Iluminismo ou Barbárie: A Crise de Storytelling na indústria de videogames moderna

O Filme de Assassin’s Creed é, tranquilamente, a adaptação mais fiel com relação a transpassar a atmosfera da obra original para dentro de um filme.

Só que isso não é necessariamente algo bom.

Na verdade, é a prova cabal de que toda e qualquer comparação ao cinema é um negócio que beira ao imbecil, seja fazer filme de jogo ou jogo com “experiências cinemáticas”. O que é possível observar no filme do Assassin’s Creed é que ele foi muito bem produzido. Ele foi todo pensado para emular o sentimento do jogo dentro do filme. Panorâmicas ilustram a cidade espanhola da era da Inquisição onde o filme se passa igual à quando o jogador desbloqueia o novo pedaço do mapa. A postura do Fassbender como assassino e a forma como ele escalava e saltava no filme mostram que ele se preocupou a jogar o negócio e pegar todos os trejeitos necessários conhecidos por quem é jogador da franquia. No entanto, esse desespero pela fidelidade que o filme tem foi justamente seu maior defeito.

Enquanto nos jogos o amontoado imbecil de cutscenes é certamente sofrível, aqui é possível se deparar com sequências abusivamente longas de ação. É literalmente gameplay reproduzido na tela. O problema é que, como sempre digo, ver gameplay é chato demais. Eu realmente não entendo a geração que perde tempo vendo gameplay no Youtube quando poderia estar jogando o próprio jogo em questão – e é por isso que essa molecada que faz isso hoje e acha lindo não tem moral alguma para criticar o filme.

Nisso, entra-se num paradoxo. A insistência em cruzar duas mídias distintas, videogame e filme, resulta em aberrações. Quimeras esquisitas onde você mais assiste do que joga ou onde você sente que tal cena de ação não condiz com as outras que você já assistiu em outros filmes. E o problema é que Assassin’s Creed (a franquia agora, de um modo geral), se tornou um exemplo pleno disso.

Digo, todas as adaptações anteriores pecaram justamente por não conseguirem captar a atmosfera do jogo que não se transmite nas cutscenes, mas no gameplay, onde o jogador, teoricamente, passaria mais tempo conhecendo o universo. Na produção, foca-se demais na ideia por si só e não pensam na forma que o videogame transmite essa ideia. Aqui, perceberam isso e deu errado do mesmo jeito. A fidelidade aqui foi longe demais.

A ironia é que, por conta do universo expandido de Assassin’s Creed, esse seria o único filme que poderia se dar ao luxo de tentar ser mais filme independente do que uma adaptação. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Isso envolve muito também a questão da ideia por trás de um Live Action e os caralhos.

Em um texto que eu cheguei a esboçar, mas nunca tive saco de planejar e postá-lo, questionei um pouco a respeito dessa ideia toda, do Live Action em si e sua suposta (des)necessidade. A ideia é: Por que porras as pessoas insistem em continuar fazendo uns negócios desses? Por que tudo precisa ser transportado em Live Action e ainda comemoram quando a merda do projeto é anunciado? Qual é a real necessidade da parada? Isso vem muito, acredito, do demérito que atribuem a qualquer animação, quadrinho ou videogame como mídia propriamente dita. Digo, você tem uma história já feita em uma mídia, que é o mangá, o anime, o videogame. A história já existe por si só dentro de sua mídia nativa. Essa transformação não passa de uma redundância.

Puta trailer de cinema mesmo, né? Pois então, é justamente o problema dele, visto que o jogo é um dos mais fracos da franquia, pelo menos até onde joguei. A ironia é que o filme é fiel pacas ao estilo de luta do jogo e deu errado do mesmo jeito.

É claro que, como adepto de McLuhan, acredito e entendo que a mídia é a mensagem e que cada mídia vai ter uma forma diferenciada de transmitir a sua mensagem por conta de suas peculiaridades. O problema é justamente que não levam isso em conta e querem transmitir exatamente as mesmas mensagens de forma que elas tenham exatamente o mesmo entendimento em mídias diferentes. É por isso que dá merda. Não é nenhuma doideira acreditar que um filme é um filme e um videogame é um videogame. Assim como um mangá é um mangá e um anime é um anime. Um livro também é um livro por si só.

Falando em livro, isso me lembra muito de uma citação que o George Miller fez a respeito de videogames. Segundo ele, “Videogames eram o primo pobre dos filmes em se tratando de contar uma história, mas o jogo está se invertendo, é a oportunidade de escrever um livro” e completa: “Um jogo pode literalmente se tornar o equivalente de um livro”. A ideia por trás é que um filme vai ser da forma como ele foi editado e acabou. Um jogo, por sua vez, permite que o próprio jogador se torne um autor no que Miller chamou de “narrativa quadridimensional”, por escolher o próprio caminho a se seguir. Além disso, num jogo você pode simplesmente seguir no próprio compasso, dando tempo para fazer as observações e pensamentos pertinentes a respeito no seu próprio ritmo. Um filme, por sua vez, tem seu tempo cronometrado e fixo ao que está na tela.

Além disso, é o que eu comentei: a história já existe. Vale recontá-la exaustivamente e de tantas formas diferentes sempre no intuito de tentar transmitir exatamente a mesma mensagem? Peguemos animações, por exemplo. No quesito de storytelling, a animação, por acaso, é, sei lá, uma mídia com modificador de -1, como se valesse menos do que um filme com atores de verdade? Aliás, eu acho que é justamente o contrário, na animação é possível alcançar um surrealismo fantástico por ser algo totalmente abstrato que jamais vão alcançar em qualquer película utilizando seres humanos e gente filmando.

Já que é uma história que as pessoas já conhecem, por que não fazer algo novo? Nesse aspecto, os filmes de gibi aprenderam muito bem a fórmula, uma vez que aqui se trabalha a atmosfera e pensou-se a respeito de “como podemos trazer exatamente essa atmosfera dentro das possibilidades de uma mídia diferente”? Falta isso nas adaptações de videogame. Ou vão longe demais e esquecem essa visão original, com os filmes da franquia Resident Evil de exemplo, ou tentam se apegar ao máximo ao ponto de dar merda, como foi com o Warcraft e o Assassin’s Creed, que por mais que tente ser uma história diferente, ainda é o que está nos jogos. E entre assistir estático, só digerindo o conteúdo, e viver aquilo tudo no próprio jogo, eu vou preferir a segunda opção.

O que nesse caso é uma puta ironia, porque no caso de Assassin’s Creed eu também vou digerir filminho para caralho enquanto jogo.

Tem um determinado estudioso brasileiro que tem um ensaio chamado “Iluminismo ou Barbárie: A Crise da Civilização Moderna”. Ele questiona que a sociedade como um todo está em crise e caminhando novamente a uma era de caos resultante de ideologias do passado que insistem em ser interpretadas de forma errônea e que, diante do avanço sociológico e civilizatório da humanidade, já não funcionam como elas foram concebidas. Tendo isso em mente, a ideia é que seja criada uma espécie de híbrido entre tais ideologias de forma a fazer a manutenção disso. A ideia aqui é que, na indústria de videogames, que anseia por se tornar transmídia e tentar ancorar em públicos antes não explorados, passe a observar as franquias como marcas de potencial líquido, que são determinadas pelas características singulares de cada uma e que as tornam únicas para, a partir daí, utilize tais características de forma a se adaptar dentro do que cada novo meio oferece.

O filme tem uma sequência igualzinho a essa porra de água voando. O mesmo vale para a chacina na fumaça. Ambas as cenas me ensinaram que excesso de fidelidade nem sempre é tão bom assim. E olha que o trailer é “cinemático”.

Por exemplo, Call of Duty é um exemplo absurdo de ruim para se adaptar num filme, uma vez que carece de tais características para se tornar uma marca onipresente. De forma mais clara e direta, um filme de CoD não seria diferente de qualquer outro filme com a temática de guerra. Need for Speed é um exemplo já mais concreto e pior, que literalmente chegou a ser produzido. Como a franquia não tem absolutamente nada que a torne singular, o processo de transmídia resultou num Velozes e Furiosos (ainda mais) genérico.

Pokémon conseguiu se adaptar a essa ideia. Cada mídia acaba incorporando ideias de outra, criando uma forma de reciclagem automática e sustentável. Digo, o anime é influenciado diretamente pelo o jogo, mas várias ideias apresentadas pelo anime também são aproveitadas nos novos jogos a serem desenvolvidos. As batalhas em dupla, bem como a ideia dos Pokémon Shiny, são conceitos introduzidas no anime e posteriormente incorporadas pelos jogos. A ideia das Chansey serem Pokémon auxiliares nos centros Pokémon também passou pelo mesmo processo.

Eu acho que esse relacionamento problemático entre cinema de videogames se deu quando a tecnologia avançou o suficiente a ponto de ser possível contar histórias mais elaboradas. Particularmente, culpo Ocarina of Time e Final Fantasy VII, que ajudaram a popularizar essa tendência que hoje se transformou no câncer, fazendo jogos onde mais se assiste do que se joga. Onde mais cerceiam a liberdade de escolha do jogador do que a expandem. Aquele The Last Guardian, babaca para caralho, é um exemplo disso, onde, visando tentar deixar o tal do Trico mais realista, fizeram o bicho para desobedecer aleatoriamente ao jogador no intuito de dar a impressão que ele tem vontade própria, o que simplesmente fodeu com todo o desenrolar fluido do gameplay.

No fim, com essa parada toda do filme do Assassin’s Creed, eu queria acreditar de verdade que fosse dar certo, porque realmente acho a forma como a Ubisoft trabalhou a franquia foi brilhante, mesmo com os erros de colocar a carroça na frente dos bois. O problema é que lá no fundo eu sabia que ia dar errado. E deu. O que matou o filme foi sua tentativa de fazer diferente dessas adaptações sem fidelidade à obra, mas foi longe demais e criou um jogo assistível, PUTA CONCEITO para fazer frente ao filme jogável.

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4 respostas para “Iluminismo ou Barbárie: A Crise de Storytelling na indústria de videogames moderna

  • C.C

    Qual nota você daria ao filme?

  • Doc Cocamonga

    Acho uma babaquice nego ficar transformando jogo em filme, soa arrogante e até um disfarce pra não programar puzzles e demais desafios. A trama de Assassin’s Creed é arrogante e de um apelo mercantilista exagerado.

    Por mais que uma ideia possa ser transmitida até num rolo de papel higiênico desenhado a bosta, você tem o fator de limites para o formato. Querendo ou não, dominá-los a ponto de subverter a mídia gera um interesse a mais no público.

    Kojima é um exemplo duplo de erro e acerto. Por um lado ele quer passar a verdade do universo nas infinitas horas de cut scenes, por outro lado ele é consciente da mídia que está trabalhando e sabia programar coisas divertidas tipo o telepata lendo o memory card ou o franco atirador morrendo caso o jogador aguardasse um tempão.

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