Análise: Ghostbusters – Quem tem medo de chororô?

Fui ver o novo Caça-Fantasmas. Não me meti nessa parada de arrastar com o Trailer porque é bem comum de filmes bostas terem trailers bons (Iron Man 3) e filmes bons terem trailers bostas. O fato de ser um reboot não me incomoda mesmo. O problema que eu realmente tinha era que o filme, como filme, fosse ruim. Independente das protagonistas serem só mulheres, ser um reboot de gente que fica chorando com “ain, minha infância” e os caralhos a quatro.

Eu até torcia que o filme fosse bomba porque eu quero é que a Sony se foda mesmo. O grande problema é que é um bom filme. Ao menos, é melhor do que o Caça-Fantasmas 2 e aquela merda lá com o quadro do Viggo. Como filme, tecnicamente falando, é até melhor do que o primeiro, que vai continuar levando méritos justamente porque na época era uma ideia original e fresca.

Esse reboot, por sua vez, pega características do primeiro e do segundo filme na construção de si mesmo. Ainda, as personagens são versão distorcidas e reversas dos personagens originais – ou talvez isso seja só minha cabeça forçando alguma assimilação onde não deve ter, mas enfim. A questão é que o filme aqui começa com a Eriin Gillbert (Kristen Wiig), uma professora universitária que descobre que uma amiga de infância, Abby Yates (Melissa McCarthy) botou um livro que ambas tinham escrito há anos à venda na internet por causa de um velho que tinha pedido ajuda para resolver um problema na casa dele. Ela, como qualquer acadêmica de respeito, vai tirar satisfação porque não quer se meter com o que não é ciência de verdade.

Acontece que as duas, mais a loirinha waifu, Jillian Holtzmann (Kate McKinnon), acabam indo investigar a parada do fantasma na casa do velho. Um vídeo delas cai na internet, a Dra. Gillbert é demitida e vê que não tem escolha senão se aliar à amiga de infância nesse novo negócio. Acontece é que a Abby também era uma estudiosa, mas numa faculdade fundo de quintal, e foi pedir mais verba ao reitor, que acabou demitindo todo mundo também. Elas decidem, então, abrir a própria sede. Depois de verificarem o aluguel de um QG do corpo de Bombeiros antigo (igual à série original), acabam indo trabalhar no andar de cima de um restaurante de comida chinesa.

Eles também contratam o Kevin (Chris Hemsworth, o Thorzão da massa), que passa a ser o secretário imbecil delas. É, o filme fez com que todos os personagens sejam meio imbecis mesmo, não que eu considere isso um defeito, porque em tela, funciona. Essa cena me lembrou um pouco do meu primeiro emprego, foi uma agência que ainda estava começando e ficava bem na Liberdade, bairro oriental, mas isso não é relevante para a análise. Elas também contratam Patty Tolan (Leslie Jones), uma ex-funcionária do metrô que tinha ido pedir ajuda para resolver um dos casos de assombração.

Depois de tais casos, as garotas descobrem que eles formam um padrão que direcionam a um último lugar, um hotel. Lá, um trabalhador maluco acaba cometendo suicídio e acharam que estava tudo resolvido, mas era apenas uma etapa do processo de abrir um portal para o submundo, já que bem, agora que ele estava morto, era também um fantasma e as coisas passam a fazer mais sentido, igual ao enredo do segundo filme, mas sem aquela patifaria toda do Viggo que nunca se tornou um perigo real. Nessa forma, ele assume o corpo do Thor Bobão que começa a tocar o terror em Nova Iorque e coube às meninas resolver a parada toda. A cena da Dra. Holtzmann, inclusive, chutando a bunda de vários fantasmas sozinha, vale o filme todo.

Ela é muito Waifu, pqp.

Em seguida, o nerd esquisitinho e sem amigos, como todos nós, larga o corpo do Thor bobão e assume a forma de chefão, que é justamente o fantasmão do logotipo da franquia toda, algo que eu achei GE-NI-AL. As meninas então derrotam o monstro, fecham a fenda dimensional e viram heroínas, mesmo com o governo jogando tudo para baixo das cobertas.

Como eu já comentei, não é lá original. A questão é que aqui, assim como o The Force Awakens, foi feito da forma correta, ao contrário dos antecessores. Aliás, arrisco até dizer – aliás, arrisco não, repito – que é melhor do que o segundo filme. Nesse aqui o espectador também não perde tempo com Dana e o Rick Moranis enchendo a paciência. É aqui que entramos no ponto-chave da questão toda: Por que o filme é tão mal recebido?

Esse é um exemplo claro da ladainha do “não se julga um filme pela capa”. Tudo bem, a capa tem que ser boa mesmo porque é assim que as coisas se vendem e não dá para consumir absolutamente tudo sem preconceitos para com o conteúdo. Sim, esse filme poderia ser uma espécie de adaptação vagabunda feita nas coxas para ganhar uns trocados como o Quarteto Fantástico ou o Jurassic World. Até achei que fosse o caso. O problema é que não é. É possível perceber no roteiro certo capricho, além de várias passagens bem sutis, referenciando a obra original, como foi com as participações especiais dos Caça-fantasmas originais – aliás, é a segunda aparição do Bill Murray num filme onde ele só serve para morrer, mais uma e pede música.

Eu pergunto: qual é o problema das pessoas para com o filme? É por que as protagonistas são mulheres? Ah, na moral, que se foda. Século XXI e você ainda ficando revoltado com isso? O sexo das personagens é a última coisa que deveria importar hoje, não é nem pela representatividade (que tem que ter sim, que isso fique bem claro), mas é um negócio tão imbecil se preocupar negativamente com isso que eu nem sei como refutar, é algo que me chega a ser impensável. E não é uma questão de continuidade, sequência ou sei lá o que mais. Se tivesse ficado ruim, seria uma coisa, o problema é que não ficou.

Aliás, o roteiro foi escrito já prevendo que seria uma bomba de críticas. A quantidade de metalinguismo presente chega a me fazer questionar se não foram cenas encaixadas depois das primeiras repercussões do longa, como em um dos fantasmas, cuja captura foi parar na internet e tem a personagem da Melissa McDonald’s lendo os comentários. Outra, que é de um balão do Marshmallow Stay Puft esmagando as protagonistas, também funciona como uma espécie de metáfora, com o Stay Puft representando tudo o que os filmes anteriores conseguiram e acaba sufocando o mérito desse.

Não que isso seja meticulosamente pensado, mas que são leituras válidas, são.

Tudo bem, seu problema não é com as mulheres, mas com a “infância”. A melhor resposta para isso eu vi numa palestra, em que o cara disse que não é como se o diretor do filme pegasse uma máquina do Tempo e apagasse o filme original, culminando numa mudança total do indivíduo no futuro. E mesmo assim, esse lance de estragar infância é uma mentira do caralho, porque o chorãozinho de internet nem é da época do filme porque tem no máximo trinta anos. O indivíduo cuja infância foi marcada pelos filmes deve ter entre trinta e cinco e quarenta anos, ainda mais. Minha mãe gostou da ideia de refazerem e ela sim é desse público (certo, ela é ainda mais velha, mas ela tem maior propriedade de causa do que nerdy wannabe da internet). O pior que poderia acontecer é, como eu falei, o filme ser ruim. Aqui, não foi o caso. Foi bem longe. Aliás, se você se incomoda de verdade com isso por causa da “muh infância”, alguma coisa nela deve ter sido bem merda, educação básica mesmo que falhou em algum momento.

Pontos negativos? Sim, o filme teve. Não gostei da forma como a personagem da Patty foi escrito. Não por ser um estereótipo apenas, mas por ser um estereótipo chato. Até rola uma piadinha a respeito disso, mas acho que o contexto piora ainda mais essa situação, desgosto. As participações especiais dos atores originais também foram uma merda que em nada adicionam ao filme. A do Bill Murray é a única que se safa, mas ele só aparece para morrer depois, o que eu julguei também como outra metalinguagem – ele só topou fazer os filmes originais porque queria botar em prática um projeto particular e acabou virando escravo da franquia pelo resto da vida, praticamente.

Se tem algo que eu tinha achado ruim nos trailers é a forma como foram feitos os efeitos especiais. Depois de assisti-los, achei um negócio inteligente porque a ideia por trás é meio que emular os efeitos práticos ruins da década de 80 em CG. O resultado ficou bom de uma forma esquisita. Digo, eles usaram CG para imitar o efeito prático, não seria mais interessante usar o efeito prático com a tecnologia moderna e somado ao CG? O bom é que o filme é tão dinâmico que a quantidade abusiva de CG não ofende tanto. Aliás, a direção de arte, algo que eu também achei que ia ser uma merda, dado o uniforme escroto (não que o original não fosse também), ficou do caralho também. Acertaram muito bem na atmosfera. A única cena realmente ofensiva foi uma sequência final, quando a personagem da Kristen Wiig entrou no mundo dos fantasmas para salvar a amiga.

Só para encerrar, mais waifu.

Queria ressaltar também que o tema clássico está presente no filme e ele foi bem utilizado na trama pela primeira vez. A trilha sonora agora é composta com variações da música-tema, ou seja, ela não é restrita apenas a um jingle, mas integra a obra como um todo.

Por fim, gostaria que dessem uma oportunidade ao filme. Ele é bacana. Ele não tenta ser um Ghostbusters 3. Aliás, um terceiro filme talvez não se saísse tão bem como esse aqui se saiu, ainda mais porque a verdadeira sequência existe. É o videogame lançado em 2008 e a versão de Wii é provavelmente o jogo da Wii Zapper que melhor utiliza o periférico sem nem ser projetado para ele.

Ah, tem uma cena pós-créditos que cita o Zuul, o lacaio do Goozer, vilão do primeiro filme. Duvido muito que vá ter uma sequência, dado o retorno pífio desse aqui na primeira semana. Uma pena, dado o potencial. Se bem que a Sony tem mais é que se foder mesmo.


Informações

  • Duração: 116 Min.
  • Ano: 2016
  • Direção: Paul Feig
  • Roteiro: Kate Dippold, Paul Feig
  • Trilha Sonora: Theodore Shapiro
  • País: Estados Unidos
  • Gênero: Aventura
  • Estrelando: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon, Leslie Jones, Charles Dance, Michael Kenneth Williams, Chris Hemsworth

Em tempo: Esse reboot foi melhor para a franquia Ghostbusters do que Force Awakens realmente foi para Star Wars. 

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3 respostas para “Análise: Ghostbusters – Quem tem medo de chororô?

  • Doc Cocamonga

    A questão nem é por ser mulher protagonizando ou qualquer outra minoria mas a falta de criatividade e colhões de inventarem uma série nova onde esse novo tipo de protagonismo não parecesse favor. Tipo Mad Max que no lugar de uma série de premissa igual ou somente a Theron sendo a heroína, botam um Max calhorda e história tosca com efeito de PS4. Acho também babaquice esse pessoal peidorrento que teve a infância “violada” com tais remakes, a parada vai mais longe do que isso.

    Tirando o 2 que é mero caça-níquel, o primeiro ainda tinha um pouco do brilhantismo dos atores que compunham a fase de ouro da comédia estadunidense, remontando a clássica revista National Lampoon, o programa Saturday Night lives e em paralelo o Richard Pryor. Só que lá pro final dos anos 70 devido ao senso auto destrutivo dos comediantes e panaquice do mainstream, eles foram se destruindo (uns morrendo de suicidio, overdose) ou aceitando papel merda, tipo o Bill Murray e o Aykroyd.

    O primeiro caça fantasmas ainda tinha um grande vigor por ter sido um projeto concebido entre Aykroyd e o John Belushi, poderia ter ficado uma bosta sem o segundo ou pela época mais comercial, só que ainda o elenco segurava as pontas e deixou um filme muito bom mesmo sendo pipoca e guaraná em comparação ao que já gravaram.

    O mal de hoje é o politicamente correto, piadas fracas em comparação as comédias clássicas, e o pessoal pagando pau. Tipo o Brasil. Enquanto o pessoal fica lacrimejando de emoção ao ver o canal porta dos fundos fazendo piadinha crítica a sociedade e falando uns palavrões pra parecer rebelde, tínhamos aí o Hermes & Renato tosco, direto ao ponto e muito mais contundente, hoje eles já sofrem o mesmo mal do que eu falei dessas lendas, vão enfraquecendo e ficando mais comerciais. O novo caça fantasmas é como uma versão diet.

  • luizsazon

    Não vi o filme ainda, mas achei a trilha sonora uma grande **rda. Puta negoço chato do caralho. O Paul feige é um ótimo diretor, mas ele adora forçar esse estilo ”moderninho” e que na real, envelhece mal pra caralho

  • Zé Boceta

    Seu padrao jah foi bem mais alto hein?

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