Análise: Pokémon Best Wishes

Comecei a ver Best Wishes, a série animada referente aos games Black & White – e que no ocidente recebeu o mesmo nome dos jogos – logo em seu lançamento, em 2010, mas só fui terminá-la agora, em 2016, depois da mesma ter terminado já há muito tempo, a ponto de inclusive a sua série sucessora, XY, ter tempo de se encerrar também. Essa enrolação aconteceu por uma infinidade de motivos, seja do próprio fansub ter demorado um pouco para lançar os episódios em algum momento, seja eu mesmo deixando de lado em detrimento de outras coisas. Eu só peguei embalo para terminar de uma vez, nesses últimos dias por conta da onda Pokemaníaca que me assola sempre que uma nova geração é eminente.

Considero a Gen V a melhor de todas. Foi sinceramente um marco na franquia toda. Os jogos se reinventaram tanto que nem parece ter sido a Gamefreak. Eles têm características que geralmente não condizem com o modus operandi preguiçoso da GF, isso vai desde à identidade visual e aos gráficos do jogo até a questão da história, ambientação e gameplay. Aliás, peguei o BW2 para jogar esses dias e acho fascinante como o estúdio conseguiu regredir tanto na sexta geração depois das inovações apresentadas na quinta.

Dito isso, acredito também que o início da versão animada é, tranquilamente, o melhor início de qualquer uma das temporadas de Pokémon. Apesar do visual esquisito quando foi anunciado, o anime conseguiu a façanha de se reinventar num falso reboot que resgatou várias características da primeira temporada, na Liga Índigo, como a Iris e o Dent (Cilan, na versão americana), líderes de ginásio que decidem seguir o Ash (Satoshi, na versão japonesa – eu vou misturar os idiomas mesmo, que se foda), sendo que a Iris começava com uma característica muito próxima da Misty na hora de menosprezar qualquer besteira que o eterno protagonista do anime acabe fazendo.

Continuando na ideia, o desenvolvimento do anime chega a ser surreal nos primeiros vinte e poucos episódios. Além do desenvolvimento rápido em relação às temporadas anteriores – duas insígnias em dezesseis episódios –, o anime dava começava a planejar sua narrativa intensiva, assim como foi em DP, onde vários episódios, em vez de serem independentes, começam a contar um enredo de uma forma mais corrida em vez de basear a série em episódios independentes.

É nessa questão onde está o destaque principal da porra toda, em nada menos do que a Equipe Rocket. Em vez de simplesmente irem atrás do Pikachu porque sim, Giovanni assignou uma missão realmente importante à Jessie, James e Meowth. Essa reinvenção do trio mostrou um lado mais sério e mais focado. Além de estarem agora usando uniformes pretos, eles simplesmente não decolaram uma vez sequer durante os primeiros episódios, já que, quando eram descobertos, acabavam usando mochilas à jato para escapar.

Considerando esse começo também, queria ressaltar a primeira abertura, que é simplesmente brilhante. Feita totalmente em CG, o Pikachu passeia por um cenário xadrez e encontra uma infinidade de silhuetas de diversos Pokémon de Unova. Quando o episódio referente a tal Pokémon é exibido, a silhueta deixa de ser uma sombra e ganha cor. Ou seja, a abertura vai se completando aos poucos, na medida em que a série avança.

Os episódios vinte e três e vinte e quatro comporiam um especial de uma hora que iria mostrar tanto a introdução da Equipe Plasma quanto o momento em que a Equipe Rocket ia finalmente colocar em prática o plano tão elaborado que ficaram vinte e dois episódios aprontando a bagaça toda. No entanto, aconteceu o Terremoto no Japão de 2011 que afetou Fukushima, algo suficiente para simplesmente cancelar a porra toda.

A partir daí, volta-se ao anime convencional, acabando o frescor que BW trouxe de forma arrasadora. Os fillers eram bobinhos. A Equipe Rocket voltou com a sua fixação pelo Pikachu e, consequentemente, a decolar. O estrago foi tamanho que até mesmo os Pokémon do Ash não evoluíam, algo que acontecia na série original e foi corrigido nas posteriores, sendo que em DP ele tinha um time realmente forte e variado de Pokémon no último estágio evolutivo.

Até mesmo os personagens perderam a graça. A Iris, que foi apresentada logo no começo e eu adorei, acabou se tornando uma pirralha irritante e fracassada. É legal arrastar o Ash, no entanto, quando quem o faz acaba se mostrando uma treinadora ainda mais incompetente que o próprio, a moral para fazer isso some. Ela tem um Excadrill e consegue um Dragonite que simplesmente penam para obedecê-la. O pior é quando o Ash estava contando sobre o fato do Charizard ter sido desobediente por uma época e a Iris o chama de incapaz para logo em seguida o Cilan/Dent chegar com uma patada voadora lembrando a menina “seu Excadrill não é assim?”. Ou seja, moral alguma faz o negócio se tornar irritante. Além disso, queria saber quem é o gênio de roteirista (nota-se o sarcasmo) que a fez almejar ser uma Mestra dos Dragões, mas enfia aleatoriamente, na equipe dela, um Emolga e um Excadrill. Porra, a Misty era uma treinadora de Pokémon do tipo água e o único que não era aquático era o Togepi, ainda por uma razão especial. Não é nem que nem o Brock, que abdicou do título de “Líder de Ginásio do tipo Pedra”, sendo que ele ainda demorou para pegar um Pokémon que não segue o seu perfil (Zubat ao menos era coerente por ter motivos de caverna e o Vulpix nem era dele).

O Cilan/Dent então, nem se fala. Personagem irritante com suas diversas capacidades como “Sommelier Pokémon” (aliás, que é uma função imbecil pacas no grupo). Ele parece ser capaz de tudo, de garçom e cozinheiro a detetive e pescador, algo que realmente incomoda porque ele tende a quebrar a fluidez do episódio com suas interferências. Eu só não o odeio mais porque o dublador japonês deu um show na hora de fazer o personagem.

Ainda assim, o pior de tudo é o Oshawott do Ash. Ele é provavelmente o Pokémon mais imbecil que o cara já teve, porque ele se mete em todos os lugares onde não é chamado, se mete em várias batalhas sem ser chamado e o pior de tudo é que ele mais apanha do que vence. Chega a ser irritante a quantidade de furadas que o trio de protagonistas enfrenta por causa dessa lontra de bosta.

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Em determinados momentos, no meio de seu desenvolvimento enfadonho, BW tentava alguma coisa que dava mais fôlego e realmente deixava o negócio um pouco mais interessante do que a evolução episódica medíocre da série. Um deles é quando o Meowth finge que largou a Equipe Rocket e passa a viajar junto do trio de protagonistas, mas é tudo parte de um plano para roubar Pokémon que envolvia o sistema de Metrô de Nimbasa. Esse período com o “Meowth Bonzinho” chega a ser marcante porque é onde se estabelece uma nova relação entre os personagens, criando novos contextos de histórias, como uma em que o Axew da Iris é sequestrado por um Scrafty e ele serve de negociador entre as partes por entender ambos os dialetos, de Pokémon e dos Humanos. Outro ápice interessante é quando o Giovanni mesmo decide agir e utilizar a Meloetta para assumir o controle do trio das Forças da Natureza (Thundurus, Landorus e Tornadus).

O grande problema é que esses momentos bons se perderam no meio de uma caralhada de episódios chatos, principalmente competições aleatórias como o PWT que, na real, não importava para ninguém. Eu ia preferir muito mais pequenas histórias envolvendo um personagem do dia e algum problema que os protagonistas precisariam resolver do que esse amontoado de batalhas sem graça.

A Liga, por sua vez, foi uma decepção. É claro que o Ash perdeu, o problema é que não foi convincente. Um dos problemas é que ele simplesmente tinha uma equipe com potencial que nunca apareceu, uma vez que nenhum dos três iniciais que estava com ele acabou evoluindo até o fim, prejudicando o poder ofensivo. Outro problema é o roteirismo claro a favor de um Lucario. Foi simplesmente estúpido. Quero ressaltar que aqui é o ponto onde o negócio deixa de ser chato e volta a ficar bom, uma vez que começa o chamado Episódio N.

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O tal Episódio N é um arco com quatorze episódios e é sobre o plano do que sobrou da Equipe Plasma – aparentemente depois dos acontecimentos dos episódios banidos – para controlar os Pokémon usando uma máquina do Colress/Achroma. Aqui é possível ver uma história sendo construída. O personagem do N é um paspalho, mas é interessante averiguar novamente o crescimento da Equipe Rocket aqui, que ganhou praticamente um episódio inteiro para si, com inclusive o Meowth sendo possuído pela máquina e o laço forte que ele tinha com Jessie e James ser suficiente para tirá-lo do transe hipnótico – algo que, vale ressaltar, o Ash conseguiu fazer apenas parcialmente quando isso aconteceu com o Pikachu.

A forma como o trio de vilões agiu foi crucial para a destruição da Equipe Plasma e é por isso que eu gostaria mesmo de dar destaque a isso, já que são eles que sempre acabam roubando a cena toda santa vez. Além disso, mesmo para a Equipe Rocket organização como um todo, eles têm sua importância, uma vez que tiveram dedo direto na erradicação das equipes Aqua, Magma e Galaxy, além da Plasma (eventualmente, também terão na da Equipe Flare em XY). Jessie e James se mostram como treinadores competentes, o ponto fraco é o roteirismo que vai fazer sempre com que acabem falhando na tarefa de roubar o Pikachu, algo que só piora a imagem deles.

Com o fim da Equipe Plasma, Ash e sua turma decidem ir para Kanto, mas, em vez de viajar de avião, decidem fazer um Cruzeiro e encontram, no caminho, um arquipélago chamado Decolora, o que foi, sinceramente, a melhor das surpresas. Liga Laranja foi um arco maravilhoso e Decolora foi uma homenagem não só a esse período, mas a uma sequência de eventos da série clássica, como um dos episódios em que o Ash encontra um Caterpie que quer evoluir e acaba relembrando da própria Butterfree, ou ainda, o fato de terem tirado a Clair, líder de Johto, de absolutamente lugar nenhum.

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Rola também umas referências sutis à “Ilha dos Pokémon Gigantes”, aqui sendo uma reserva onde um Zoroark fica criando ilusões gigantes que assustam os protagonistas, “Batalha do St. Anne”, onde a Equipe Rocket se disfarça para atrair os personagens até um navio. Uma das piadas recorrentes também foi referenciada, no caso, o fato da Equipe Rocket usar buracos disfarçados como armadilha para pegar os protagonistas.

Episódios notáveis envolvem o Professor Carvalho atrás de um Rotom, sendo que qualquer episódio em que ele sai do laboratório é bom. Outro que vale a pena citar é um em que o Pignite do Ash é inscrito numa competição de sumô, referenciando um episódio em que o Snorlax dele ganhou um campeonato do mesmo esporte em Johto.

No entanto, um dos momentos mais maravilhosos da série toda – e me refiro não só a Best Wishes – é o que aparece o Jirachi. No episódio em questão, um Jirachi acorda de seu sono milenar no meio de um deserto e uma garota que vive por lá decide procurá-lo. A sua ideia é desejar que o Pokémon estrela-cadente traga de volta a água para aquela região para que o pai da garota pare de ter que buscar água em outro lugar e passe mais tempo com a família. Depois de sete dias de busca, eles finalmente encontram o Pokémon realizador de desejos, que acaba gravemente ferido após usar o Healing Wish depois de um ataque da Equipe Rocket. A menina, desesperada, pede que, em vez de trazer a água de volta, o próprio Jirachi melhore. Nesse instante, a água começa a brotar e é suficiente para fazer germinar algumas ervas medicinais que foram dadas ao Jirachi para que ele melhorasse e voltasse à sua hibernação milenar.

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Esse episódio me lembra muito uma história animada de natal da Turma da Mônica de 1988, em que uma estrelinha mágica cai do céu e, por estar na terra começa a ficar doente, cabendo à turminha ajudá-la a retornar ao seu lugar com a ajuda do Papai Noel. Essa história me marcou muito quando eu era moleque, assim como eu nunca fui tão marcado por um episódio de Pokémon como foi esse do Jirachi.

De um modo geral, não tem um episódio que seja do arco de Decolora que seja ruim. O fato de eles revisitarem momentos anteriores da série de uma nova abordagem, mesclado a novos momentos transformou o ato de assistir cada episódio em uma experiência única e marcante. E que porras, isso é muito para um anime infantil.

E eu já comentei isso. O anime de Pokémon é para crianças. Ele não pode ser mais complexo do que isso, embora isso não seja justificativa para ser escrito de uma forma ruim. Quando se tem isso em mente, o ato de usar o tempo para assistir faz com que o negócio todo valha a pena.

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Para finalizar, eu quero falar sobre os filmes. Que são uma bosta. As duas películas que integram o posto de décimo quarto filme não ofendem tanto, mas o “Kyurem contra a Espada da Justiça” e o “Genesect e o Despertar da Lenda” são vergonhosos. Aliás, o último filme realmente divertido foi o nono, “Pokémon Ranger e o Templo do Mar”, sendo que ele foi sucedido por um filme que já era uma bomba atômica de merda, o “Lucario e o Mistério de Mew”.

Voltando ao BW, enquanto os filmes do Victini, chegam a entreter um pouco, mesmo sendo idênticos, praticamente, os do Kyurem desce ao nível da vergonha alheia ao ver um personagem tão imbecil quanto o Keldeo. Digo, é o que eu falei, é infantil, mas não precisa tratar a criança como uma imbecil, como foi o caso. O do Genesect, por sua vez, é uma perda de tempo safada porque ele nem se esforça em contar alguma história que faça sentido.

Ressalto também o trabalho da Bruthais Fansub, por onde eu acompanho a série. Trabalho ruim é para detonar, mas não é como se o trabalho realmente bom não merecesse também elogios, como é o nosso caso aqui. Uma coisa eu gostaria de questionar primeiro: por que há a discrepância na utilização dos nomes? Digo, os nomes dos Pokémon e dos golpes são traduzidos da versão americana oficial, certo? Por que os nomes das cidades e dos personagens não? Vamos lá, os nomes dos personagens até é algo compreensível, principalmente para os personagens originais que não estão presentes no jogo, mas as cidades têm uma tradução oficial da mesma forma que os golpes, então poderiam muito bem receber os nomes americanos.

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Dito isso, um dos elogios é que a atenção aos detalhes para com a legenda é linda. Acho genial o fato de que cada golpe recebe uma cor diferente que varia de acordo com o tipo dele, algo que acabei meio que copiando quando traduzia o anime de JoJo, reproduzindo o efeito tanto nos golpes de Hamon e de Vampiro quanto nos nomes das Stands. Até o Karalhokê é uma graça.

Agora, eu digo isso porque o trabalho de tradução deles é provavelmente o melhor do Brasil com relação a ortografia. Digo, eu considero karalhokê e fonte bonita que dança e pisca, bem como a letra das aberturas e encerramentos coisas totalmente dispensáveis que só fazem o fansub perderem tempo, isso porque basicamente todos os fansubs se preocupam mais com isso do que com a tradução propriamente dita, como eu já comentei na minha análise sobre Speed Grapher. A Bruthais, no entanto, faz um trabalho maravilhoso na tradução, seja na gramática quanto na própria adaptação do negócio, em vez de só traduzir o bruto, deixando o texto um negócio mecânico. Minha única lamentação mesmo é a questão dos nomes, mas aí é algo que vai muito mais de escolha do que defeito propriamente dito.

De um modo geral, eu não vou exigir muito de um anime Pokémon. Ele só não pode ser chato. Eu forcei a barra com BW durante anos porque eu queria acreditar que a série retomaria com a qualidade apresentada nos primeiros vinte e poucos episódios em algum momento e isso acabou acontecendo, mesmo que um pouco tarde. Ainda assim, o saldo é extremamente positivo. Se fizerem mais histórias como as do arco Decolora, pode ter certeza que mais uns vinte anos de anime vêm por aí.

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É meio dantesco, se parar para pensar. Por mais esquisito que possa ser usar esse adjetivo para descrever uma série infantil, é só observar que o espectador, ao assistir, passa pelo purgatório, desce o mais fundo no inferno e termina no céu.


Informações

  • Baseado nos jogos Pokémon Black&White
  • Episódios: 146
  • Ano: 2011
  • Direção: Um monte de gente
  • Roteiro: Atsuhiro Tomioka
  • Trilha Sonora: Shinji Miyazaki
  • Estúdio: Oriental Light and Magic

Nota:
[1] Revisão é só pra quem tem luxo. Eu não tenho luxo. Portanto, como de praxe, tá aí essa merda sem revisão.

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