Fansubbers: Heróis da Revolução Otaku

Título alternativo: Crunchyroll Vs. Fansubs — acabou a mamata!

Eu vou falar sobre esse assunto porque texto dando opinião infundada é mais fácil de fazer do que minhas análises longas de várias páginas que exigem estudo prévio durante sua confecção, mas que ninguém lê. Enfim, eu parto primeiramente da seguinte lógica: pau no cu da Crunchyroll, mas um pau ainda maior dos supostos fansubs que alegam ter sido virtualmente derrubados pelo serviço.

Em tempo, o que está acontecendo é: Crunchyroll é dona dos direitos de transmissão de animes e faz sua tradução própria. Crunchyroll pede pros sites que roubam as legendas deles e as distribuem ilegalmente pararem com isso. Crunchyroll começa a ter atitudes mais drásticas em relação a esses sites. Sites começam a chorar alegando que estão sendo perseguidos, se vitimizando.

Quero deixar claro o meu posicionamento completamente a favor dos fansubs — e digo fansubs de verdade, não a esses sites de reencode — cuja atuação pode ser justificada pelo código de ética hacker como descrito por Steven Levy em Hackers: Heroes of the Computer Revolution. Há dois mandamentos centrais, digamos assim, que teoricamente pautam o trabalho dos fansubs.

O primeiro deles é: “toda informação deve ser livre”. Isso parte do pressuposto que a informação é uma entidade própria por si só que não deveria ficar restrita a um grupo seleto de pessoas[1]. Considerando que o ideal hacker é sempre visar o aprimoramento de todo e qualquer sistema, é a partir da informação que tais melhorias são atingidas. Isso levando em conta também que a palavra sistema não se refere a, por exemplo, um computador especificamente. As relações interpessoais humanas e os processos de produção e aculturação antropológicos também se dão através de sistemas próprios e independentes.

Sob tal ponto de vista, episódios de animes, bem como sua tradução no formato de legenda, podem ser encarados como informação que quer abusar de sua condição de liberta e atingir o maior número de indivíduos possíveis assim como um bom programa de computador merece ser compartilhado e estimulado a fazer o seu trabalho designado pelo seu próprio criador.

Isso está estritamente ligado a outro mandamento que diz que é possível criar arte[2] no computador. O Hacker, em nosso singelo contexto otaku, é o próprio fansubber, que desenvolve uma capacidade própria de extração de legenda e tradução individualizada. A sua própria tradução é um produto artístico singular caracterizado por sua assinatura, seu estilo, que irá divergir de outros fansubbers que podem fazer o mesmo projeto, mas num processo diferente que culmina em um resultado idem. Sabe quando um encode é mais compacto do que outro e os próprios fansubbers discutem entre si a respeito da necessidade e consequências disso? É o mesmo efeito descrito por Levy quando ele discorre a respeito de programas que conseguiam rodar com o menor número possível de linhas por conta dos sistemas precários de antigamente.

E os hackers — no nosso caso, os fansubbers — (normalmente) não são julgados por nada além da tradução e do encode. Se é mulher ou homem, se é adolescente ou adulto, geralmente tanto faz se o produto final for bom. Lembrando que isso não é bondade hacker, mas apenas uma busca pela otimização do serviço, digamos assim.

O segundo mandamento importante — e aqui está estritamente ligado estritamente à questão não apenas da Crunchyroll, mas também às editoras de mangá no caso dos scanlators — é “desacredite a autoridade e promova a descentralização”. NoOoOoOsSsSsSaAaAaAaA, são verdadeiros piratas!

É, é e não é bem assim. A questão é que isso chegou a ser invocado, de certa maneira distorcida, pelos próprios fansubs que declararam se sentir perseguidos pelo todo-poderoso serviço de stream de desenho japonês. Levy, em sua obra, utiliza a IBM de exemplo que se encaixa explicitamente no mesmo lugar da Crunchyroll. De acordo com o autor, a IBM realizou grandes avanços para a ciência da computação, mas não seria ela a responsável por fazer as mais poderosas e otimizadas máquinas e sim se aproveitar do marketing agressivo que a colocou como um sinônimo da computação em sua era. Havia um sistema, de fato, centralizado.

AIN, MAS NÃO HÁ APENAS A CR, HÁ TAMBÉM A NETFLIX, A AMAZON PRIME VIDEO E OUTROS SERVIÇOS DE STREAMING QUE SÃO RESPONSÁVEIS POR TRAZER ANIMEZINHOS PARA O BRASIL.

De fato, mas a lógica de todos estes é a mesma. Além disso, não é como se eles competissem entre si. Tratando os títulos de maneira individual, apenas a Amazon tem Dororo, por exemplo. Há pouca elasticidade de produtos. Outra coisa: os sistemas da IBM eram fechados e continham falhas que os hackers encontravam e melhoravam, otimizando os computadores de uma maneira que normalmente seria considerada imoral por se tratar de um produto com patente e os escambaus.

Esse pensamento vem da origem hacker, atrelada à ideia de contracultura muitas vezes assimilada aos Hippies anti-establishment, aqueles que eram contrários à energia nuclear, à guerra do Vietnã, à empresas multinacionais e qualquer outra forma de autoritarismo que minam a condição de liberdade do próprio ser humano. Por outro lado, há também uma forte colaboração entre seus iguais da mesma forma que os hackers se respeitam por serem quem são e agirem da forma que agem. Há uma comunhão entre os pares.

A comparação com o código de ética hacker pode soar forçada, mas um último dos princípios aqui invocados acaba embasando todas as asneiras que proferi até aqui: “O acesso a computadores – e qualquer outro meio que seja capaz de ensinar algo sobre como o mundo funciona – deve ser ilimitado e total”. Ou seja, as relações que estabelecemos no mundo se refletem na nossa forma de agir em rede — e vice-versa. Já ouviu falar de engenharia social? É normalmente um termo atribuído à capacidade de observar as interações humanas como sistemas muitas vezes lineares e previsíveis. Assim como os sistemas possuem falhas, as relações humanas também e, daí, é possível se aproveitar delas.

Agora, voltamos à questão do Crunchyroll. Sabe qual é a principal sacada a respeito de toda essa polêmica de direitos autorais, pedidos de cease and desist e um montão de boatos infundados e inflados pelos próprios “fansubs” que ficaram se fazendo de vítimas? Que os fansubs que seguem atrelados à esses princípios hackers que descrevi passaram completamente incólumes. A Alliance, por mais morta e enterrada que esteja, ainda é um dos maiores scansubs especializados em JoJo da América Latina — julgando pela quantidade de conteúdo que disponibilizamos — e não tem um link fora do ar que seja[3]. Outros scansubs sérios que conheço também passaram ilesos dessa crise.

Sabe quem realmente se fodeu e que chora as mágoas por conta dessa força-tarefa do serviço de streaming? Esses porras que ficam se vendendo de fansub, mas que não passam de sites de reencode das próprias traduções da CR e distribuem a público. Digo, por mais que eles tentem desacreditar e descentralizar a autoridade aqui, qual é o aprimoramento no sistema que eles possam oferecer? No caso de JoJo, não se davam nem ao trabalho de trocar os nomes localizados para os originais que referenciavam a indústria fonográfica.

Outra coisa: o interesse dos scansubs aqui é libertar a informação, simplesmente? Então me diga o motivo das Punch e AnimeVision da vida entupirem os sites deles de propagandas, protegerem todos os links deles por trás desses ad.fly e pedirem “doações” na suposta justificativa de se manterem que só dificultam o acesso a ela. O interesse do hacker é crescer como hacker, focando sua própria habilidade — não há lucro aqui[4]. Wozniak, por exemplo, preferia um sistema aberto e que permitiria eventuais modificações caseiras para o Apple II. Sua visão contrastava com a de Jobs cujo pensamento defensor de sistemas fechados de ponta a ponta no intuito de aprisionar o usuário nos produtos Apple está impregnado na empresa até hoje.

Em outro texto chamado The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age, este autorado por Pekka Himanen, denota que a ética hacker é centralizada no trabalho duro próprio e na paixão e contraria processos de trabalho sistematizados como o da ética do trabalho protestante (descrita por Max Weber) ou mesmo o sistema capitalista ideológico da pós-revolução industrial focado na mais-valia (Marx). Ou seja, não há lucro e não há exploração.

Antes de a internet servir como o principal meio de propagação dos animes traduzidos, sabe como o serviço era feito? Muitas vezes eram no formato do VHS copiado e passado de mão em mão, nem sempre com legenda e costumeiramente exibidos em projeções de um grupo fechado. Quem era o responsável por trazer tais raridades geralmente era alguém que queria simplesmente compartilhar esse gosto particular. Com mais pessoas assistindo, ele teria mais gente com quem conversar a respeito.

Aos poucos, novas formas de se fazer isso foram surgindo. Os canais de IRC e torrent. Novos formatos de vídeo que iam além do RMVB, cuja qualidade ia melhorando de acordo com o próprio avanço da velocidade da internet. Sites justos de reencode que o faziam no simples intuito de descentralizar o fansub original, oferecendo novas opções, mas sempre dando os créditos por uma questão de respeito e companheirismo hacker em relação aos próprios pares. Aliás, sabe onde esse respeito se faz presente também? Quando algum grupo toca determinado projeto e outros scansubs respeitam esse trabalho alheio, para não haver dois grupos trabalhando no mesmo anime ou mangá de forma redundante.

Os Scansubs têm um código de ética próprio e não estão aí para sacanear ninguém. A Crunchyroll e relacionados também podem não ir muito com a cara deles, mas não estão sacaneando nenhum desses grupos que seguem esse código de conduta. Assim como um hacker questiona a IBM por vender seu produto de uma maneira que não condiz com a realidade, eu também não tenho paciência alguma para a Crunchyroll, cujo player é ma merda, não me permite baixar o episódio ou assisti-lo off-line sem ser na velocidade que eu quero, visto que alguns títulos eu assisto em 2x no VLC para que um anime bosta não me faça desperdiçar tanto tempo da minha vida. A questão da customização da legenda também é importante — não me refiro a realizar mudanças no texto em si, mas ao menos na formatação da mesma e torná-la maior ou menor de acordo com minhas necessidades.

É por isso que reitero: pau no cu da Crunchyroll. Um pau ainda maior no cu desses fansubs que se sentiram perseguidos pela empresa em questão. Afinal, vocês estão em um nível onde há lucro. Um capitalismo selvagem que tem suas regras próprias e, no instante em que transações monetárias estão envolvidas, você vai brigar sim com os peixes grandes dentro desse mercado e vão perder. Canibalizem-se. Só não se façam de vítimas, afinal, foi a escolha de vocês.

Posts Relacionados: [Por trás de um Scanlator] | [“Obituário” ou “Meus pensamentos a respeito do fim da Alliance”]

Notas:
[1] É por isso que você vê vazamentos constantes de informações como nos casos que envolvem o Wikileaks, por exemplo.
[2] Arte no sentido de produto manufaturado dotado de uma aura própria. Não leve o termo a sério a um ponto de trazer discussões a respeito do que é arte num sentido catártico da palavra.
[3] Importante ressaltar que JoJo tem na Crunchyroll. Isso me lembra do chororô quando a gente afirmou que não iria fazer a parte quatro e falamos para assistirem pelo serviço em questão. Na real, nem estávamos fazendo média com a CR, nem pensávamos em apoiar o lançamento oficial. Era só preguiça mesmo de traduzir.
[4] Eu sempre gosto de evidenciar que nunca na vida foi gasto ou sequer angariado um tostão furado com a Alliance, usando-a mais uma vez como exemplo. A gente sempre utilizava o que estava em nosso alcance de uma forma prática, como um blog do WordPress ou os sistemas de hospedagem de arquivo.


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