Um Manifesto Pelo Cinema Mudo

Acredite se quiser, texto postado originalmente no Facebook. Mexi em uma coisa ou outra só para se adaptar ao blog.  

Quando eu era molequinho, aprendi que não se fazia absolutamente nenhum barulho em cinema. Ser o mais quieto possível. Lembro quando eu fui ao cinema pela primeira vez na vida, ver Tarzan. Eu tinha segurado a minha ida ao banheiro ao extremo porque eu não queria fazer barulho para ir ao toalete. Quando eu fui crescendo, também fui ficando meio retardado e esqueci isso.

Sim, eu era um chatonildo que precisava ficar comentando o filme com o coleguinha do lado. Isso lá pros meus 15-17 anos. Quem me conhece sabe que sou um desses chato que quando começa a falar, não para. Aliás, uma das vezes eu quase fui expulso de tanto arrastar com o filme. Atividade Paranormal: Tóquio era ruim. Eu não conseguia deixar a piada de lado. Aliás, você sabe que esse filme específico era tosco quando até o mais comportado da turma estava soltando umas piadas.

Depois dos 18, eu fui repensando várias atitudes imbecis na minha vida e essa – de tagarelar no cinema – me surgiu como uma delas. Aos poucos, fui pegando o hábito de não fazer absolutamente comentário algum quando ia ao cinema. Foi difícil porque era um hábito, mas aos poucos eu consegui me calar de uma vez. Digo, durante o trailer ficar falando é de boa, mas no instante em que as luzes são apagadas e o filme começa de vez, não abro mais a boca.

Essa mudança até surpreendeu alguns colegas meus. Quando fui ver Godzilla, alguém atrás de mim não parava de falar. Em vez de chamar a atenção da pessoa, reclamando e atrapalhando ainda mais o filme dos outros – coisa que eu faria –  eu simplesmente desci até a primeira fila onde geralmente não fica ninguém e assisti ao filme até o fim.

Com essa guinada nos meus hábitos, fui percebendo que essa cultura do silêncio que eu aprendi quando era moleque não existe mais. Não era só eu que tinha a largado, esquecido, e ficava fazendo comentário e estardalhaço durante a sessão. Falar não é algo que não é bem visto durante o filme. E não apenas falam ou comentam. As pessoas conversam. E ainda, ligam a porra do celular quando toda santa sessão tem o videozinho cantado que avisa para desligar o celular. Como se não bastasse aquela luz daquela porra daquele uatizape, as pessoas atendem quando o aparelho toca e ficam falando. E falando. E falando. E falando.

Aí eu começo a me questionar. É, de fato, errado acreditar naquela questão de que filme dublado e sessão barata no Cinemark chama a galera que faz isso. O problema é que é difícil deixar de acreditar nisso.

Semana passada ou retrasada eu fui assistir Hateful Eight num cinema desses chiques com cadeira reclinável cujo ingresso custava um rim. Hoje, fui ver Creed num Cinemark de bairro baratão. Não ouvi um pio sequer de ninguém em Hateful Eight. Hoje, no entanto, eu mudei de lugar umas três vezes para evitar as crianças fazendo bagunça e o pai, que em vez de repreendê-las, incentiva a conversa, explicando o filme linha por linha. Para evitar o casal que teve a audácia de tirar Selfie no meio do filme. S-E-L-F-I-E NO M-E-I-O DO FILME. Para evitar a moça que atendeu ao celular que tocou e, como se não bastasse, ficou falando por uns dez minutos.

Isso porque aqui não é o caso, mas vale citar os “Extra Points” por rir (e alto) do que não é piada, especialmente em filme da Marvel, onde qualquer merda os HUES já começam a gargalhar feito uns imbeciloides. Aliás, é por isso que a Marvel está cada vez pior, porque essas pseudo-piadas dão audiência virando memes e isso se tornou a receita deles para render uns 500 milhões marotos na bilheteria logo de cara.

E assim, não vejo problema em barulho de pipoca. Eu adoro comer pipoca e acho que é válido. Não peço pelo silêncio absoluto porque é mesmo difícil – o mudo do título do texto é licença poética-, mas tem horas que é realmente foda.

Deveriam é fazer entradas de fone de ouvido nas cadeiras e pegar o som direto da fonte. O fone eles poderiam entregar na entrada e pedir para devolverem na saída, já fazem isso com óculos 3D mesmo.

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2 respostas para “Um Manifesto Pelo Cinema Mudo

  • Doc Cocamonga

    Parei de ir pro cinema (agora ‘kinoplex’ pro roubo ser justificado) por essa falta de educação. Paga um preço absurdo por qualquer serviço nele e ainda tem que aturar toda a sorte de malas. Pra piorar são poucos os filmes que tão prestando, seja os revivals de tudo, diretores antigos agindo feito caducos ou horror atirando qualquer merda na tela achando que isso é sinônimo de medo, parece mais arcade de tiro.

    -Ah mas vai dizê que tu não tira sarro com a galera dum filme ruim e não atira pipoca nos outros ou escuta funk no celular enquanto passa a história?

    Acho melhor baixar/assistir online o filme escroto, reunir a turma pra debochar a vontade do que encher o saco dos outros, ainda mais por essa bosta de usar celular em tudo. Porra, celular em aula pra não copiar quadro, celular em consultório, daqui a pouco celular até no mercado negro de órgãos? São o que pra ficarem tanto no celular? Investidores da bolsa?

  • republicadoshoujo

    Concordo com você. Com o tempo perdemos costumes e percebemos quando é tarde demais, no caso, é o silêncio básico do cinema. O mais engraçado é que geralmente tais hábitos que são deixados para trás só são valorizados quando uma parcela considerativa da população não contribui mais com isso, passando a ser complicado e voltar ao que era antes.
    Saudades do tempo que assistia meus filmes do lado dos meus pais em paz….

    ótimo texto ❤

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