Análise: My Hero Academia — 2 Heróis

Estamos no país da mamata, onde o presidente avisa sem nenhum escrúpulo que vai cometer nepotismo ao indicar a própria prole em cargos públicos e usar veículos de transporte oficiais do governo para transportar a família em compromissos particulares. Dessa maneira, acabei aceitando o humilde convite da kanojo para participar de uma sessão especial para a imprensa que a Sato Company promoveu no intuito de divulgar o My Hero Academia O Filme: 2 Heróis.

Nem reclamei. Fui mais a passeio mesmo e estou escrevendo esse texto por conta própria — não é como se eu tivesse a obrigação, seja ela contratual ou moral, de produzir algum conteúdo a respeito dele. Além disso, também não fui responsável por tirar a vaga de algum “veículo sério”, visto que ainda sobraram uma pá de lugares durante a exibição. Eu só estou aqui escrevendo porque acho um fenômeno muito interessante terem trazido o longa para o Brasil com o tratamento que ele teve.

Pois bem, as impressões que eu tive aqui são de alguém completamente leigo na série em questão. Apesar de já conhecer por cima o tal do All Might e o malucão protagonista de cabelo verde, eu não sabia bulhufas da história. Logo antes de o filme começar, me explicaram que era literalmente um anime de Sky High: Super Escola de Heróis, um clássico moderno da Sessão da Tarde. Isso me convenceu e decidi dar uma chance.

Bom, o filme explora basicamente a amizade entre o All Might e o doutor David Shield, cientista responsável por produzir as roupas do poderosão. Essa relação entre os dois rendeu ao Todo-Poderoso um convite para a I-Island, uma ilha TÉQUINOLÓGIKA habitado por cientistas do mais alto nível e responsáveis por desenvolver novos equipamentos para os heróis daquele mundo. Assim, da mesma forma que a Senhora Creisso me botou nessa cabine de imprensa, o brutamontes decide levar o seu protegidinho, Izuku Midoriya, para conhecer o local.

Lá somos apresentados à irritante Melissa, uma personagem que aparentemente é exclusiva do filme e que não para de falar um minuto que seja — e filha do doutor Shield. Além disso, apesar de ser um local super-top-exclusivíssimo, o protagonista acaba descobrindo que praticamente toda a classe da escolinha dele estava lá também. Nesse momento, o longa entra numa barriga narrativa ao dar uma enrolada considerável ao nos mostrar todo o contexto do filme e a relação de brotheragem entre David Shield e o Execrável All Might.

A narrativa finalmente vira quando, durante um jantar chique, toda a ilha acaba sendo rendida por um grupo terrorista que assume o controle de todo o sistema de segurança daquele lugar. Como todos os heróis de alto calibre ficam impossibilitados de agir, cabe aos estudantes bucha de canhão tomarem as rédeas dessa desconfortável situação —  sim, é exatamente como Sky High. Com isso, eles precisaram subir até o andar mais alto da torre mais alta, quando chegam ao painel do sistema de segurança e finalmente reassumem o controle da ilha.

Agora é a hora do plot twist: na verdade, tudo passava de um ataque de mentirinha promovido pelo David Shield — o cara que é MAIS QUE AMIGO, UM FRIEND do All Might —, que na verdade só queria resgatar uma invenção dele capaz de amplificar os dons (como os super-poderes são chamados) dos heróis, mas até então confiscada pelas autoridades da I-Island. Na sequência, um novo plot twist desse mesmo plot twist acontece e, convenientemente, os vilões decidem ser vilões de verdade e acabam roubando eles mesmos a nova tecnologia.

Nesse meio tempo, lembremos que o sistema de segurança da ilha retornou ao normal e o All-Might está agora livre e pronto para encher o vilão de bordoada. Sua força sozinha, contudo, não é suficiente para abater o antagonista que, obviamente, fez uso daquilo que acabou de roubar e se tornou uma verdadeira fortaleza impenetrável humana à Basque Grand (leia Fullmetal Alchemist). Sem outra saída, o loirão brutamontes junta forças com seu discípulo. Assim, os dois heróis (OLHA AÍ O NOME DO FILME) finalmente conseguem derrotar seu inimigo em um combate ripado da sequência final do Torneio do Poder de Dragon Ball Super. Fim.

De um modo geral, não foi uma experiência desagradável (passei por bocados bem piores assistindo ao Vingadores: Ultimato e esse remake tosco em CG d’O Rei Leão). A história, por mais boba que seja, é passável e eu acabo fazendo vista grossa para certas coisas porque eu tenho noção como filmes derivados de séries correntes de anime são e também porque eu tenho certeza que me falta lastro para, teoricamente, apreciar o a película como se deve (eu sou um crítico chato, mas não sou burro).

Apesar disso, um fator realmente interessante e que acabou deixando o filme bem claro para mim, um completo outsider na franquia, é que eles mostraram rapidamente uma breve introdução a respeito daquele universo, do drama do Midoriya, e de sua relação com All Might. Antes, analisando de fora sem saber de nada, achava estranha a escolha desse filme para distribuição em ampla escala visto que ele é um trabalho derivado, mas essa rápida apresentação consegue servir de sustentação para segurar os não-iniciados.

Falando nisso, a minha maior decepção, para falar a verdade, foi com a escala de poder apresentada. Do jeito que falam tanto do All Might, imaginei um negócio nível One-Punch Man ou Man of Steel, mas eu não sei o que aconteceu e senti que os personagens não demonstravam poderio tão alto quanto eu ouvia falar.

Isso provavelmente se deu também pelo aspecto técnico da animação que, na minha opinião, deixou um pouco a desejar, não só por se tratar de um baita estúdio como o Bones, mas também por estarmos falando aqui de um filme para cinema, que geralmente recebe um orçamento melhor para o projeto e maior atenção aos detalhes (se excluirmos, obviamente, as caganeiras caça-níqueis da Toei). O que eu via era uma animação comum cujos defeitos ficam levemente mais evidentes por estarem destacados em uma tela imensa no cinema. Mesmo os sakugas, aqueles momentos em que a animação se mostra bem mais elaborada por receber uma atenção maior na hora de ser produzida, não saltaram tanto aos olhos quanto poderiam.

Ah, destaque para a trilha sonora. Não sei se é exclusiva do filme ou reutilizada do anime, mas achei as melodias do caralho. A dublagem do filme é bem bacana. O Briggs, ficou ótimo no All Might, embora eu ache que, a essa altura do campeonato, a escolha dele para o papel tenha me parecido talvez um pouco forçada por se tratar de um dublador ultrapopular.

A minha única objeção real é a entonação da dubladora que fez a tal da Melissa, que é simplesmente inexistente. A responsável parece apenas que leu o roteiro sem interpretar ou sequer olhar para a tela no intuito de corresponder à carga dramática transposta pelos movimentos e expressões da moça em questão. Como se não bastasse, trata-se de uma dessas personagens exclusivas de um longa-metragem que ganham bastante destaque (como acontece em basicamente todo filme de Pokémon) e, consequentemente, ela explica e expõe o filme todo, a todo momento — como um Speedwagon, se você se lembra das partes 1 e 2 de JoJo. A dubladora destoava demais do bom trabalho realizado pelo resto do elenco.

Por fim, de um modo geral, apesar de interessante e tecnicamente bem bacaninha, não acho que este seja um filme para mim. É louvável que estejam tentando criar um mercado para esse tipo de produto fora das séries tradicionais que já fazem sucesso no Brasil, mas não me vejo em uma situação de comentar algo mais além do que eu já constatei a respeito disso. Ainda assim, dá para dizer que fiquei sim interessado em conhecer mais desse universo que conheci vi no filme.

É claro que eu levo muito em consideração que, apesar de não acompanhar, tenho plena noção de que se trata de um dos animes do momento e que sou eu — que vivi, digamos, o meu “auge otaku sujo” durante a era do Big 3 da Jump — que não está a par dos sucessos atuais, da fase atual da Shounen Jump. A criançada está e é muito bom que os engravatados da Sato estejam pensando nela em vez de relançar pela quadricentésima vigésima segunda vez algo relacionado a Cavaleiros do Zodíaco.


Informações

  • Autoria Original: Kōhei Horikoshi
  • Duração: 96 minutos
  • Ano: 2018
  • Direção: Kenji Nagasaki
  • Roteiro: Yōsuke Kuroda
  • Trilha Sonora: Yuki Hayashi
  • Estúdio: Bones


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