Análise — Dragon Ball Super: Broly

Só para constar, eu contei o filme praticamente inteiro aí. Se for comentar, LEIA o texto primeiro antes de falar qualquer asneira que o texto já tenha respondido por si só.

Eu não ia comentar nada porque eu tenho uma análise pendente da série regular a ser terminada aqui para o brógue, mas vamos lá do mesmo jeito. A questão, de um modo geral, é que eu acho a série Dragon Ball Super corrente, bem como seu mangá, uma perda de tempo em 70% de sua integridade e, por isso, nem botava muita fé nesse filme.

Considere também que eu não sou o maior fã do Broly que você vai ver por aqui, pois acredito que tinha coisa melhor para se resgatar da série original. Digo, ele teve três aparições anteriores, sendo a primeira bem mediana, a segunda tosca e a terceira catastrófica. Aliás, esse desgosto imediato só piorou quando deu para ver que eles iam oficializar aquela merda do Dragon Ball Minus.

Pois bem, é com um baita flashback que Dragon Ball Super: Broly começa. Ele mostra como o saiyajin do título era um guerreiro poderoso desde criança e, por isso, deu um cagaço no Rei Vegeta, que não queria nenhum menino mais poderoso do que o seu próprio rebento. Assim, Broly foi mandado para um planeta inóspito e foi seguido pelo pai, Paragas, que não concordava com a decisão. Na aterrissagem, a nave em que eles vieram quebrou e ambos ficaram por lá mesmo, tendo que sobreviver naquele ambiente hostil.

Nesse meio tempo, Freeza assume a liderança do império do Rei Cold e já começa a sacanear os Saiyajins. Há também o Bardock brocha fazendo sua aparição e morrendo para a Laranja Gigante do Freeza, que detonou o planeta todo. Nisso, o tempo passa e estamos novamente no período pós-Torneio do Poder. Soldados de classe baixa do exército do vilão estão rodando o universo atrás de guerreiros poderosos — devem se lembrar que todo o remanescente das forças de elite foi aniquilado pelo Vegeta após os acontecimentos em Namekusei — e encontram o planetoide onde Broly e o pai passaram os anos. Eles são levados até o chefe e incluídos no plantel de soldados do alto escalão.

Na Terra, Vegeta e Goku treinam num resort enquanto Beerus e Whis ficam enchendo o bucho acompanhados da Bulma e da Bra. Em determinado momento, essa turma descobre que o Freeza mandou mais soldadecos para roubar as Esferas que estavam escondidas na Corporação Cápsula, além do radar do Dragão. Faltando ainda uma Dragon Ball para poder invocar Shenlong, eles decidem buscá-la para impedir o antagonista de realizar seu desejo nefasto de ficar cinco centímetros mais alto.

Nisso, o próprio vilão vai para a Terra atrás da última Esfera que faltava e se depara com os seus velhos inimigos. Em vez de lutar ele próprio, decide chamar o Broly para a treta. Assim, embaladas por músicas eletrônicas com um toque tribal, as brigas anunciadas no primeiro trailer pelo narrador dramático têm início: primeiro VEGETA VERSUS BROLY, depois GOKU VERSUS BROLY. Tendo os dois falhado após lutarem juntos, eles fazem uma retirada estratégica e resta FREEZA VERSUS BROLY enquanto eles treinam os passos da fusão com o Piccolo.

Voltando, eles, na forma de um só guerreiro, enchem o Broly de bordoada a um ponto em que a própria dimensão entra em colapso. Com o Lendário Saiyajin à beira de ser obliterado pelo Gogeta, os soldados de classe baixa que o encontraram invocam Shenlong e pedem para teletransportá-lo de volta ao planeta de onde veio. Freeza foge com seu rabinho de lagartixa entre as pernas depois de quase ter virado poeira cósmica na pouco mais de uma hora (tempo do filme, não real) em que ficou apanhando enquanto Vegeta e Goku praticavam a dancinha que deu errado mais de uma vez.

O filme encerra com o Goku entregando ao Broly umas cápsulas Hoi-Poi com moradia e suprimentos para que ele não continue vivendo naquele local merda de maneira tão precária, além de se apresentar direito não apenas como Goku, mas como Kakarotto também.

Fim. É isso. Não é um roteiro exemplar e, em termos de história, ainda fica atrás de Batalha dos Deuses, arrisco dizer. Mesmo a concepção do roteiro bruto é literalmente Man of Steel sem o segundo ato — o que é irônico, considerando que Dragon Ball é chupinhado do lore de Superman. Aí vem Man of Steel e copia Dragon Ball de volta no estilo das porradinhas. Enfim chega o filme do Broly e eles acabam pegando mais uma vez a referência original. Não dá para deixar de relacionar aquela introdução em flashback dos Saiyajins com a destruição de Krypton em MoS. Paragas invadindo a sala do Trono questionando as autoridades do líder e sendo exilado foi igual ao Zod quando questionou a alta cúpula do planeta e foi preso na Zona Fantasma.

Paralelamente a tais acontecimentos, há o Goku sendo enviado na cápsula para a Terra para ser salvo enquanto seus pais bobões ficam olhando. Digo, antes, com o Bardock Caralhudo do especial original, esse background referencial era bem mais suavizado e a referência era menos esculachada. Agora só ficou um negócio besta mesmo. Outro ponto que poderia ter sido mostrado foi o Beerus dando o aval ao Freeza para destruir o Planeta Vegeta — algo que já foi constatado já na série. Uma pena.

Ainda assim, é notável a preocupação do roteiro em relação ao seu tratamento de trazer uma história concisa que justifique a briga desenfreada. Primeiro porque nos primeiros quarenta e cinco minutos não há um soco sequer que seja desferido, durante o Flashback. Segundo porque se preocupou em estabelecer todo um contexto bem sólido para deixar a porradaria correr solta depois, ao contrário da imensa maioria dos filmes de Dragon Ball — eles já vêm tentando fazer isso desde Batalha dos Deuses, para falar a verdade.

Esse tipo de introdução, na minha opinião, foi muito interessante porque deu uma sustentação para aqueles que não são iniciados na franquia (ao contrário do que aquela crítica babaca da Folha de São Paulo disse só para ver se chamava atenção) — fui com uma amiga que não conhecia bulhufas que entendeu tudo por conta disso e, mais importante, gostou.

Nota-se também houve a intenção de fundamentar alguns questionamentos que possam ser feitos. Por exemplo, normalmente, dada a força do inimigo, provavelmente ia ser questionado a possibilidade de Beerus (não) interferir na luta, considerando seu status de Deus da Destruição. No caso, além da preguiça característica do ethos do personagem, mostra que ele ficou tomando conta da Bra. Ele posteriormente não foi esquecido no final e aparece dando uma risadinha do tipo “no fim das contas, nem fui necessário”. Dessa forma, Dragon Ball Super: Broly pode não ser completamente isento de buracos, mas pela primeira vez houve uma tentativa de se blindar aos questionamentos dos chatos que pedem coerência na continuidade — minha pessoa incluída.

Mais um ponto positivo a ser ressaltado é a forma como eles exploraram o universo da série atrás de conceitos que poderiam ser reutilizados. Uma delas é a forma Ikari do Broly, diretamente atrelada ao fato de ele ser o Lendário Super Saiyajin, visto que se trata de um estado decorrente da manifestação do poder do Macaco Gigante e que, em teoria, é a fonte da força interior dos Saiyajins. O Super Saiyajin 4 é essa mesma ideia colocada em prática lá atrás em GT e aqui reciclada com competência e pertinência — gozado que ninguém gosta do arco em questão, mas também ninguém contesta a qualidade do que ele apresentou.

Ainda sobre os personagens, especificamente o Broly, apesar de eu gostar dele puto da vida simplesmente porque o Kakarotto nenê era um chorão do caralho, a personalidade embutida nele aqui, por mais clichê que seja, acabou funcionando bem por conta do seu relacionamento com o pai, que o controlava à base de uma coleira de choques, e do ambiente inóspito onde viveu.

Em tempo, Freeza continua sendo o melhor personagem dessa porra, desde o motivo para reunir as esferas — que faz uma referência ao Comandante Red como uma recaída em relação ao humor esdrúxulo da série original com o Kid Goku — até ele no final com o cu na mão por causa da surra que levou do Broly. Fico muito feliz em vê-lo ainda agindo como vilão, e não se tornando um antagonista amigável, dado o fim do Torneio do Poder.

Outro grande mérito do filme, entretanto, é a forma como a Toei, pela primeira vez na vida, se preocupou em fazer uma animação com o mínimo de qualidade em vez de seguir com o orçamento que consistia no troco do pão no intuito de otimizar os lucros. O estilo se assemelha com o da animação tradicional à mão e mesmo os momentos de computação gráfica saltam aos olhos pela beleza cujas transições são quase imperceptíveis por conta da agilidade das ações na tela — reiterando o que eu sempre falo, de que CG em anime veio para agregar e aprimorar técnicas e métodos que já existem, não os substituir. As cenas de transformação são geniais e mesmo algo que deveria ser desinteressante e até ultrapassado, como o Vegeta Super Saiyajin Deus (o do cabelo vermelho), chamam atenção, ganham destaque e empolgam até mesmo os marmanjos que já estão de saco cheio do looks preguiçosos do Salão de Beleza Akira Toriyama.

De um modo geral, Dragon Ball Super: Broly, empolga quem assiste. Melhor filme de Dragon Ball? Acredito que dá para dizer que sim. Embora não tenha uma narrativa tão diferenciada quanto Batalha dos Deuses, ele não deixa de se sustentar de maneira sólida nesse quesito e é anos-luz superior no critério técnico, seja a animação, seja a trilha sonora cujo estilo é algo que nunca havia sido feito antes em Dragon Ball.

Contudo, vale ressaltar que ainda é Dragon Ball — é um negócio massavéio que dessa vez calhou de ter um acabamento melhor no todo, mas não é nenhuma revolução prática que nos permite refletir a fundo e cujas minhas considerações a respeito angariariam mais umas três páginas extras no arquivo original do Word. Continua muito longe de ser uma das maravilhas do mundo como vejo os filhotinhos da TV Globinho pregarem.

Um adendo: vi dublado (única opção disponível no cinema) e está no ponto certo. Sem piadinha ou meme igual à tradução da série regular de Dragon Ball Super, onde cada episódio era uma cagada diferente. O cara que fez a voz do Broly regulou muito bem a garganta na hora da gritaria. Valeu cada centavo do ingresso caro.


Informações

  • Autoria Original: Akira Toriyama
  • Duração: 100 minutos
  • Ano: 2018
  • Direção: Tatsuya Nagamine
  • Roteiro: Akira Toriyama
  • Trilha Sonora: Norihito Sumitomo
  • Estúdio: Toei Animation

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Agora espere minha análise de Dragon Ball Super. Um dia ela vem.


3 respostas para “Análise — Dragon Ball Super: Broly

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