questão da imparcialidade jornalística ou se o papel do jornalista é simplesmente repassar a informação, porque, seguindo esse segundo pressuposto, a figura da imprensa é totalmente dispensável nos tempos modernos, quando a informação chega ao público diretamente. Contudo, vou afirmar que isso é uma bobagem, porque o papel do jornalista não é repassar a informação, apenas, mas compreender o mundo como mundo e contextualizar o que nele acontece. A informação repassada não é contextualizada, é simplesmente informação bruta. Antigamente, o papel do jornal era passar tanto a informação quanto a análise. Hoje, como a informação é livre, cabe ao jornalista caprichar na análise justamente para manter a própria cultura viva e se manter necessária. Imparcialidade? Balela. Principalmente porque crítica é e deve ser sempre parcial. Ela só precisa ser fundamentada.

Talvez seja esse o principal problema do portal Kotaku. Digo, você percebe que a coisa está feia quando você pensa bastante e chega à conclusão de que o melhor exemplo positivo de como a prática jornalista deveria se dar é justamente o Kotaku. Isto é, eles ao menos tentam inovar nas pautas. A simples brincadeira que eles fizeram no Review de Batman: Arkham Origins é genial. É esse tipo de ousadia que você não encontra na imprensa de games, que se atém ao mesmo formato de sempre. O principal problema do Kotaku é que a crítica se dá muitas vezes com pouco fundamento, o criticar por criticar, simplesmente. Tem inclusive o causo do cara que fez um comparativo entre FIFA14 e PES2014, em que o autor puxava sardinha pro simulador da Konami, mas botou alguns pontos positivos bem idiotas no lado do FIFA (como a mecânica de chuva) só para não parecer tão cretino, mas já parecendo.

Enfim, pelas considerações finais, eu ressalto que realmente gosto da Nintendo World justamente porque ela é a única no panorama brasileiro que ainda tem alguma chance de conseguir se reinventar. É válido lembrar que, por mais que eu tenha a criticado horrores, a revista já teve momentos muito piores (uma época longínqua quando eles botavam Ben 10 e Dragon Ball na capa, aí é sacanagem). As da Editora Europa eram ótimas, mas hoje são ridículas porque não têm material original, simplesmente. Eu não vou gastar 12, 13 mangos numa revista para ficar lendo tradução. Eu vou ler a matéria original na internet.

De resto, é um mercado cansativo e enfadonho. É profissionalismo de menos pro meu gosto. A cultura jornalística em questão fica estagnada porque não se propõem a inovar. O público, que deveria confiar na imprensa, prefere se relegar nas próprias comunidades que têm uma lógica investigativa melhor do que a do próprio jornalismo, criticado também por não se adaptar ao novo mercado. É por isso que ninguém leva essa bodega a sério.

-P.S.1: Um adendo é que até a Globo tenta entrar no “mercado” de jornalismo de games com um programa durante a Madrugada. Jornalismo de videogame em programa televisivo é um conceito fundamentalmente estúpido. Ler sobre o assunto é uma coisa, mas se for para ficar assistindo parado feito um zé roela, é mais fácil e recomendável ir jogar a merda do jogo, de fato.
-P.S.2: Preciso mesmo largar de ter preguiça de fazer as imagens de abertura dos tópicos.
-P.S.3: Aliás, eu preciso é lembrar de postar os vários textos que escrevo e ficam arquivados porque tenho preguiça de postar.

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