Extra! Extra! Joguinhos ficarão baratos e os problemas do Brasil acabaram!

O Brasil tem uma mania muito interessante de querer envolver o governo em absolutamente qualquer banalidade possível — apesar de ser cada vez mais presente o clamor popular por um Estado de menor intervenção no cotidiano do cidadão. Pois bem, nossa história de hoje, como muitas outras da contemporaneidade política brasileira, começa no Twitter:

Pois bem, aí viemos aqui para esclarecer uma série de fatores muito interessantes a respeito do nosso mercado de videogames. A primeira delas é desmentir a desinformação propagada pelo ilustríssimo governante em questão a respeito do mercado brasileiro no setor de games. Há uma concepção errônea a respeito do quão quente é o envolvimento do Brasil nesse setor.

Assim, enquanto há uma alegação tosca sobre consumirmos muitos games, isso é uma falácia já entranhada no sendo comum. Na verdade, tem muita gente na nossa frente. Falar dos Estados Unidos é uma obviedade. Assim, se formos citar mais alguns, é muito importante nos lembrarmos da China, que literalmente consome absolutamente tudo o que o governo libera (e que, ultimamente, vem sendo literalmente tudo) e Japão. Há também uma presença forte da Coreia do Sul e Alemanha, que fecham o Top 5. Ou seja, há outros países muito maiores do que nós nesse quesito, mesmo que geograficamente bem menores.

Tendo isso em vista, é válido ressaltar que, no Brasil, VIDEOGAME NÃO É ALGO CARO. Ao menos não tanto quanto querem fazer parecer. É possível afirmar isso tanto em comparação com o mercado nacional de anos atrás quanto em comparação ao mercado internacional.

Um lançamento hoje em média custa R$250,00, certo? Nos Estados Unidos, um game sai por volta de U$60,00. Com o dólar na casa dos quatro reais hoje, esse valor pode ser convertido para R$240,00. Ou seja, considerando o dólar como referência por ser justamente a moeda de lastro universal, é válido afirmar que o preço bruto por essas bandas não é muito diferente daquele praticado no próprio exterior — ainda mais se levarmos em conta que esses dez reais de diferença teoricamente corresponderiam a vários outros fatores, como as famigeradas (e alegadamente altas) taxas de importação e o lucro do varejista.

Outra forma de trabalharmos a questão do preço é dentro de uma perspectiva histórica. Assim, comparamos o piso de renda de um cidadão em relação ao preço médio de um jogo. Se voltarmos vinte anos, um jogo de Nintendo 64 saía por volta de R$180,00. Os de Game Boy eram mais em conta, custando aproximadamente metade do preço. Essa propaganda retirada do GameAds não me deixa mentir:

Os valores absolutos desses preços não são lá muito diferentes dos praticados hoje, certo? Até aí, tudo bem. O que acontece é que o salário mínimo daquela época era nada mais, nada menos, do que R$136,00. Ou seja, você tinha jogos que custavam entre 66% e 132% do piso salarial brasileiro. A questão é que, com o tempo, apesar de uma flutuação para mais em algumas situações, esses números brutos se mantiveram relativamente estáveis — ainda mais se considerarmos que esses preços continuaram inócuos diante da inflação.

Se formos chutar o balde, um lançamento de Switch vai sair por uns R$300,00, isso ainda jogando esse valor para cima ao considerarmos um Triple AAA First Party de destaque como Super Smash Bros. Ultimate. O Salário Mínimo atualmente custa R$998,00. Dessa forma, um lançamento hoje vai sair por, no máximo, 30% da renda de um indivíduo — um valor bem diferente dos 132% de anos atrás, não?

Essa análise superficial é feita em cima da renda mínima de um país em que 70% da população não recebe mais do que dois salários mínimos (de acordo com essa calculadora do Nexo). Há quem vá alegar que esses valores são estupidamente altos ainda e que um jogo não deveria sair por esse preço. Eles estão corretos. Só que há um fator da ciência econômica muito importante que não deve ser ignorado: videogame não é um bem essencial, como a alimentação.

Dito isso, dentro do nosso espectro, precisamos entender que o Estado arrecada consideravelmente em todos os produtos comercializados nos país. No intuito de favorecer o cidadão de maneira ampla, iremos reduzir os impostos do arroz e feijão de cada dia ou de um produto que atinge um nicho da população? Além dessa questão que acaba envolvendo a bússola moral de qualquer governante, há números brutos que atestam que não há vantagem nessa redução.

Em um país que alegadamente está quebrado, qual é a vantagem em reduzir um imposto que rende vinte e quatro bilhões de reais ao ano aos cofres nacionais de um bem que não é essencial para o cidadão, ainda mais durante um período de contingenciamento de gastos públicos? Por que você reduziria um imposto cobrado sobre uma mercadoria que, por via de regra, é muitas vezes importada e acaba congelando a própria indústria nacional de games, que já é fria por si só? No nosso contexto atual de crise econômica abafada com panos quentes pelo governo, por que erradicar todo um setor que, por menor que seja, ainda poderia colaborar para o crescimento do PIB nacional?

Por fim, mesmo a população não teria garantias de que pagaria ainda menos por um jogo. Afinal, a grande questão é que por mais que o IPI — Imposto sobre Produtos Industrializados, o qual o decreto atinge — seja reduzido, a chance maior é que ele não se reflita no preço no produto final, fazendo com que haja um aumento do lucro bruto do varejo.

Ou seja, é uma medida puramente populista que causará prejuízo nas contas públicas e acabará com um já acabado um setor de produção nacional só para que exista uma possibilidade (termo cuja utilização ainda implica incertezas) de agradar um nicho bem específico de consumidores.

Gozado que evitar essas mesmas implicações negativas são justamente a desculpa para promover uma série de medidas danosas para a população como um todo. COF COF COF PREVIDÊNCIA COF COF COF

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