Análise: Pokémon Go

Eu estou fazendo isso por causa de uns comentários recentes, de que meu “padrão de qualidade” (nota-se a ironia autoimposta na utilização das aspas) teoricamente teria caído, dadas as minhas últimas análises, como Caça-fantasmas, Star Wars e Batman V Superman. Quero colocar, antes de tudo, que a única nota que hoje eu diminuiria é a do Star Wars. Tendo isso em vista, vamos então trabalhar com algum objeto que certamente vai trazer toda a amargura de volta ao Horny Pony. 

Seguindo em frente, vamos lá, Pokémon Go. Ou Pokémongo. Eu já tenho noção de tudo o que vão me retrucar com relação às críticas a seguir, mas foda-se. É um joguinho de bosta mesmo. Digo, é um jogo tão fuleiro que, enquanto eu geralmente consigo começar uma análise contando alguma história boba, aqui eu não tenho nenhum dos meus causos recorrentes.

A questão é que desde o anúncio disso aí eu torci o nariz. Primeiro porque o trailer de anúncio causa uma impressão em quem assiste de que é um negócio imersivo quando eu já apostava que não seria nada disso. Quanto mais o jogo foi avançando e sendo revelado, eu só continuava me perguntando o porquê de essa coisa sequer ser concebida. Aí eu acompanhei o lançamento nas gringas e aprendi as mecânicas do negócio. Até aqui, parei de jogar no nível doze, mas desde o sete já seria mais do que suficiente para fazer uma análise dessa tranqueira.

Primeiramente, por que um jogo de Pokémon é feito se ele nem ao menos segue o slogan da franquia? Isto é, por que fazer um jogo onde não é possível pegar todos? Já fizeram essa cagada com Ruby & Sapphire e lançaram os remakes da geração I só para remendar o estrago feito. Aqui isso se repete. E o pior é que depois de jogar e estar acostumado com mais de quatrocentos Pokémon, ter só cento e cinquenta disponíveis (menos, até, considerando que os lendários não foram introduzidos ainda), deixa o negócio muito pouco diverso, principalmente porque é uma boa desmitificar a besteira de que Pokémon é só a primeira geração. Estão vindo com a ideia de botar a segunda geração lá. Duvido muito que estejam apressados com isso, já que nem lançaram essa porcaria no mundo todo ainda. E mesmo se lançarem, é um erro retardado não terem já botado desde o primeiro dia.

Aliás, por que fazer um jogo tão limitado? Digo, tudo bem que o mote é capturar Pokémon e o foco principal do jogo é esse. No entanto, por que simplificar tudo até não dar mais? Além de fazerem a imbecilidade de acabar com a diversidade botando só a primeira geração, por que diabos o sistema de batalha é aquele negócio horroroso que só dá para ativar ao enfrentar um ginásio? O jogo literalmente jogou vinte anos de desenvolvimento de mecânicas no lixo. E eu não me refiro nem apenas à questão de, sei lá, IV ou EV, mas, no lugar de quatro golpes que diversificam uma infinidade de cenários, temos apenas um que, por mais forte que ele seja, às vezes nem faz diferença. Sabe aquela coisa de criança, de deixar apenas um bicho num nível alto sem treinar os outros porque o nível anormalmente alto já compensa tudo? Aqui é exatamente a mesma coisa. Um Pokémon com CP alto, não importa o ataque, é tudo o que é necessário para ganhar essa bodega. Ainda, apesar do conceito de fraqueza por tipo continuar presente no jogo, na prática pouco pareceu me importar, visto que o meu Kingler derrubou sem fazer esforço, apesar de estar em desvantagem de tipo, um Exeggutor na mesma faixa de poder.

Isso é o tipo de coisa que não tem conserto algum, visto que toda a estrutura, o código do negócio, teria que ser mexido. E mesmo se mexerem, já é abusivamente errado botarem para download um negócio que, segundo as más línguas dizem, é apenas 10% do jogo. Se nem DLC em jogo de verdade deveria ser vendido dessa forma, não é aqui que vai poder.

A partir daí, vamos para outo ponto: Por que não dá para batalhar diretamente contra os amiguinhos? Não é como se o código do sistema de batalha, por pior que ele seja, já não estivesse presente no jogo. E isso é para parar com o papinho de que o jogo te faz sair de casa e fazer amigos. O caralho. Desde Red e Blue já era possível brigar com os coleguinhas, aqui não tem motivo algum para que isso não tivesse sido implantado desde o começo. É tipo uma festa onde tem gente para caralho, mas ainda está todo mundo no seu cantinho bebendo o próprio suquinho, sem interação. Podem ainda adicionar um modo PVP depois? Podem, mas foi um erro retardado não terem já botado desde o primeiro dia.


Essa porra é ainda pior porque ao menos na da imagem a galera ao menos interage virtualmente. Em Pokémon Go, é só o indivíduo e seu joguinho.

Isso também vale para trocas. Apesar de o jogo estimular o cara a ir até o cu do mundo para capturar todos, deveria levar em consideração que isso não é um conceito absoluto. Se for fazer uma comparação, é como se fosse vir com papo de comida saudável para cima de qualquer pessoa, sendo que o problema é que tais comidas geralmente são caras e estão muito fora da realidade social de grande parcela do cidadão que não tem grana para tal estilo de vida. Aqui vale a mesma coisa. Se o jogo, como foi alegado, tem como ideal ser o mais barato possível para que qualquer um pudesse jogar, deveria dar um jeito de facilitar essa ideia toda em determinados pontos onde a finalização do mesmo é impossível.

Sim, é a ideia do jogo a de usar geolocalização para que determinados tipos sejam encontrados em lugares específicos e outros, não. No entanto, isso significa que a experiência para quem mora em cidades pequenas ou lugares onde a cobertura do jogo não é tão intensa é completamente diferente de quem é de uma cidade grande que conta com um número maior de meios de transporte e área de cobertura. Repetindo, um sistema simples de troca como o Wonder Trade das versões graúdas já resolveria a questão. É possível implementar isso depois? É. No entanto, da mesma forma que um sistema PVP, é um erro retardado não terem botado já desde o primeiro dia.

Até agora a gente só falou de falha mecânica. É possível chegar na voadora ao citar as falhas de lógica na concepção. Por exemplo, por que eles oferecem três iniciais se logo o jogador encontra outro inicial bem mais forte e que não vai compensar continuar criando o original? É a mesma coisa que não dar nada ao jogador, já que para capturar, não rola batalha, nem porra nenhuma, é só jogar a Pokébola, o que certamente deixaria bem chateado aquele velhinho que ensina o personagem em Viridian e o impede de avançar no jogo por um tempo. O mesmo vale para evolução. Compensa evoluir, sendo que a evolução também pode aleatoriamente aparecer por aí? Duvido que esses caras que têm Dragonite tenham pegado quinquilhões de Dratinis para ir evoluindo aos poucos.

Desse jeito, toda aquela ladainha e moral que o Ash já está velho (só que não) de tanto reforçar sobre amizade em seu anime infantil vai para o ralo. Mais de dez anos de Pikachu e seus amigos no lixo. É que nem jogar lixo na rua. Criança sabe que lugar de lixo é no lixo. Quem faz sujeira é adulto.

Isso também se aplica aos ginásios. Porra, pode-se até destruir um ginásio de quatro fases sozinho até o talo que a quantidade de XP vai ser mínima e não vai compensar de jeito nenhum o esforço gasto e os itens que serão usados para recuperar o Pokémon depois. Compensa mais capturar uma infinidade de Zubats e passar por Pokéstops do que tentar dominar ginásio e o caralho.

Eu não vou nem me estender mais na questão de o jogo ser um negócio cru, já devo ter deixado isso bem claro. Só para finalizar a questão, é um negócio tão vagabundo que nem ideia nova ele é. Não passa de uma reskin de um outro jogo da Niantic (o Ingress) com um gimmick ou outro a mais, adicionado ao conceito criado a partir de uma brincadeira de primeiro de abril que o Google Maps fez há algum tempo. Até a questão da realidade aumentada já existia em Pokémon Dream Radar. Isso, mais o visual absurdamente preguiçoso dos menus (que alguns vão chamar essa bosta de ‘minimalista’) resumem esse negócio a um caça-níquel safado que nem a capacidade de pedir dinheiro para o jogador acaba tendo. Ou seja, nem caça-níquel é, é engana-trouxa. Enganou tanto trouxa que investidor que andava comprando ações da Nintendo acabou recebendo o comunicado para não fazer porque a empresa não ia lucrar tanto assim com essa bodega simplesmente porque ela não gera lucro.

Quero ressaltar que eu não estou fazendo campanha contra essa porcaria porque eu não aguento ver gente se divertindo. Na verdade, eu nem faço campanha contra isso, o indivíduo é dono de si mesmo e livre para jogar a merda que quiser, o quanto quiser. Eu só não gostei dessa tranqueira e estou escrevendo minha opinião a respeito. E não é que eu não tenha gostado porque sou metido a ser fã hardcore desde sempre e não aguento ver gente nova entrando no mundinho, se o jogo fosse bom, eu certamente teria elogiado. Eu só o acho imbecil mesmo. Dessa forma, Pokémon Shuffle também é para móvel e eu acho um jogo muito mais honesto do que esse negócio. O que eu penso é que, na verdade, você pode jogar a bosta que quiser, eu não vou ligar, mas, por favor, 1) tenha consciência dos problemas práticos dele (tipo eu quando adorei Esquadrão Suicida, mesmo sendo um filme bagunçado pacas) e 2) não me venha com histórias a respeito do homem gordo que emagreceu porque saiu para andar. Isso aí é máscara de realidade, não é como se só esse jogo tivesse uma história dessas por trás, seja de Pokémon ou não. Simplesmente goste (ou desgoste) do jogo sem precisar extrapolar.

Só um adendo, essa parada de que o jogo rouba suas informações também é uma cretinice sem tamanho. Sim, ele tem acesso a absolutamente tudo, uma vez que o jogador concordou nos termos e condições do aplicativo. No entanto, não é como se o Facebook já não as tivesse também. Ou que eles resolvam te observar porque é mais especial do que os demais. Por favor, pare. O jogo já é ruim sem precisar de paranoia.

Ah, sim, essa provavelmente foi uma resenha menor do que o de costume. O jogo é tão cru que merece uma análise à altura.


Informações

  • Produção: Niantic
  • Estúdio: Niantic
  • Ano: 2016
  • Gênero: Caça-níquel, engana-trouxa
  • Plataformas: Mobile

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7 respostas para “Análise: Pokémon Go

  • Corvo Noir

    A Nintendo só vive da grife, parou de arriscar a muito. A única coisa que faz é relançar a mesma tralha sob nova tecnologia. Se enxergar a criatividade do título inicial de uma franquia para uma sequência era bem maior do que a mesma fórmula batida (Mario Bros. e Bros. 2 USA, Zelda 1 e 2 e alguns projetos afundados na lama). Pokémon eu já acho o design dos antigos bem melhores do que essa ótica poodle de madame recente, mas concordo com a gradativa sofisticação de cada versão ter ido pro saco com um jogo tão simples.

    Perdeu-se até a aflição de capturar um bicho. “Ah mas isso é pra socializar…”. A mermão… Tá cheio de eventos autistas errrr… nerds aí pra quem é brocoió de ir pra show ou encher a cara. Fica até ridículo dizer isso. Um jogo que não é mais pra garotada, mas pra velho lixo, acabaram os bailes de rumba?

  • ten minute mail OP

    Hey, eu não tenho saco pra ler suas postagens, mas eu entrei aqui por acidente enquanto procurava o enredo de Speedgrapher (que eu só to vendo pela putaria) e vi uma análise nesse site. Não sei quantas pessoas trabalham nele, mas parabéns. As análises podem ter umas opiniões merdas (ghostbusters 4/5 ? faz sentido), mas pelo menos são com um texto bem escrito. Isso é, eu saberia se eu tivesse saco pra ler.

    continuem assim!

  • luizsazon

    Quando tiver conquistas, eu instalo. rs

  • C.C

    Prefiro não ser roubado mesmo.

  • johnny jyoshter

    é um lixo na minha cidade

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