Análise: Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

Quando eu era molequinho, eu sempre achei essa parada de pirataria um porre. Acredito que seja porque o que ficou marcado na minha memória foi o filme d’Os Muppets na Ilha do Tesouro, e na época eu achava essa história de fantoche uma palhaçada (na verdade, eu só fui começar a gostar depois de adulto). Minha opinião sobre pirataria e swashbuckling mudou no ano de 2003, quando peguei para ler o Manual de Aventuras do Cebolinha, que introduzia de uma forma amigável à criançada essa questão de pirataria. No mesmo ano, alguns meses depois, eu viria a assistir o primeiro Piratas do Caribe.

Desde então, eu fiquei fascinado pelo tema, bem como pelos filmes subsequentes. Achei que a franquia decaiu um pouco logo na sequência, O Baú da Morte (Deadman’s Chest) e deu uma melhorada com No Fim do Mundo (At World’s End). Por incrível que pareça, também gostei de Navegando em Águas Misteriosas (On Stranger Tides), mesmo com todos os defeitos narrativos. É por isso que logo na estreia eu fiz questão de conferir A Vingança de Salazar (Dead Men Tell No Tales), mesmo já acreditando que não iria ser tão bom assim.

De uma maneira geral, considerando que eu já esperava a bomba – que eu na verdade nem ligava, eu adoro filme merda – o resultado não foi decepcionante, apesar de acreditar que faltou algo a mais. Ainda assim gosto de como o filme humanizou os personagens, especialmente o do Barbossa (f). Os principais problemas que eu vi é a quantidade de furos e acontecimentos sem explicação, além de uma narrativa muito corrida.

A história começa com o filho do Will Turner (aquele cara que ficou condenado a ocupar o lugar do Davy Jones ao fim do terceiro filme), Henry Turner, desesperado para rever o pai, avisando que poderia salvá-lo caso pedisse ajuda do Jack Sparrow. O pai, sabendo que o Sparrow não presta, falou para o guri não se preocupar com isso e jogou ele para fora do navio antes que a tripulação descubra. O tempo passa e descobrimos que o moleque, agora adulto, desobedeceu ao pai e, como uma forma de encontrar o pirata com maior facilidade, tornou-se um marinheiro. O problema é que a embarcação na qual ele trabalha acaba sendo atacada pelo navio do Salazar, um caçador de piratas amaldiçoado e preso na região do Triângulo das Bermudas por conta do Sparrow – sempre ele.

Dessa forma, Henry é poupado pelo vilão desde que espalhe aos sete ventos que ele ainda cumpriria sua vingança. No entanto, logo antes de ter o navio atacado, o cara tinha peitado o capitão do navio e, por isso, acusado de traição. Dessa forma, não adiantou nada sobreviver ao ataque do Salazar, já que ele acabou sendo preso de qualquer jeito e seria condenado à morte. Ele, no entanto, acaba escapando com a ajuda de uma moça chamada Carina Smyth, astrônoma também condenada à morte por praticar bruxaria. Sim, naquela época, o indivíduo que se atrevesse a usar qualquer forma de ciência era acusado de feitiçaria.

Jack Sparrow, por sua vez, é apresentado armando mais uma de suas estripulias, como diria minha avó. Ele tenta, junto de sua tripulação, roubar um banco, mas acaba levando só um cofre vazio por conta de um desleixo ao deixá-lo aberto. Ah, na boa, quem nunca esqueceu o porta-mala do carro aberto? Enfim, isso foi suficiente para que seus subordinados o abandonasse. Na vala e sem um tostão furado, mas com vontade de encher a cara, ele vai ao bar e, em troca de uma garrafa, oferece a sua bússola MÁZIKA que aponta para o que o usuário mais deseja. Nesse mesmo momento, Salazar consegue escapar de sua prisão no triângulo das bermudas.

Aí vem o que eu considero o primeiro furo. Digo, como diabos o Salazar escapou? É porque o Jack ofereceu a bússola? A bússola era a chave que prendeu o caçador de piratas lá? Se foi por conta da bússola, por que nos filmes em que ela foi parar nas mãos de outras pessoas o Salazar não conseguiu escapar? Ou ele simplesmente tinha ficado preso na gruta porque era ruim de direção e não conseguia manobrar sua banheira? Isso não fica claro e, mesmo se justificaram esse acontecimento, o filme corre tanto que acabou passando batido. Não que eu queira tudo mastigadinho, mas o mínimo de cadência o ritmo do filme precisa ter para que o espectador consiga acompanhar, principalmente porque esse filme é para vender, não é um negócio que almeje Cannes.

Nesse meio tempo, o filho Turner, Carina e Jack Sparrow se reúnem e conseguem fugir para o navio vagabundo que Jack tinha conseguido, visto que ele não sabia como tirar o Pérola Negra da garrafa em que ficou preso no filme anterior. Também somos apresentados a Barbossa que, depois de romber seu acordo com a corte inglesa e ter reivindicado como seu o navio fodido do Barba Negra, acabou se rendendo ao corporativismo e passou a comandar uma frota inteira de piratas. No entanto, isso não foi suficiente para enfrentar Salazar e sua tripulação de mortos-vivos e Barbossa preferiu fazer um acordo com o vilão e ambos seguiram atrás de Jack.

Em determinado momento, mocinhos e vilões se encontram, rola uma batalha marítima – e aproveite, é a última batalha bacana do filme – até que a situação complica e Jack, Carina e Henry acabam escapando no bote salva vidas para uma ilha. Depois de serem pegos em uma armadilha armada por uns conhecidos, Sparrow quase é forçado a se casar contra a sua vontade em uma das cenas mais imbecis da história do cinema, até que o Barbossa chega botando o pau na mesa, liberta o Pérola da garrafa e todo mundo vai atrás da ilha onde estaria o Tridente do Poseidon.

No caminho, como preparação para o clímax, o espectador descobre que o Barbossa é o pai da Carina. O grande problema é que isso não é lá uma grande revelação, visto que o filme já esporra várias dicas para quem assiste, como desde o começo em que a personagem avisa que não tem pai, o que deixa claro que deve ser alguém envolvido na trama até uma outra cena que termina dando destaque para os olhos azuis do velho piratão e que rapidamente corta para uma outra cena cuja fotografia destaca, da mesma forma, os olhos azuis de Carina.

Chegando lá, a própria filha do paizão resolve o enigma que divide o mar em dois, abrindo o caminho até o tridente. Tem uma treta maligna, o tridente começa a ser usado por todo mundo nessa treta maligna até que o quebram e as maldições do oceano, todas elas, são quebradas por conta disso.

Soou imbecil? Pois bem, na prática é ainda mais imbecil. Digo, por que ele quebraria todas as maldições do oceano, sendo que elas podem não ter relação alguma entre si? É uma forma muito babaca de resolver os problemas. Que pelo menos pensassem em um artefato cuja especialidade fosse justamente quebrar maldições. Ou ainda, estabelecesse que todas elas tenham relação entre si. Sabe, aquela coisa de trabalhar o universo? Ele já é um monstro em expansão mesmo, aumentá-lo mais um pouco que seja não vai fazer mal. Se bem que o mundo da franquia já é uma aberração desde o fim da trilogia original, visto que em seguida começaram a simplesmente brincar com as lendas da época de uma forma aleatória.

A questão é que, assim como a maldição que segurava o Will Turner foi quebrada e era essa a intenção de Henry desde o começo, a maldição que fazia de Salazar um morto-vivo também foi para o saco. O mar, que continuava dividido à Moisés se fecha e aquele agueiro todo o consome nas profundezas no oceano, mas não sem um sacrifício heroico do Barbossa para que todo mundo escapasse em segurança – sacrifício heroico que estava estampado na testa dele desde que a verdade sobre sua prole veio à tona.

A cena seguinte mostra Carina e Henry juntos, bem como o Will finalmente pisando em terra firme para ficar. Até a Keira Knightley como Elizabeth para fazer o que foi provavelmente a grana mais fácil de sua vida, visto que só ficou em tela por uns dois minutos e não precisou fazer mais nada além disso.

Jack Sparrow? Fica chateadíssimo porque não teria o Barbossa lá para encher o seu saco, mas decide tocar a vida porque tinha o Pérola de volta. Fim. Ah, também rolou uma cena pós-créditos com o Will Turner tendo uns sonhos paranoicos, mas é isso.

O problema principal desse quinto filme é justamente seu ritmo. Ele hora é rápido demais, como em seu primeiro ato, onde tudo deveria ser explicado e não é, hora é maçante demais, como as cenas das viagens de navio e da tripulação discutindo. Não há uma forma narrativa crescente num passo equilibrado. Isso cansa o espectador. O terceiro ato, então, é uma bagunça, visto que eu não consigo me decidir se ele é arrastado demais ou é corrido demais.

A única decisão que eu consigo tomar é ao atestar que a luta final é uma merda. Um dos encantos dos filmes anteriores era justamente a quantidade de sequências de luta dinâmicas e divertidas, como a batalha final do Barbossa contra o Jack no primeiro filme ou a briga na roda do segundo. Esse aqui até tem umas sequências bacanas, como a do roubo ao banco ou a primeira briga no mar, mas acaba por aí.

A impressão que me passa é a de que não houve empenho no filme. Se era para fechar com chave de ouro, pelo menos que caprichassem na produção, como fizeram em Logan. Tudo parece ter sido feito nas coxas, como a trilha sonora basicamente composta de reutilizações dos filmes anteriores até as cenas que claramente foram filmadas no chroma-key. Os efeitos especiais, cuja franquia era referência, estão dignos de Playstation 3 aqui.

Sejamos francos, a forma não-amaldiçoada do Salazar se parece com uma versão pirata do Temer.

Sobre os personagens, eu dou destaque para o Barbossa. Ele tem lá seus problemas de escrita, como, por exemplo, se ele já tinha ido à ilha onde se encontrava o tridente e sabia resolver o enigma que o guardava, por que simplesmente não falou e mostrou que manjava? Entendo que isso serviu para dar destaque à Carina, mas é algo que simplesmente não convence. O cara tinha até uma tatuagem com a resposta do enigma, pelo amor de deus. No entanto, ele foi retratado de uma maneira sentimental sem ser melosa. Extravagante porque essa história toda de pirataria é, de fato, extravagante, mas foi possível observar humanidade em um personagem cuja apresentação pomposa logo no primeiro filme foi justamente dando destaque ao fato de ele estar na condição de morto-vivo.

O personagem do Jack Sparrow me causa sentimentos variados. É fantástico como, no começo do filme, o personagem está na merda, com a recompensa por sua cabeça, que já foi a maior do Caribe, tendo simplesmente diminuído para um valor que nem compensaria a caça por ela. É uma forma bacana de mostrar que a idade chega para todo mundo. O problema principal é que o personagem em si também já mostra sinais de desgaste, principalmente pela superexposição. No primeiro filme, ele era o coadjuvante do personagem principal William Turner e roubou a cena. Hoje, apanha para sustentar um filme por conta própria. Parte da culpa recais também sobre o próprio Johnny Depp, que é um boçal que não se entrega ao personagem que o projetou para a fama mainstream e o nomeou ao Oscar pela primeira vez.

O que talvez valesse para salvar o personagem seria a exploração da juventude do mesmo, tal como os livros fizeram. A cena mais fodida do filme foi justamente a de um flashback que aparece o cara ainda moleque botando para foder contra o Salazar, logo quando recebe a bússola como herança de seu antigo capitão e quando ele começa a tocar o terror, fazendo malandragens pelo mar. Aproveitando que seriado é um formato em alta hoje em dia, a Disney poderia arriscar, botando um orçamento considerável para desenvolver um projeto centrado nessa fase do cara.

A forma de morto-vivo também.

Também gostei da personagem da Carina. O que poderia se tornar uma nova Elizabeth Swann acabou virando uma personagem carismática e que consegue ter presença sem parecer forçada na trama, feito aquela babaquice do moleque se apaixonando pela sereia no quarto filme.

Aliás, falando de aleatoriedade e presença forçada, não podemos nos esquecer do personagem do Paul McCartney como o tio do Jack Sparrow. Ó, se aparição especial for só para aparecer sem fazer porra nenhuma, que não apareça. O Edward Teague, personagem do Keith Richards, ao menos, teve papel pequeno, mas marcante e importante para a narrativa no terceiro e no quarto filme. O do Paul McCartney literalmente não serviu para porra nenhuma. O mesmo vale para aquela Bruxa do Mar que sumiu na trama do nada da mesma forma que surgiu. Era um puta conceito que simplesmente não deram continuidade.

Esse quinto filme foi broxante. Eu já esperava que ele fosse bomba, mas ele não é bomba. Ele é meh. É tão meh que é decepcionante, visto que eu adoro esses filmes ruins porque eles geralmente ensinam alguma coisa. Aqui, o que poderia ser a conclusão épica de uma saga, foi um filme tão burocrático, para dizer que foi feito, da mesma forma que o quarto filme. Os diretores disseram que tentaram mirar no primeiro filme, mas acabaram acertando na novela das 6 da rede globo.


Informações

  • Duração: 129 Min.
  • Ano: 2016
  • Direção: Joachim Rønning e Espen Sandberg
  • Roteiro: Jeff Nathanson
  • Trilha Sonora: Geoff Zanelli, Hans Zimmer (tema)
  • País: Estados Unidos
  • Gênero: Aventura
  • Estrelando: Johnny Depp, Javier Bardem, Brenton Thwaites, Kaya Scodelario, Kevin McNally, Geoffrey Rush, Orlando Bloom

P.S.: Em tempo, se tiver interesse em um desses filmes bombas, mas divertidos de tão mongóis, recomento o Rei Artur: A Lenda da Espada. 

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