Spaceboy, Are You Sleeping Now?

O começo dessa estranheza espacial me começou quando eu era bem pequeno. Esse “pequeno” de não lembrar absolutamente nada a respeito. Segundo alguns relatos, eu era ninado ao som de Life on Mars? no antigo aparelho de som aqui em casa. Desde então, sempre escutei suas músicas de nos últimos dez anos para cá, meu vício no trabalho do Camaleão do Rock só aumentou.

A notícia de sua morte foi uma espécie de Deja Vu. Digo, no dia 25 de junho de 2009, eu cochilei durante a tarde inteira e lá para as seis da tarde, quando desço para comer alguma coisa, meu pai aparece falando que o Michael Jackson tinha batido as botas. Hoje, dia 11, eu também estava dormindo. Meu despertador tocou e, logo em seguida, eu não tinha nem saído da cama ainda, minha mãe aparece, avisando que o David Bowie tinha morrido. “Mó mentira”, respondi, rindo da cara dela. Ela falou que não e eu entrei rapidão na internetcha para confirmar.

Eu não sei o que dizer aqui. Sem brincadeira. Tentei escrever esse texto já umas quatro vezes, mas não sai nada realmente coerente. Nas outras versões, levantei várias questões. Uma delas é que eu acho que, por mais bem reconhecido que David Bowie seja, ele ainda é um artista subestimado. Digo, assim como foi com o Michael Jackson, sempre caçoaram minha obsessão pelo Camaleão do Rock. Não estou com aquele mimimi de “eu já era fã antes” ou coisa do tipo, só estou levantando que, se debochavam dele antes, significa que não o levavam tão a sério como outros artistas.

Aliás, eu ainda queria entender o porquê de uns caras como o Axl Rose e o Slash serem tão estimados e idolatrados e o Bowie era só chacota, mas tudo bem. Isso me lembra inclusive de um trabalho que eu estava fazendo na faculdade sobre Rock’n’Roll e eu peguei Bowie. Enquanto a professora – dessas entendidas de tudo, só que na verdade, não – apoiou até a porra do Gãns como um dos artistas a serem analisados, soltou que Bowie era um artista menor. E o fogo desse comentário, do jeito que sou, é óbvio que tentei apagá-lo com gasolina.

Nas outras versões do texto, também levantei que várias das tendências da indústria da música tinham sido levantadas pelo Bowie antes de qualquer um. Digo, a começar pelo próprio Moonwalk, que, apesar de ter sido popularizado pelo Michael Jackson quando o passo de dança era restrito apenas à algumas culturas afrodescendentes americanas na década de 80, Bowie já tinha o realizado em 1974, na turnê de Diamond Dogs.

Essa mesma turnê que viria a revolucionar – junto da Glass Spider Tour – os shows musicais de hoje que não são apenas apresentações, são espetáculos visuais. Aquelas coisas de trocar de roupa, coreografias ensaiadas e o palco como uma grande estrutura. Foi Bowie quem começou com isso.

Além disso, qualquer coisa feita hoje pode ser respondida com um “Bowie já fez isso”, em alusão ao episódio de South Park, “Simpsons Already Did It”. A Lady Gaga, por mais exótica que ela seja – e olha que eu gosto do exótico – nunca me agradou justamente por esse motivo, ela é repetição. (Aliás, a introdução toda de Born This Way é rip-off de Glass Spider). Mesmo os artistas recentes que eu adoro, como Janelle Monáe tiveram inspiração clara. Aliás, tem outro texto meu aí que trabalha justamente na ideia de que The Archandroid é justamente o Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars do século XXI.

Bowie é um ícone existencial. O Pop performático só passou a se proliferar na década de 80. Antes disso, a única referência possível era Bowie. Por causa disso, a existência da MTV se deve basicamente ao Bowie, que trouxe o visual ao musical. Que criou um conjunto. E ainda ouso dizer: Bowie não era um músico ou artista. Ele era um contador de histórias. Não digo apenas conceito para um álbum, mas histórias narrativas com começo, meio e fim. De Ziggy Stardist e Major Tom a Nathan Adler, de Outside. É claro que o conceito também existe. Blackstar inteiro é sobre o tema morte – e o que podemos tirar dela. Oh! You Pretty Things! Flerta com conceitos de Nietzsche que, apesar de acusar a vida moderna de ser um vazio existencial, ainda considerava a música como algo essencial para a vivência: “Sem música, a vida seria um erro”.

Eu fico muito satisfeito de ter presenciado alguma coisa disso. Digo, o trabalho está aí para qualquer um, porque ele se foi e as obras ficam. Eu me refiro especificamente aos seus últimos anos de atividade, aqueles em que houve uma atividade criativa. Cheguei a pegar no primeiro minuto do anúncio do The Next Day quando foi divulgado na Rede Social. Aliás, fiz até um post a respeito. Cheguei a acompanhar toda a promoção do disco e o comprei logo no primeiro dia em que ele estava nas lojas. Fiz uma crítica “quente” a respeito de minhas impressões e interpretações pessoais (que aliás eu considero ser um dos meus melhores textos aqui do blog). Logo depois eu tive a oportunidade de ir DUAS vezes à exposição David Bowie Is que teve no Museu da Imagem e do Som aqui em São Paulo, que continha material que ia desde manuscritos originais às suas roupas mais exóticas. Peguei quando Blackstar foi anunciado recentemente e tudo mais. Posso não ter pegado a era mais intensa (eu não estava nem no saco do meu pai durante a década de 70), mas fico extremamente grato de ter presenciado alguma coisa.

E eu gostei de The Next Day. De verdade, talvez um dos melhores trabalhos dele, de um modo geral. É como se os dez anos de pausa fosse porque ele, com esse trabalho, era simplesmente um “homem nas estrelas que queria vir e nos encontrar, mas acreditava que ele iria com ele estourar nossas mentes”. E tinha razão. Blackstar, por sua vez é um negócio que não é indescritível. É claro que quando eu escutei eu tive vontade de morrer, de tão deprimente que era o negócio, mas depois ficou claro que era essa a intenção mesmo.

Também tem o fato de que ele é provavelmente o artista que foi mais tocado nas minhas playlists nos MP3/celulares da vida. Vamos lá, eu tenho um negócio que chamo de trindade, como pessoalmente chamo os artistas mais importantes para mim. Bowie é um indivíduo da trindade ao lado de MJ e Prince. O que acontece é que o Michael Jackson já me cansou por ser pouco versátil, além de, na infância, tê-lo escutado muito mais do que Bowie, que só peguei o hábito de ouvir um pouco mais velho, como comentei no começo do texto. Prince eu adoro, o problema é que suas músicas são muito pesadas para o cotidiano. As minhas canções favoritas são magníficas, contudo, elas são muito fortes, muito metidas a épicas para ouvir no metrô, por exemplo. Ouvir Thunder, do Prince, enquanto eu ia para a Faculdade era algo muito exagerado e pretensioso.

Bowie, por sua vez, é de uma variedade temática que nunca vai cansar e pelo menos alguma canção será pertinente para o momento. Se eu não estou com vontade de ouvir certa música em determinado momento, eu simplesmente passo na playlist porque eu sei que vai cair em algo totalmente diferente.

Eu já não sei mais o que escrever. Eu nem acho que esse texto faz sentido ou sequer está bem estruturado. Eu só não queria deixar passar em branco. E eu fiquei um tempão pensando no que escrever, por isso que demorou para essa postagem sair. Não é igual ao Iwata, a quem prestei homenagem, mas sabia exatamente o que falar, a que ponto centrar (no caso, foi a ressalva que fiz sobre a suposta administração ruim em seus últimos anos de presidência). Aqui eu simplesmente só sinto a necessidade de não ignorar o ocorrido, de me manifestar de alguma forma. Talvez eu faça uma análise de Blackstar mais para frente, quem sabe?

Vi vários textos sobre “como David Bowie mudou a minha vida”. Bowie não mudou a minha vida. Ele a moldou. Ele a definiu logo em sua formação. Passei os últimos dias ouvindo suas músicas e como cada uma trabalha o existencial do ser humano. E cada uma agora me faz questionar o vazio existencial deixado pelo próprio Bowie. Seria ele Ziggy Stardust? Ele, que até seu leito de morte ficou fissurado trabalhando em um último álbum, “sucked up into his mind/like a Leper Messiah”, com o câncer o corroendo? Seria ele Major Tom de Space Oddity e nós o controle da Terra? Ele, que se foi enquanto nós gritávamos no fone “Ground control to Major Tom/Your circuit’s dead, there’s something wrong/Can you hear me Major Tom?/Can you hear me Major Tom?” enquanto ele flutua em sua cápsula muito acima do nosso mundo. De lá, ele vê que o planeta Terra é azul e não há mais nada que ele possa fazer. Se bem que talvez não devêssemos nos preocupar ou lamentar tanto assim. Afinal, “Ashes to Ashes, funk to funky/We know Major Tom’s a junkie/Strung out on heaven’s high/Hitting an all-time low”.

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2 respostas para “Spaceboy, Are You Sleeping Now?

  • Doc Cocamonga

    Bowie foi um artista muito importante para a indústria, ele conseguiu estabelecer cânones no pop (embora eu deteste o segmento) tentando trazer pro estilo a mesma rebeldia dos demais gêneros marginalizados, não antes dele ter explorado estes mesmos universos.

    Redescobriu artistas como Lou Reed, Iggy e até mantinha interesse na galera do krautrock, a futura musica eletrônica, ao mesmo tempo apresentando uma postura similar ao punk pelo menos no achismo de querer fazer o que desse na telha.

    A indústria de muito bom grado deu uma bela rasteira no cara pra se arrebentar na sarjeta, apoderando-se e até estereotipando sua imagem e adoção de alteregos, estes agora cada vez mais lúdicos na década de 80 até o cara voltar a estabilidade.

    Bowie sofreu o mesmo mal do Lemmy, Iggy, Zappa e até o George Clinton, este aqui então merece mil vezes mais respeito que o MJ, que embora um notável artista teve que diluir a verdadeira soul music pra branquelada caretona.

    Essas criaturas citadas trouxeram inovação ou no mínimo personalidade, por mais que tomassem erros ou repetissem fórmulas, estabeleceram conceitos hoje ingeridos pelas crias clichezentas de laboratório das gravadoras.

    Escutem o Camaleão!, Tão fazendo um bem danado pra desobstruírem o cérebro, do Space Oddity até o Aladdin Sane tá valendo, o resto eu não boto a minha mão no fogo porque o Let’s Dance pra mim foi o começo do fim.

  • luizsazon

    Texto legal, fugiu do clichê ”bowie é a minha vida”

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