Análise: Os Vingadores — Guerra Infinita

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Eu só ia escrever apenas um parágrafo a respeito de Guerra Infinita, mas existe tanta coisa a respeito dele que permeia a minha mente ao ponto de ser um filme tão fora da curva — mesmo não sendo — em relação a outros da Marvel, que acabei tomando um espaço um pouco maior. Ainda, acredito que esse review vai ser um pouco mais curto do que o costume porque não estou com saco de fazer aquele resuminho padrão das minhas análises, recontando a história sob a minha ótica, além do fato de inicialmente ter planejado passar 2018 todo sem falar de cinema aqui no brógui.

Pois bem, eu o assisti no cinema, mas na quarta ou quinta semana de exibição para pegar uma sessão mais vazia e fugir das cabeças de gado dos tontos da Marvel que riem de qualquer merda. Vi o filme mais uma vez recentemente, o que me motivou a escrever esses pensamentos de uma vez. Em ambas as oportunidades, tive exatamente a mesma impressão: não há a sensação de estar presenciando o grande evento que ele se propõe a ser.

Vamos lá, usando gibis como critério de comparação, geralmente há as runs normais, com as histórias corridas dos personagens e escritas por um único escritor ou equipe, as histórias meio filler que geralmente servem para preencher o buraco entre as runs enquanto os escritores são trocados — agindo às vezes também para amarrar diferentes fases ou acontecimentos com outros personagens relevantes, como tie-in — e os eventos importantes, que abalam as estruturas do universo e algumas vezes são consequentes das runs normais dos personagens envolvidos. Usando exemplos recentes, na DC tivemos um que eu particularmente gosto muito que é o Vilania Eterna. O próprio Guerra Civil, quando lançado pela Marvel, foi um evento de grandes proporções quando publicado em 2007.

O ideal mesmo, aquele que é só um devaneio consciente de que isso não é possível, era que todos os filmes do MCU tivessem um impacto digno de evento. Já sendo realista, eles deveriam ter pelo menos a proporção de runs normais e relegando os filmes centrais d’Os Vingadores, que fecham cada uma das fases, como grandes eventos. Pois bem, sabe qual foi o único que transmitiu, na sua época, sensação de evento? Apenas o primeiro, visto que era algo novo na magnitude em que ele ocorreu até então. O segundo é um filler sem vergonha que não serviu para nada. Esse terceiro, por sua vez, considerando toda a arquitetura e tempo envolvidos nos acontecimentos que se direcionaram para a sua existência, dá uma impressão de que estou assistindo a mais um capítulo de uma run corriqueira de gibi. Usando um formato audiovisual mais próximo, vou roubar a comparação feita pelo The Guardian e dizer que ele tem o peso de um episódio qualquer de uma série de televisão.

Isso começar pela sua previsibilidade. Lembro que na época encheram a paciência a respeito de spoilers, como se o filme em questão não fosse extremamente prenunciado, como se o público não soubesse que o Thanos ia ganhar, como se não fosse sabido que uma galera ia acabar batendo as botas. Depois disso, também rola um efeito Dragon Ball na ideia de que a gente não vai sentir o peso das mortes em questão porque é sabido que em gibi todo mundo que morre, volta. Se fossem personagens restolhos, como os Guardiões da Galáxia, dava até para considerar o óbito definitivo justamente porque não farão falta mesmo, mas é bem difícil deixarem o Homem-Aranha ficar de molho assim, ainda mais esse do MCU que é um carisma só.

Nesse aspecto, Batman V Superman teve muito mais bolas ao fazer o próprio Super abotoar o paletó, ainda que também fosse sabido que ele ia voltar. A Marvel também mostraria mais colhões nesse MCU se tivessem dado um jeito de sumir com o Stark, principalmente porque ninguém sabe direito a vontade Carreirinha em continuar fazendo o papel. E também porque o Stark merece se foder mesmo.

Outro fator que pega para essa questão de Guerra Infinita ser um episódio de televisão gigante é justamente o roteiro. Ele não consegue seguir uma estrutura limpa e direta, se assemelhando muito ao estilo das novelas — como as da Rede Glóbulo — com vários núcleos diferentes que vão se intercalando a todo momento e que, na real, apenas um ou outro acontecimento relevante para a narrativa ampla acaba acontecendo por capítulo. São duas horas e meia de um filme que começa mais ou menos, entra numa barriga angustiante para empolgar um pouco mais nas batalhas finais — que individualmente são muito boas por mérito da direção dos Irmãos Russo.

O problema principal desses filmes da Marvel é que eles não têm brilho próprio. Sabe o motivo de eu massagear tanto o escroto de Mad Max: Estrada da Fúria? É porque, mesmo sendo sequência de uma franquia já consagrada, ele consegue se sustentar como um puta filmaço individual que está cagando para seus antecessores. Os produtos do MCU não, eles ficam esporrando a todo momento na cara do espectador: “estou num universo compartilhado”, “estou num universo compartilhado”. No começo, quando essa ideia era apenas um projeto, os filmes se sustentavam muito bem por si só e eram divertidos de verdade. O primeiro Capitão América e o primeiro Homem de Ferro não me deixam mentir. O primeiro Guardiões da Galáxia também conseguiu esse efeito. Depois dele, até os filmes solo com novos heróis não transmitem isso, como Doutor Estranho e o Pantera Negra. Spider-Man: Homecoming, então, nem se fala (e olha que gosto desse).

Para não dizer que só estou me lamentando — e de uma maneira bem cansada de tudo, diga-se de passagem, mas acho que, pelo próprio tom borocoxô do texto, isso já é perceptível — afirmo que Memes Infinitos só não é um desastre por conta de uma direção absurdamente competente. Os Russo obviamente não tiveram culpa da bomba que caiu em seus colos, cabendo a eles simplesmente remendar essa colcha de retalhos que é esse MCU. Dito isso, é bom finalmente assistir a um filme d’Os Vingadores que é bem dirigido, ao contrário daquelas coisas defecadas pelo Joss Whedon anteriormente. O primeiro título ele só recebeu a bola livre na frente do gol sem goleiro e era só estufar as redes, o segundo já exigiu mais desenvoltura dele e, por ser um diretor bem limitado (para não dizer ruim), foi a bomba que foi.

Assim, ganhamos enquadramentos e iluminação gostososos que criaram cenas minimamente memoráveis pela primeira vez em um filme d’Os Vingabobos (e que não sejam desnecessariamente focadas na bunda da Scarlett Johanson), além de porradaria muito bem coreografada que o MCU até então só tinha conseguido entregar em Capitão América: Soldado Invernal — que, olha só, é dos irmãos Russo também. Pena que os efeitos especiais ficaram muito a desejar. Várias cenas eram dignas de PlayStation 3, mas infelizmente esse anda sendo o padrão de Hollywood de um modo geral hoje em dia.

De resto, é isso. Sobre os personagens, a maioria deles não convence porque a história é uma salada de fruta. O Thanos acaba sendo o protagonista de facto do negócio e os poderes do Thor finalmente foram apresentados no MCU, considerando que até então ele não passava de um coadjuvante de luxo. Além disso, corroboro com o julgamento que coloca o Starlord como o personagem mais desprezível da trama e até admito que, embora a maioria das mortes tenham sido completamente meh, na hora de assistir acabei ficando um pouco mal de ter rido dos memes do Menino Aranha não se sentindo muito bem — apesar do efeito tosco do AfterEffects apagando todo mundo. Falando em efeito, aliás, não tem cena mais brega do que o Thanos matando a Gamora com as tomadas sendo intercaladas por transições cafonas de fade dignas de vídeo de casamento feito no Windows Movie Maker. Todo o impacto que ela deveria causar me fez, na verdade, só dar risada do quão cômico aquilo foi.

Aliás, outro ponto que vale a pena levantar é que o Thanos ganhou não por capacidade própria, mas justamente pela comédia de erros que Vingabobos: Memes Infinitos acaba sendo, visto que os heróis até têm o poder para acabar com a ameaça, mas uma série de decisões equivocadas e até mesmo ruins acabam fazendo com que o vilão acabe vencendo dessa vez. Ou seja, se essa impressão acabou ficando no ar, significa não foi transmitida corretamente a ideia de onipotência que era a intenção original e, consequentemente, o Rick Harrison da Loja de Penhores arroxeado acaba não convencendo no mano a mano como o pica das galáxias que deveria ser.

Isso sem falar das cagadas sequencias do Memelord das Galáxias. Faltaram bagos no Thor em decapitar o bicho — solução levantada pelo próprio filme, aliás. Não é necessariamente um furo, mas pega um pouco mal quando, em uma narrativa ficcional, outras soluções possíveis para uma eventual problemática vêm à tona e não foram justificadas pelas ações dos personagens. Não é como se o Thor fosse um samaritano: momentos antes ele mesmo já tinha se gabado de aos mil e quinhentos anos ter aniquilado duas vezes mais inimigos do que sua própria idade. Sim, os personagens são humanos e cometem erros, mas por conta dessa declaração, especificamente, esse seria um injustificável. Os do Memelord, como a vida dele é fazer merda atrás de merda sendo o babaca que é, já conseguem se explicar sozinhos.

A conclusão, no fim das contas, é que o preguiçoso do Thanos enrolou tanto para tirar a bunda da cadeira e finalmente ir atrás das Joias do Infinito que não foi possível corresponder esse tempo todo de hype sendo gerado aos poucos ao longo dos anos de MCU. O que deveria ser o evento principal de todo um universo construído até aqui parece uma história corrida simples cuja empolgação não se equipara nem mesmo ao do primeiro Vingabobos.

Pior é quem solta que esse é o maior Crossover de toda a história. Bem menos. Não supera nem o encontro ao vivaço entre Gugu e Faustão em 2003. Particularmente, não supera sequer Scooby-Doo e Kiss, pelo nível de aleatoriedade da coisa. Aliás, Vingabobos: Memes Infinitos, a meu ver, não é nem Crossover.


Informações

  • Duração: 150 Min.
  • Ano: 2018
  • Direção: Anthony & Joe Russo
  • Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely
  • Trilha Sonora: Alan Silvestri
  • País: Estados Unidos
  • Gênero: Aventura, Ação
  • Estrelando: Gente para caralho

Nota: Não, falando sério agora, o maior Crossover da história é o Pernalonga e o Mickey dividindo o mesmo quadro em Uma Cilada para Roger Rabbit, de 1988. Maior do que isso, só se a Warner e a Disney se unirem e produzirem um filme de DC e Marvel em live action juntas — nos gibis já aconteceu.

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