Dracula Did Nothing Wrong!

É, eu vi o Castlevania da Netflix. De um modo geral, tem uns problemas na progressão narrativa, mas gostei. Tem também o fato de que, dos games da série, joguei mais títulos ruins do que bons. O que eu gosto mais é da atmosfera gótica do que do gameplay em si — a história dos games também não são lá grande coisa, ouso acrescentar. É por isso que eu achei que esse seriado funcionou — visto que só pegou o lore e utilizou uns enredos já existentes apenas vagamente para ter um norte para onde seguir.

Dito isso, quero trabalhar a seguinte ideia: Drácula não fez absolutamente nada de errado e ele se fodeu só porque perdeu a paciência — algo que acontece com qualquer um. Para tal, serão apresentados conceitos literários que envolvem a abordagem utilizada na representação dos personagens, bem como suas relações com outros atores da obra em questão.

Algo que eu sempre prego diante de certas acusações contra alguns produtos de mídia é uma análise contextual do negócio. Isso acontece muito com a questão do machismo, por exemplo. O Coringa e a Arlequina dão muito pano para essa discussão, com esse relacionamento conturbado (que, por sinal, nem existe mais direito) de ambos. O que as pessoas precisam entender é que, nesse caso, ambos são vilões e, como tal, são justamente o contrário de bons modelos a serem seguidos. O que acontece hoje é uma humanização dos vilões agora heroicizados, quando eles se tornam o modelo a ser seguido, invertendo completamente as funções narrativas clássicas que se desenvolveram ao longo do tempo.

Por um lado, enquanto eu não gosto dessa superexposição dos antagonistas por causar desentendimentos a ponto de assimilarem positivamente certas atitudes tomadas por esse tipo de vilania, é um aspecto que julgo interessante para compreendermos como o ato de contar histórias foi sofrendo mutações ao longo do tempo. Em resumo, gosto de vilões detestáveis porque assumem o papel de um exemplo negativo para a sociedade, sobre como não devemos agir em situações análogas ao cotidiano [1].

Entretanto, histórias são produzidas por indivíduos enviesados. Apesar de eu achar que a opinião do autor pode divergir completamente do que a obra em si deixa explícito, é interessante tentarmos analisá-la a partir da intenção de seu criador. É uma das maneiras, aliás, que eu utilizo para julgar a qualidade de um escritor, se a real intenção dele consegue ser transposta claramente de uma maneira alinhada à sua intenção, evitando entendimentos ambíguos.

É por isso (e aí segue outro exemplo) que eu ficava nervoso em época de eleição quando via a nerdaiada comparando o contexto político com obras da cultura pop contra o saco de cocô. Star Wars e Harry Potter são alinhados à vertente democrata da situação. Senhor dos Anéis, contudo, que já vi sendo usado com exaustão, não é. Sauron, por exemplo, é o vilão que deu uma voz e atenção aos orcs e goblins — criaturas marginalizadas daquele universo —, além de trazer, segundo um artigo muito bom do The Guardian, “forças liberais da ciência e industrialização” [2]. Sob tal ótica, esse tipo de coisa está bem longe de ser ruim.

Como Tolkien ilustra essa ideia? Colocando-o como o mal absoluto, levando o leitor a entender que tal força do desenvolvimento científico não trouxe nada além de desgraça para uma sociedade e alegoriza que o retorno de uma sociedade feudal conservadora é um paraíso na terra e que agora o mundo vai voltar a ser como deveria[3].

O Hobbit também trabalha isso de uma maneira muito interessante, especificamente, quando traz a discussão de haver mais imóveis vazios do que gente sem moradia ao aludir a tal tema quando Bard monta o acampamento MTST do lado de fora do castelo gigantesco que naquele momento era habitado por apenas doze anões. Lembra-se de quem é o herói imponente da história? Thorin, que faz oposição a esses INVASORES DE TERRA VAGABUNDOAAARGH. Obviamente a utilização daquela febre do outro que ele pega é uma analogia à forma de como um Rei precisa ouvir seus súditos e ser bom sem se corromper, mas ainda assim isso não passa de teoria liberal babaca.

Voltando ao Castlevania, Sauron e Drácula assumem papéis e ideias parecidas em suas respectivas narrativas. No entanto, a forma como cada um é pintado pelos seus respectivos autores é completamente diferente — de forma positiva, retomando aquilo que eu falei de evolução das formas narrativas clássicas na modernidade.

Quem é o Drácula da série? Ele foi um estudioso. Pesquisava ciência e medicina de forma contrária à igreja, que colocava esse tipo de pensamento como uma heresia que feria às Leis da Natureza Divina. Nada que a Inquisição já não tivesse feito na idade média. Inclusive, historicamente, o arquétipo do vampiro das trevas é justamente uma pintura semiótica de que quem mexe com esse tipo de coisa é maligno — assim como Sauron foi construído por Tolkien.

Ele também via a humanidade com bons olhos. Enxergava potencial, tanto que ele se apegou a uma humana que compartilhava de seus pensamentos. O que aconteceu, simplesmente, é que esse otimismo foi para o ralo quando a Inquisição pegou a mulher como bruxa. Foi quando ele, sofrido, ficou doido.

Essa loucura, especificamente, está atrelada justamente à questão do conhecimento que ele carrega. Sabe quando dizem que ignorância é uma bênção e ligam isso à quantidade de pensadores cada vez mais amargurados com o mundo e com a vida? É exatamente isso. Drácula viu que a humanidade é uma bosta e os seres humanos não passam de uns bundões que assinam o atestado da burrice porque gostam de ser burros, mesmo quando a verdade e o conhecimento são oferecidos de bandeja.

Nota-se também que a guerra que ele pregava não era nem contra a condição humana em si, mas a essa imbecilidade impregnada neles. Dentre suas linhas, ele contava com a companhia de Hector e Isaac, humanos que não rejeitam o conhecimento a eles oferecido. Aliás, foram perseguidos por seus iguais justamente por isso.

“Ain, mas você falou que vilão bom é vilão do mal mesmo e que se foda, que não é para gerar empatia”. Pois é. Lembro-me que também citei a evolução narrativa que contorce esses paradigmas. Aqui, o enredo é traçado para que sintamos pena do vampirão, que foi pintado, num primeiro momento, como o antagonista principal causador dos males — o que é desmentido pela progressão da própria série.

O Coringa não é para ser exemplo de porra nenhuma, mas ainda assim glamourizam esse grande filho da puta. O mesmo vale para Sauron, que apesar do ponto de vista que apresentei, fez merda para caralho pela Terra Média. Entende a diferença?

Ou seja, dá para afirmar: Drácula é bom. A Narrativa foi construída de forma proposital para sentirmos pena dele como um verdadeiro antagonista trágico. A verdade explorada pela série é que a humanidade é uma merda e gosta de ser otária. O senhor supremo dos vampiros foi apenas uma vítima escolhida e pintada como o vilão. Fim.

Ainda, ele nem deixa de ser vilão, de fato. A loucura o torna um verdadeiro antagonista convicto, cuja visão do mundo é distorcida e, portanto, não segue conceitos morais e lógicos. Ele se torna um baita vilão porque a insanidade o levou à barbárie, deixando a intelectualidade de lado e se deixando conduzir pelos instintos animalescos darwinianos. Então está aí o nosso exemplo negativo e porque não podemos também sentir tanta empatia assim, o que remenda qualquer contradição que esse texto esquizofrênico tenha apresentado até aqui.

De resto, é uma série bacana. O problema da progressão da história é na forma como ela enrola bastante e usa oito episódios para contar um conteúdo que poderia ser compactado em uns quatro ou seis. A animação também é de chorar de vagabunda, mesmo com uma direção de arte interessante. Ah, tem Bloody Tears, que me fez ver a cena duas vezes porque na primeira eu não prestei atenção na tela, pois me foquei em escutar a trilha que me arrepiou até os pelos do cu quando tocou. O desenho acaba lembrando até uns cartoons dos anos oitenta e noventa, quando se preocupavam em desenhar os personagens de maneira anatômica, tipo os Caverna do Dragão e He-Man da vida.

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Notas:
[1] Sabe um vilão que eu realmente detesto de verdade? Enrico Pucci, da sexta parte de JoJo. É isso que o torna um puta vilão.

[2] Os Mitos de Tolkien são uma fantasia política. The Guardian.
[3] O Rei Leão tem exatamente essa mesma ideia também. Scar é um cara que quebrou essa hegemonia conservadora e deu voz e ouvidos a um povo marginalizado que são as hienas. O que acontece é que a narrativa é construída de uma maneira para que nosso subconsciente processe isso de uma forma negativa. E que restaurar o reinado anterior, alegadamente bom, vai imediatamente, de uma forma milagrosa, resolver os problemas. Só um adendo mesmo, visto que eu sempre divago longe nos meus exemplos.

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