Special Thanks: Satoru Iwata

Em grande maioria das condolências prestadas ao Iwata, acabei me deparando com algum tipo de ressalva à administração dele enquanto CEO da Nintendo. Inclusive a minha. Vendo tudo isso, será que estamos sendo justos? Com qual visão estamos fazendo essas críticas?

Eu sempre considerei a política da Nintendo (especialmente durante a era Iwata) um tanto quanto conservadora. Isto é, ela dificilmente licencia suas marcas para outros produtos; o console nem sempre era potente, preferindo apostar em hardwares que não são protótipos (o PS4 e o Xonão são praticamente protótipos colocados à venda, por isso a instabilidade e fragilidade) e sim sistemas bem mais maduros e concisos em suas capacidades; pouco interesse em conteúdo diferente de  rated for all e coisas do gênero. Além disso, a relação dela com outras empresas era de matar. Apesar de estar se dando relativamente bem com a Sega, Square Enix e sei lá quais outras, a Big N é bem hostil a outras Third Parties como a Ubisoft e a EA.

Contudo, essa política de negócios conservadora é necessariamente ruim? Digo, eu sou progressista e dificilmente acredito que “conservar” é algo bom, justamente porque o que está ruim precisa ser melhorado e porque o que está bom pode melhorar ainda mais.

Então, se você pergunta a qualquer jogador de hoje a respeito do que é um grande console, as respostas certamente variarão entre o Xonão e o Preisteicho. No entanto, quando perguntarem quais são os personagens mais icônicos, acredito que responderão Pikachu. Mario. Link. (Sonic também, mas os Seguistas hoje são para a indústria o que os Palmeirenses são para o futebol brasileiro).

Isso leva a crer que a Nintendo se firma não como uma empresa conhecida pelos aparelhos, mas pelos jogos. O que realmente deveria ser a indústria. Foda-se qual é o melhor aparelho. O que reproduz melhores gráficos. O que interessa é ser divertido. Preisteicho e Xbosta são dois consoles praticamente iguais, se realmente formos pesar tanto os jogos e os ideais deles. A Nintendo, por outro lado, sempre se preocupou com a questão dos jogos por si só.

A big N é uma Lovemark. Não sei se já coloquei isso aqui, mas as Lovemarks tendem a ser marcas que vão além de seus produtos, criando ideologias próprias. A Apple é uma Lovemark, por exemplo. Os fãs da Nintendo ficam por causa disso. No caso da concorrência criou-se uma disputa e os dois aparelhos são objetos de devoção, não por causa dos próprios, mas pela concorrência mercadológica entre eles, apenas. A devoção é a vontade de cair na treta e se sentir superior por ter escolhido aparelho X. Como a geração é mais nova, rola também aquela vontade de reproduzir a treta entre a Nintendo e a Sega dos anos 90. No caso da Nintendo, por mais chatos que possam ser seus fãs afirmando a superioridade, é porque a Nintendo tem realmente uma ideologia própria. E veja bem, não estou defendendo nenhuma das justificativas. Todas são imbecis. Eu só coloco lenha na fogueira nessa briguinha porque é divertido assistir.

Enfim, tal ideologia existe e pode ser comprovada justamente porque ela vai pela contramão do que o mercado pede. Da questão gráfica. Da questão de “melhor aparelho”. É muito interessante encarar o Iwata como um programador de jogos que virou o presidente de uma empresa, isso justificaria a visão conservadora de mercado dele. Dessa forma, a Nintendo continua a se focar em jogos. Colocando qualquer outro executivo lá – que provavelmente nunca botou a mão num controle antes -, a preocupação principal seria apenas o lucro e a Nintendo acabaria como uma EA, Sony ou Microsoft da vida. Podem vender muito, mas faltaria a alma.

É esse conservadorismo do Iwata que, ao mesmo tempo em que colocou a Nintendo em maus lençóis na indústria por não aderir às demandas da própria, permitiu que a empresa continuasse a ser receptiva e calorosa como ela é. Ressalta-se que a má relação da Nintendo com as Thirdies seja por conta disso. Primeiro porque a empresa não gosta de compactuar com essa ideia de produção em grande escala de produtos de bosta e feitos de qualquer jeito, praticada pelas outras. A EA não lança seus jogos na Nintendo por conta disso. Segundo, as próprias empresas sentem-se acuadas de fazer jogos para os aparelhos da empresa, uma vez que a Big N tem seus títulos de peso que serviriam como concorrência para os seus. Observe Bayonetta 2, Devil’s Third, Arkham Asylum (a edição especial) e o Fatal Frame. Todos eles têm dedo e bênção da própria Nintendo para evitar esse risco da concorrência.

Agora observe Watch Dogs e a discrepância em seu lançamento. Porra, a Ubisoft deveria estar com o cu na mão. Primeiro porque eu duvido que o jogo estivesse pronto como alegaram. Eles fizeram é um port nas coxas depois das versões principais. Depois é porque eles esperaram um período sem grande movimentação por parte da Big N para não ter que concorrer.

No fim, a questão do conservadorismo do Iwata servia para que a própria empresa não deixasse de ser o que ela é. Atrasada sob um ponto de vista de mercado? Certamente. Fiel às suas ideologias seculares? Idem. Acho que era isso que ele pedia para que nós realmente entendêssemos. Tanto que na GDC 2005 ele deixa claro: “No meu cartão está escrito que sou o presidente da corporação. Na minha cabeça, eu sou um desenvolvedor de jogos. No meu coração, eu sou um jogador”.

(Aliás, ele meteu a mão na massa e ajudou a desenvolver um montão de jogos, como Pokémon Red & Blue e Gold & Silver – tem um “Special Thanks: Satoru Iwata” nos créditos –, Earthbound e até o Pokémon Stadium).

Certo, o Iwata ainda pode ter deixado puto uma vertente de fãs da Nintendo que gostaria que a empresa seguisse os passos da concorrência e batesse de frente com as outras empresas, brigando de igual para igual; mas por que ele ainda assim causou comoção na indústria?

O Iwata era o Silvio Santos dos Games, pois ambos conquistaram a comunidade com seu jeitão próprio de apresentação. Assim como até a Globo abaixa a cabeça para o Senor Abravanel, é notável que todas as empresas enxerguem o papel que ele teve na indústria, deixando de lado qualquer competição mercadológica para prestar suas reverências. Por conta de seu papel como empresário e entertainer dos Nintendo Direct, poucas mortes na indústria causariam a mesma comoção (ou maior). Miyamoto é uma certeza. Talvez Gabe Newell, mas é válido lembrar que o Lorde Gaben é muito mais material para memes, apenas, enquanto o Iwata era presente com o próprio carisma.

E, assim como o dono do SBT, o Iwata era apresentador porque ele achava divertido. Só pelo Lulz. Tanto que ele não era restrito somente às E3 ou aos Nintendo Direct. Ele tinha lá seu programa de entrevistas. Era um pouco amador, mas acredito que seja esse amadorismo que o torne tão carismático. Você via sinceridade nele como apresentador.

Pessoalmente, fiquei bem abatido com isso. Falaram que ele não estaria na E3 por questões de saúde, mas eu achei que era por causa de uma gripe ou coisa similar. Ou ainda por vergonha da apresentação pífia que acabamos presenciando, até cheguei a questionar. E pensar que seu último pronunciamento público foi praticamente um pedido de desculpas por isso – falam que não foi a ideia, mas é óbvio que teve algum fundamento nisso, sim. Dá até um pouco de remorso. Ainda, a impressão que eu tenho é que deve ter rolado algum stress mental ao ver a repercussão negativa da apresentação e que piorou o estado dele. Agora a gente sabe que ele usou as marionetes para não deixar claro que ele estava todo abatido por causa do câncer. Agora gente sabe o motivo daquele vídeo final da Nintendo que parecia escroto, mas tentava exprimir uma ideia de pensamento positivo. Olhando tudo isso agora, nós sabemos e finalmente entendemos.

Falous, Iwata. Que sua sorte finalmente suba aos céus.

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3 respostas para “Special Thanks: Satoru Iwata

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