Análise: DARLING in the FRANXX

Eu gosto de anime bocó. Até assisto a alguns que não têm essa proposta, mas de um modo geral, quanto mais boçal ele for, melhor. Sabendo que DARLING in the FRANXX foi feito pelo Studio Trigger, responsável por Kill la Kill, Ninja Slayer From Animation, Inferno Cop e, parcialmente, Gurren Lagann, fui arriscar. Também decidi dar uma chance porque EU ME AMARRO EM ROBÔS GIGANTES, TODOS SE AMARRAM EM ROBÔS GIGANTES — AS GATAS TAMBÉM, ROBÔS GIGANTES. De antemão, já me avisaram que eu não ia gostar, só que apesar de dar moral para certas opiniões alheias, dificilmente sigo qualquer recomendação (ou contraindicação) que me fazem.

Para compreender a problemática envolvendo essa porra, é necessário deixar claro de início: você não será um otário feito eu, já que estou avisando com antecedência que essa merda é um novelão da Globo (tipo Breaking Bad) que, por um acaso do destino, tem mechas nele. Robozões não são o foco aqui. Seus temas recorrentes são, não necessariamente nessa ordem, sobre gravidez na adolescência, abuso infantil, bulimia, homossexualidade reprimida e alguns outros tabus tão recorrentes da teledramaturgia brasileira, cansada de trabalhá-los tão exaustivamente e sempre da mesma forma clichê.

De início, o treco começa até que bem. Nada espetacular, mas algo que é, de fato, assistível. Logo no começo ele apresenta o universo da série, completamente desolado, cuja última esperança são um bando de moleques criados em laboratório e que passaram a viver sob o mesmo teto por conta própria, cada um com suas tarefas domésticas. Eles controlam os robôs gigantes separados em casais. De fato, há uma explicação interna do universo para isso — só que eu não me lembro mais e não faço nem esforço para ir atrás porque a razão em questão pouco importa, uma vez que é óbvio que isso acontece por puro fanservice, dada a maneira como ocorre:

Então, esse troço é tão imbecil que passa a ser injustificável por absolutamente qualquer explicação que possam dar dentro do contexto da série, principalmente pelo gemidinho gratuito que as moças dão no instante em que a sincronização entre o casal se inicia.

Pois bem, o nosso protagonista — que se chama Hiro, mas aqui vamos nos referir a ele apenas como “protagonista” como um reflexo do quão genérico ele é — estava de boas andando à margem do lago enquanto se lamenta por ser um fracassado incapaz de pilotar um robô (os tais Franxx) com alguém, provavelmente porque é impotente, considerando toda a SÝMBOLHOJIA presente nessa obra prima do século XXI que é DARLING in the FRANXX.

Nesse instante, repentinamente, a Zero-Two emerge do lago em uma cena de nudez (eu ia falar que era uma cena gratuita, mas tem coisa pior pela frente, além do fato de ser algo verossímil um indivíduo tirar a roupa na hora de mergulhar em um lago para relaxar). A questão é que era a primeira vez que o protagonista tinha visto uma garota peladona na vida — e se apaixonou instantaneamente por ela, pois moleque adolescente não pode ver um peitinho só que seja e já fica todo ouriçado. Ah, a 02 também vai com a cara do protagonista já que ele foi o único que não se importou com os chifres dela. Então tá.

Sendo adolescente no auge da puberdade, ele vai prestar atenção em chifres imperceptíveis ou em peitinhos?

Na sequência, há um ataque de monstros cujo nome merda meu cérebro excluiu. Acho que era KLAQUETESSAURO ou coisa do tipo. A problemática apresentada é que a 02 é um híbrido dos tais KROQUETESSAUROS com humanos e nenhum parceiro sobrevive a uma pilotada de robô com ela (nota mental: usar “pilotar um Franxx” como código para sexo no futuro). Hiro, movido pelos hormônios, se oferece a pilotar no lugar do cara que tinha acabado de bater as botas por não aguentar o tranco e acaba dando certo, revelando a forma verdadeira do mecha.

Daí começa uma caralhada de enredos menores explorando as relações entre os personagens, como o fato de ter um cara que é apaixonado pelo Hiro, mas entra em depressão profunda por não ter sido correspondido. Há também uma mocinha que encontra um “De Onde Viemos” (aquele livro sobre sexualidade por onde todos nós teoricamente deveríamos ter aprendido de onde vêm os bebês, isto é, antes da existência da internet) e fica fascinada com o conceito de ter um filho. Só que ela não pode se relacionar com o parceiro puxa-saco dela porque ele é um gordo patético — deixando claro que o fato de ele ser gordo não tem nada a ver com o fato de ele ser patético por si só —, fazendo com que ela vá atrás do material genético do cara que foi chutado pelo protagonista, naquele momento em estado de vulnerabilidade.

Além dos já citados, há outros adolescentes na gangue que se relacionam entre si de forma amistosa e hostil, em diversos acontecimentos que envolvem até mesmo um episódio de praia. A questão é que nenhum deles é realmente memorável a não ser por seus momentos de vergonha alheia, como os supracitados. Uma série de personagens completamente desinteressantes com character designs consideravelmente genéricos (assim como o protagonista) e desenvolvimento individual idem. São vários episódios de DRAMINHA, NADA ACONTECE, FEIJOADA. Eu ia falar que esses são quase uma versão com ROBÔS GIGANTES de O Cortiço, clássico da literatura brasileira escrito por Aluísio de Azevedo, só que como a essa altura já não tinha mais nada de mechas, então é só O Cortiço em seu aspecto puro e simples.

A 02 é uma merda que só, uma vez que é um personagem concebido de uma maneira a fazer um sucesso forçado e automático no público otaku, da mesma forma que o Dante em Devil May Cry. O pior é que o ar de sabichona edgelord era o que a tornava um personagem com um mínimo de personalidade, mas isso vai rapidamente embora e ela se torna uma fracassada igual aos novos amiguinhos adolescentes. É tipo quando o Power Ranger aleatório fodão aparece, dá uma surra em todos os Rangers principais para logo em seguida mudar de lado e se tornar um bundão igual aos outros. Sem falar que o design da personagem em si, tão elogiado por ser marcante, é virtualmente ripado da Anemone de Eureka Seven.

O próprio contexto pós-apocalíptico, que deveria trazer um sentimento de urgência, vai para o ralo bem depressa. Digo, em nenhum momento os tais BULBASSAUROS, que atacam a galera em intervalos sazonais — como os Anjos de Evangelion ou os Kaijus de Pacific Rim —, foram uma ameaça temível e sentida. A verdade é que eles estavam querendo o magma, que os humanos monopolizam como fonte de energia. Isso é uma estupidez sem tamanho, visto que é difícil acreditar que uma sociedade tão tecnologicamente avançada como aquela não tenha pensado em outros meios de obtenção.

Tudo bem, depois é explicado que isso tem a ver com os objetivos escusos de uns alienígenas surgidos do nada e que controlam a porra toda. O revés está no fato de não haver nenhuma justificativa que fomentasse a necessidade desse esclarecimento, o que chega a ser ofensivo. “Ain, mas nota-se aí como uma sociedade controlada por adultos não dá ouvidos às demandas, pensamentos e questionamentos feitos pelos adolescentes em estágio de amadurecimento não só físico, mas psicológico e intelectual também”. PUTA CRÍTICA SOCIAL FODA, pena que isso não é algo que já não tenha sido feito antes.

A partir daqui, começam os acontecimentos aleatórios e imprevisíveis (como os tais alienígenas Necrozma tirados do cu) que rumam para um desfecho contraditoriamente previsível — se comparado com o trajeto realizado nessa reta final — e completamente anticlimático. Não existe cadência narrativa ou equilíbrio. Ou é algo esporrado na cara de tão óbvio, ou é um plot twist tirado do cu. São seis episódios no gênero mecha para se tornar um slice-of-life adolescente nos seis seguintes para em seguida apresentar um pouco sobre as conspirações por trás daquele universo nos próximos seis e encerrar nos seis últimos de uma forma pretensiosa, anticlimática e nonsense (de uma maneira ruim) em referência aos trabalhos anteriores do Trigger e da Gainax em uma estrutura de roteiro esquizofrênica que começa bem, aí fica ruim, volta a ficar mais ou menos bom e depois vai para o saco de uma vez.

Tentando fazer o controle de danos, talvez seria possível dizer que DARLING in the FRANXX segue um esqueleto conhecido como Kishotenketsu, em que, após a introdução, um desenvolvimento casual é sucedido por um plot twist como ponto de virada cuja compreensão exige uma revisão de fatos já expostos anteriormente para, enfim, prosseguir na conclusão. A ideia, que teoricamente a diferencia de um enredo ocidental clássico, é que não há um conflito direto ou objetivo claro. Resumindo de forma esculachada, porca e provavelmente errada, é como se uma série de aleatoriedades que não dependem de uma linearidade entre si se ligassem apenas no final em uma grande revelação.

A questão do nosso desenho animado aqui, contudo, é que esses acontecimentos precisam fazer algum sentido dentro do plano geral. Mesmo tais plot twists de aparência aleatória precisam ser decorrentes de outros fatos anteriores ou ao menos seguirem no tom da série como um todo. Vamos lá, em partes: ignorando a indefinição temática em relação aos mechas, é seguro afirmar que DARLING in the FRANXX se apresenta como uma história sobre amadurecimento, o famoso coming-of-age.  Trabalharemos com a hipótese de que todo o enredo foi construído com a sutileza cotidiana tão comum do gênero slice of life.

Dentro dessa ideia, uma reviravolta brusca deveria ser pertinente a essa atmosfera construída ao longo dos episódios. Não dá para simplesmente ir FULL RETARD e meter um LOL ALIENS de uma maneira discrepante ao que já foi explorado até aqui, fugindo exponencialmente do tom. Um negócio desses pode ser feito em Gurren Lagann ou em Kill la Kill, cujas tonalidades por si já são pura galhofa. DARLING in the FRANXX passou uma caralhada de episódios carregando tudo na maciota para chegar no fim e cagar no pau daquele jeito. Por mais que haja a possibilidade se mostrar como uma meta-narrativa que resgata os animes anteriores do estúdio, ele não deveria ser refém disso, já que o público deveria conseguir assistir e entender sem exigir nenhum conhecimento prévio ou externo. A prioridade é fazer sentido internamente — ou ao menos deveria.

O problema central de DARLING in the FRANXX é puramente estrutural. Analogamente, é como o Fernandinho no jogo contra a Bélgica. O gol contra dele, individualmente, não é um erro impossível de se absolver, assim como o fanservice tosco recorrente na série. Contudo, a culpa do jogador em questão não deve ser eximida no todo, uma vez que ele cagou durante o jogo inteiro, sendo, de fato, o principal agente da derrota — tal como nosso anime aqui em pauta não pode ser inocentado por apresentar uma evolução pífia que perdurou por vinte e quatro episódios.

E ainda tem a parada da simbologia com os nomes dos personagens e dos robôs, que recebem nomes de flores e de seus componentes biológicos, como se isso fosse um puta feito. Dá para dizer que DARLING in the FRANXX sintetiza o sentimento que eu tenho de asco que não nem é em relação ao anime em si, e sim ao otaku que acha que esse tipo de coisa dignifica seu objeto de idolatria como superior em relação a outros. Cansa um pouco ver a superestima que há para tal forma de construção, em que tudo é óbvio, cuspido e mastigado, mas trabalhado de uma maneira insinuante para parecer mais inteligente do que realmente é, igual a Death Note. Só que nenhuma dessas metáforas pretensiosas consegue convencer justamente por dividir espaço com um fanservice imbecil.

Isso em contraste com a propaganda conservadora e que ele traz em sua conclusão e que, tal como suas metáforas, é igualmente tosca  — e que nenhum dos otakus intelectuais se atreveu a questionar ou sequer colocar na roda para debate, ressalta-se. Similarmente a Admirável Mundo Novo, a série tende a execrar quaisquer avanços sociais, atrelá-los aos avanços tecnológicos, e consumar uma ideologia de que o natural é bom. Tendo isso em vista, é como se FRANXX dissesse que uma sociedade em que as mulheres pensem no trabalho em vez de criar uma família é errado, enquanto aquela ideia de família de comercial de margarina do American Way of Life, em que as esposas serviam apenas como donas de casa reprodutoras, é a atitude mais humana, como ilustrado por aquele finalzinho mequetrefe de novela.

De resto, dá para dizer que ele tem animação gostosa e uma trilha sonora bacana de verdade. Pena que são desperdiçadas num roteiro merda com personagens igualmente ruins tanto em personalidade quanto em design. Desperdiçadas em uma aventura com potencial singular que acabou descambando no dramalhão, repetições de arcos de história (todo personagem precisa ser resgatado em algum momento de dentro do próprio robô) e em problemas com o ritmo. Os escritores aparentemente demoraram demais para construir um enredo, de fato, e começaram muito tarde a tentar fazer algo memorável do nada que havia até então. É um produto esquizofrênico que, na tentativa de fazer algo sério e fugir do formato clássico de narrativa de mecha, daqueles com foco nas relações pessoais entre os pilotos, cai justamente no clichê ululante.

A rigor, DARLING in the FRANXX é uma fusão Dragon Ball entre Kill la Kill e Gurren Lagann, mas sabe quando a dança não sai corretamente, os dedinhos não se tocam e o resultado final é uma aberração da natureza? Pois bem, é isso.

Eu só fico satisfeito porque o futuro desse troço é o esquecimento, assim como todo anime que é lançado e logo se torna a sensação do momento ao ponto de precocemente ser colocado como um novo Evangelion ainda nas duas ou três primeiras semanas de exibição. Aconteceu com AnoHana. Aconteceu com Highschool of the Dead. Aconteceu com Deadman Wonderland. Aconteceu com Sakamichi no Apollon. Aconteceu com Panty & Stocking with Gatterbelt. Aconteceu com Guilty Crown. Vai acontecer com esse aqui também.


Informações

  • Produção Original
  • Episódios: 24
  • Ano: 2018
  • Direção: Atsushi Nishigori
  • Trilha Sonora: Asami Tachibana
  • Estúdio: Trigger, A-1 Pictures/CloverWorks

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