Direita-desu: O analfabetismo político da classe nerd


Na imagem, “Eduardo Cunha utiliza jutsu secreto para romper com o governo

Uma observação que fiz há alguns anos e ela cada vez mais se comprova é a de que o nerdy-gaymer-otaco é naturalmente reacionário para caralho. Eu simplesmente não sei como diabos essa relação se dá, mas ela se dá. Uns 70% da minha lista de amigos do Facebook que se enquadre na categoria Otaco ou Gaymer é reacionário. De uma forma que chega a ser escrota. Sempre fiz essa observação. O estopim para começar a escrever estes pensamentos que vão se desenrolar foi a notícia de que o governo ESTADUAL de São Paulo vai começar a taxar mídia digital (numa treta tributária com o município), no caso, num exemplo bem mais direto, os joguinhos do Steam.

Joguinhos.

JOGUINHOS, PORRA.

Quem reclama é imbecil. O governo está pouco se fodendo (com razão) para você se manifestando contra ele por causa dos seus joguinhos. Sério. Uma renca de nerdys revoltados não vai fazer com que ele mude de opinião. Lembra-se da campanha Jogo Justo? Imbecil também, porque já comentei aqui que o preço do jogo no Brasil é muito menor se comparado ao de dez anos atrás. Não é uma questão de imposto. Tem a ver com valorização do salário mínimo que, por sua vez, aumentou o poder aquisitivo do cidadão. Duzentos reais hoje não são nada comparados aos duzentos reais de 2002, que era nada mais, nada menos, o valor do salário mínimo.

A questão do dólar influencia? Claro que influencia. Antes de 2007 e o crescimento da crise imobiliária americana, o dólar era três reais. Com a crise, caiu para dois, o que barateou o custo da importação. Aí o dólar me sobe para três reais em 2015 e vem uma galera criada à leite com ovomaltine que ficou mal acostumada a importar bosta pela internet reclamando do dólar quando o valor normal já era três reais. (e entre três e cinquenta e quatro para o euro).

Voltando.

A questão do imposto não me importa. Na verdade, o que me incomodou de verdade foi quando abri os portões do inferno, ou melhor, a seção de comentários. Primeiro é o analfabetismo político de alguns já metendo a culpa no PT quando a situação é referente ao governo do estado, que, em toda a minha vida, nunca vi o PT botar suas mãos COMUNISTAAAAAAAAARGHS.

Segundo é a imbecilidade de outros afirmando que PSDB é de esquerda só porque tem social-democrata no nome. Tem que ser muito ingênuo – ou até mesmo imbecil – para acreditar nisso. Quer dizer que a Coreia do Norte e a China são repúblicas democratas só porque têm tais dizeres no nome (República Popular Democrática da Coreia e República Popular da China, respectivamente)? Quer dizer que o nazismo é de esquerda só porque tem socialismo no nome quando na verdade é de direita?

(Na verdade, o socialismo tem vários espectros que variam entre a direita e a esquerda, não necessariamente ligados ao comunismo.)

Isso sem falar nos caras que dizem que o Bolsonaurus é o candidato do futuro para 2018, que o único partido de direita no Brasil é o NOVO – como se o PP e o Democratas, de descendência direta da ARENA, partido militar, já não fossem… ah, esqueci que os militares eram de esquerda também, segundo a lógica psicodélica olaviana -, que o Brasil precisa de uma guinada conservadora e esse tipo de imbecilidade. Cara, guinada conservadora? Quem pede isso é imbecil pacas. Como algo conservador é bom? Conservador é o antônimo de progresso. PROGRESSO, porra. Conservador também é antônimo de MUDANÇA. Como vocês querem que haja mudança se pregam o conservadorismo? Larguem a mão de ser imbecis e vão fazer o EJA porque a interpretação semântica está ruim.

Indo além da questão do governo. O que eu conheço de nerd que idolatra a Rachel Sheherazade, que vê o movimento feminista com demérito e coisa do tipo é de doer. Essa galera sempre tirou uma nota mais alta no ensino médio do que os “fuckin normies”, se acham os grandes gênios e que, automaticamente, vão poder julgar essas questões sociais que muitas vezes não lhe dizem respeito. ETECs e Universidades Federais, por exigirem uma nota de ingresso superior, acabam se tornando antros para essa galera. É claro que tem a parcela da esquerda também, mas essa turma reaça existe em peso em universidades e escolas públicas.

Aí abre a discussão: Se o Ministério da Educação e Ciência – o tão falado MEC – trabalha com a doutrinação esquerdista em escolas públicas, como é que existe tanto nerdão reacionário assim? Eles devem ter falhado miseravelmente, né? E o pior é que esse discurso é reproduzido de uma forma que enaltece a suposta inteligência dos caras. Sabe aquele lance do filme que quer se fazer de complexo, mas joga a explicação cuspida na cara do público só para fazê-lo se sentir mais inteligente por ter entendido? É nessa pegada. Mas vamos parar por aí e voltar à questão do Nerdão.

Por incrível que pareça, esses caras mais nerdões que se acham acima dos normies do ensino médio deve ter algo a ver com o conceito da esquerda festiva do Pondé. Só pode. Os caras são traumatizados por não se enquadrarem nas festanças – aí eu faço um adendo porque até o meu eu nerdão é avesso à baladas – e coisa do tipo e jogam a culpa na esquerda festiva que geralmente não precisa passar pelo ritual hipócrita da cantada para dar uma fodinha casual. E o nerdão tem medo do ritual porque precisa fazer esse primeiro contato na base da balada, algo do qual ele realmente tem certo medo: socialização.

No caso do otaco, deve rolar também a questão do vício com o Japão. Os caras lá (no Japão) são ultraconservadores. Porque os otacos veem nos animezinhos que é algo lindo se matar de estudar, ser o filho ideal naquela família feliz, valorizar o trabalho duro e esse monte de merda. Além de desvalorizar a cultura brasileira que teoricamente se resume a carnaval e futebol. Só que tem uma coisa. Uma nação que tem o oral bar não merece respeito. Uma nação que precisa avisar à população que robôs não são entretenimento sexual não merece respeito. (Ou melhor, até merecem respeito, mas não podem ser endeusados como superiores porque não são, são diferentes, apenas). Esse monte de sacanagem que os japoneses fazem não é muito diferente do que o nosso carnaval.

Afinal, é lindo criticar o carnaval por ser só peito e bunda, mas também é lindo assistir, sei lá, Highschool of the Dead, né?

Lembro também da questão do moe, defendida por um reacionário como nada mais do que uma forma de relaxar sem se preocupar com os problemas. Ou coisa do tipo. Isso nada mais é do que o Leviatã e o Estado Forte pregado por Hobbes. No caso, o Estado cuida de seus problemas (de uma forma avessa ao cidadão da Pólis grega, onde todos davam pitaco a respeito da comunidade) e o cidadão vive sua vida como bem entende. Ele praticamente entrega sua responsabilidade ao Estado, que tenta fazer a vontade da maioria e toma suas decisões. Pô, assim, o cara vendo o moe slice of life – em resumo, nada – é um atestado de que ele realmente não quer pensar. Não quer se preocupar com nada.

Só com o próprio joguinho. Com o próprio bolso. Engraçado reclamarem do preço, sendo que o gaymer e o otaco não gastam um tostão com videogame ou anime. Eles baixam da internet e pronto. Importam do exterior e torcem para não cair na alfândega e ser taxado porque querem fugir do procedimento correto a se seguir, sonegando o imposto.

Tem também a questão de páginas de Facebook, onde isso só se alastra. A única página de esquerda mesmo relacionada ao assunto é a “Estudando para concurso público com a Waifu” (de onde as imagens deste post foram retiradas). E só. Você vai pegar as montagens políticas durante as eleições que se relacionam com anime, mangá ou game, 90% delas são reacionárias. Até a de Pokémon, da qual eu ri pacas.

Eu não queria começar a tratar de política aqui, mas como o assunto tem viés tanto político quanto o cultural, ainda se enquadra no perfil do blog. Bom, eu não vou perder seguidores com isso, já que sei que não tenho nenhum. Com relação à minha fatídica lista de amigos que eu citei, a sorte é que um bom naco dela ainda está disposta a pelo menos ouvir. O ódio, se é que destilam, ao menos é longe de mim.

P.s.: Não sou só eu que compartilho dessa ideia. O J.M. Trevisan, co-autor de Tormenta, já escreveu sobre isso antes de mim aqui.

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10 respostas para “Direita-desu: O analfabetismo político da classe nerd

  • fabricioogrande

    Melhor artigo com as melhores imagens!!

  • fabricioogrande

    O botão de reblog chega a penicar :v

  • Dani Schmmit

    que legal que você considera as opiniões opostas as suas como analfabetismo politico.

    assim é fácil né?

    “Eu sou o Rei da verdade e muito culto e inteligente, e quem discorda de mim é machista, ignorante a analfabeto político”

    Vou te dar uma dica: você não é deus detentor da verdade, e sua opinião NÃO vale mais do que a dos outros.

    • Creissonino

      Eu falei que valia mais? Eu simplesmente coloquei minhas opiniões sob o ponto de vista meu como jornalista político e entusiasta cultural. É isso.

      Você se ofende com analfabetismo? Porque isso não é uma ofensa. Analfabetismo, no dicionário, tem como uma das definições “sem instrução”. O que se faz com aqueles sem instrução? Você instrui. Você fala que é errado (ou certo), igual ao que estou fazendo aqui. De forma agressiva, concordo, mas estou fazendo. O mesmo vale para ignorante. Ignorante é aquele que ignora o fato. O fato é que você vê uma onda grande de reacionarismo pregado sem nem se tocar que reacionarismo vem de “reação”, agir contra a mudança.

      Porque vejamos, fatos são fatos e opiniões são baseadas em fatos. Opiniões erradas são derivadas de fatos errados. Uma opinião de que o PSDB é de esquerda só porque tem social-democracia no nome é errada porque o social-democracia no nome do PSDB não o coloca como um partido social-democrata, principalmente ao averiguarmos as ações tomadas pelo partido, seja durante a era FHC, seja no governo do PSDB em São Paulo, no governo tucano do Aécio em Minas, na prefeitura do Serra e do Alckmin aqui em SP e assim vai. E veja, eu não estou criticando o governo em si, estou simplesmente atestando que o governo tem um viés que não é o da social-democracia.

      A questão é: Aos analfabetos, os não-instruídos, estou aqui instruindo que a coisa não é bem assim. Quem não para nem pra pensar a respeito disso, aí sim, pensa que é o rei da verdade.

      E sim, você pode questionar. Só não vale chegar na voadora usando o ad hominem sem nem levar em consideração o que foi escrito de fato.

      Obrigado pelo comentário, volte sempre :^)

  • Norm

    Vamos lá. Primeiramente, não é importante decidirmos o que é direita e esquerda? Falar que a direita é um analfabetismo político é um tanto quando pretensioso, já que faz parecer que não existem pessoas politizadas de direita. (Aliás, é isso que você quer dizer, não?)

    Gosto de ver como você tratou o conservadorismo; mas, embora eu não seja conservador, preciso avisar que não existe uma verdade perfeita e cabal. Dizer que o conservadorismo é ruim é uma análise completamente normativa. Não há nada que possa provar que diga que ele é o câncer da política, isso só pode ser observado por juízo de valores e, portanto, muda de pessoa a pessoa, opinião a opinião. Como eu disse, sou bem pouco conservador na maioria dos casos, mas existem situações onde precisamos tomar cuidado no quesito de “progresso”. Até que ponto as mudanças na ética, por exemplo, devem ser aceitas? É certo matar uma pessoa? Boa parte de nós diria que é errado, mas em momentos onde pessoas de grupos desprivilegiados fazem atrocidades similares numa situação que é produto de uma injustiça social causada por desigualdade, os valores éticos tendem a se tornar bem turbulentos. Conservadores vão pedir o completo afastamento da pessoa (ou até a imbecilidade que alguns defendem, chamada pena de morte). Os mais liberais, por outro lado, podem criar um relativismo que afeta toda a manutenção da solidariedade em geral. Qual dos dois estão certos? Exatamente, não é uma questão de 8 ou 80. Existe um ponto no meio do caminho que pode ajudar a arrumar a situação de injustiça social e, ao mesmo tempo, fazer a manutenção correta das relações de solidariedade. Esse ponto tem aspectos tanto conservadores (que muitos demonizam) quanto liberais.

    Bem, dito isso, vamos ao que importa. Direita e esquerda. É importante entender que o que eu falei acima não é relacionado à dicotomia típica da direita e esquerda. Então parem de bitolar que direita é conservadora e esquerda é liberal. Autores e cientistas políticos como Norberto Bobbio e Anthony Giddens criaram alegorias muito interessantes de se observar, quebrando a ideia típica de uma régua política super afastada e completamente reta. A régua política, para eles é um C, onde existe um ponto específico, na extrema direita e na extrema esquerda, em que não se consegue mais diferenciá-las. Esse ponto se divide em duas bases totalmente diferentes. O anarquismo e o totalitarismo. Para explicar isso, eles nos dão um ponto muito interessante: A direita existe na expectativa de defender a liberdade individual acima de qualquer coisa. A esquerda exista na expectativa de defender a igualdade entre pessoas acima de qualquer coisa.

    Quanto mais para a direita, mais a liberdade é o ponto importante (o que ocasiona em uma esquizofrenia chamada fascismo, que literalmente é uma ditadura para “proteger a liberdade”, vai entender), mas em certo ponto, essa liberdade total alcança um outro patamar. O anarquismo é, por sua ausência de estado, um nível de completa liberdade.

    Quanto mais para a esquerda, mais a igualdade é o ponto importante (o que novamente ocasiona em uma esquizofrenia chamada socialismo, que também é uma ditadura para “proteger a igualdade” e que cria desigualdade entre o estado e aqueles defendidos por ele, novamente, vai entender), mas, também, em certo ponto, essa igualdade total alcança um patamar que nós já conversamos. O anarquismo. O anarquismo e o totalitarismo, sendo opostos entre si, também são o ponto de intersecção entre a esquerda e direita.

    Parece que a dicotomia não é tão típica como nós acreditávamos que era.

    Bom, para fazer um tl;dr vou deixar a conclusão abaixo:
    Não é certo fazer esse maniqueísmo político. Direita e esquerda tem seus pontos importantes em cada lado. O neo-liberalismo e a social-democracia, na realidade, são pontos bem próximos na área central entre esquerda e direita. A direita é tão errada e tão certa quanto a esquerda. Para realmente termos um mundo um pouco melhor, politicamente falando, devemos aprender a encontrar a posição ótima no centro dessa régua redonda que tanto falamos e pouco entendemos. Ou é isso, ou é o anarquismo. (Mas todos sabemos que anarquismo é utópico demais, embora seja tão sedutor.)

    • Creissonino

      Sim, sim, você está certo e eu concordo com você. E eu não estou analisando a direita como ruim – principalmente porque é o que você falou, são dois lados da mesma moeda e os dois lados têm os seus problemas.

      A minha principal crítica, porém, não é acusar que a direita em si é analfabeta política, mas que o analfabetismo político desses indivíduos os faz tender para a direita e, consequentemente, a falta de coletivismo, prezando pela individualidade.

      Digo, para que o governo – independente agora se é federal, estadual ou municipal – anda implementando novos impostos? Para tentar dar um fim no rombo dos orçamentos (isso de maneira simplista). No caso do governo do estado, ele está sem dinheiro porque o federal está sem dinheiro para repassar. Aí a gente vê aumento de imposto, suspensão da devolução do programa da nota fiscal paulista e assim vai. Essa questão da coletividade que falta, de compreender que o joguinho não é mais importante do que a questão da sociedade coletiva. Digo, se o governo não se conserta, vai ser ainda pior para um futuro corrigir e aí a situação do joguinho vai ficar realmente feia.

      Só vou repetir. Não estou acusando a direita como um todo. Eu critico o analfabetismo político que tende para essa direita, presente na cultura nerd que eu acabei citando e que acaba ferindo o convívio social. Principalmente porque também existe analfabetismo político na esquerda.

      Mas eu fico muito feliz mesmo que haja gente aparecendo por aqui com esse ponto de vista. E o melhor, trazendo algo a mais à discussão para que ela possa se desenvolver melhor. Obrigado pelo comentário!

      • Norm

        Hmm… Agora consegui entender um pouco mais o motivo do post. Dessa forma eu devo concordar, realmente. O analfabetismo político deles os tendem a direita não por compreender os ideais políticos dessa posição, mas simplesmente porque eles não entendem o que está acontecendo e essa posição parece ser mais “cool”.

        Eu só tenho um pouco de irritação de ver essa briga de “esquerda vs direita” por pessoas que se grudam em seu ideal como se fosse um time de futebol, sem pensar em nem ao menos considerar os outros lados. No final, você estava falando exatamente desse tipo de pessoa. Devo até me desculpar se acabei ofendendo em algum momento.

        O texto está realmente interessante nesse quesito.
        Obrigado.

      • Creissonino

        Que é isso, apareça mais vezes! É o que eu falei, é bom quando o debate vai se aprofundando com os comentários. Não que um comentário de “bom texto” não seja ótimo, mas esse debate que é o interessante.

  • johnny jyoshter

    não dou nem bola, um nerdy-gaymer-otaco de verdade não pode ter mais de 11 anos, é a lei

  • Lucas Kugler

    Adorei a sua análise. É reconfortante saber que alguém também percebeu esse fenômeno de crescimento do conservadorismo entre os nerds, otakus e – especialmente – os channers. Já fiz parte dessa ultima tribo e posso entender uma parcela da justificativa que leva a gurizada para esse espectro político. A “esquerda festiva” intimida o introvertido, o retraído, o garoto que passa horas no computador navegando pelos fóruns channers da vida. Como resposta, os memes da direita que marcam muita presença nestes lugares, acabam oferecendo um reconforto e uma certa sedução – é fácil se apaixonar pelo discurso ordeiro, autoritário ou não, mas que demonize aqueles com os quais você não consegue socializar, se enturmar. Vejo o conservadorismo como um protesto destes jovens, um protesto contra a institucionalização do politicamente correto e da diversidade cultural e, também, contra as expectativas de sucesso social que não foram realizadas.

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