Análise: Coringa

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Eu tenho um problema muito sério com essa mania que a modernidade trouxe de humanização do vilão no intuito de capitalizar em cima de um personagem que é muitas vezes mais popular do que o próprio protagonista. Em teorias narrativas mais clássicas, a existência de um vilão é justamente uma alegoria de personificação de tudo o que há de ruim e de exemplos negativos para o seu público justamente se afastar desse chamado “mau caminho”. Mais clássico do que a Bíblia — com seus antagonistas — nesse aspecto, não há.

Sim, as narrativas acabam evoluindo naturalmente através do curso da história e tornou-se comum, no intuito de trazer uma complexidade maior às obras, de observá-las sob diferentes pontos de vista e opiniões pré-concebidas ao ponto de tornar equivocada ou, ao menos minimamente questionável, uma eventual verdade absoluta a respeito dela — coisa que, de fato, não existe. Com isso, chegamos a um filme solo do Coringa.

É, você achou que eu não ia falar dele, né? Do Coringa. Do Palhaço. Do Jóquer. Do Palhaço. Pois bem, tal como a noite sempre vem ao fim de um dia, estou aqui mais uma vez não perdendo a minha deixa para criticar tudo aquilo que meu personagem acha que deve. E a bola da vez é o filme solo do personagem que por muito tempo foi vendido como uma película assinada por Martin Scorcese. Sim, há uma influência do cineasta em questão, mas tal alegação é errônea e só é utilizada hoje para enaltecer falsamente ainda mais essa tempestade de bosta pretensiosa dessa película.

A questão é a seguinte: Arthur Fleck vive numa sociedade, ok? Mais especificamente, numa Gotham do ano de 1981, antes de um bilionário tão doido quanto os vilões que ele enfrenta decidir se vestir de morcego para esmurrar bandido. Nela, o personagem principal tenta viver a vida tendo que encarar diariamente o transporte público e um bando de delinquentes que não fazem questão de não deixar ele se foder sozinho ao decidirem atrapalhar o trabalho de merda dele em uma agência de palhaços.

Não aguentando mais isso, um colega do trampo descola uma arma para ele — mesmo tendo seus problemas mentais, consequentemente, sem direito ao porte de uma. Ela acaba causando sua demissão sumária quando Arthur a deixa cair em uma apresentação num hospital infantil. Voltando para casa num metrô, deprimido, uns caras decidem debochar do problema dele que o faz rir em situações indevidas — uma coisa meio Tourette. Uma hora o nosso cidadão de bem acaba perdendo a paciência e enche de bala o rabo dos engomadinhos que o importunaram.

Esse caso acaba gerando uma baita comoção na cidade como um ato símbolo contra o capitalismo de maneira quase espontânea, visto que os três playboys mortos eram funcionários das empresas Wayne, cujo dono, pai do BÁTCHIMA, estava concorrendo a prefeito. Com, isso, uma série de acontecimentos aleatórios e sem sentido (não) vão acontecendo aos poucos, como a mãe de Arthur indo parar no hospital, ele descobrindo que supostamente (não) é filho de Thomas, (não) envolvendo-se romanticamente com a sua vizinha no moquifo onde mora. É quando culminamos no clímax.

Nele, Arthur, por conta de sua apresentação escrota de Stand Up Comedy, acaba indo parar num talk show apresentado por Murray, cujo sobrenome não lembro (e estou com preguiça de pesquisar), mas é interpretado pelo Robert De Niro. Durante sua entrevista, depois de ser ridicularizado pelo apresentador, o paiaço admite que foi o responsável pelo assassinato dos caras no metrô e ameaça fazer o mesmo com todos os que estão naquele auditório. Como todo bom Danilo Gentili, Murray De Niro faz piada de mau gosto com todo mundo, mas não aguenta quando as consequências aparecem e ele acaba ficando imediatamente sóbrio em seu bom humor e passa a condenar seu entrevistado. Ele logo depois é assassinado ao vivaço.

Nisso, o Joaquin Phoenix vai preso, mas logo consegue escapar da viatura porque uma ambulância bate nela. A cidade está um caos por conta do protesto organizado pelo movimento que ele mesmo deu origem (lembra-se disso?) e logo o resgatam do veículo capotado. É quando ele começa a dançar aleatoriamente enquanto todos os manifestantes black blocs batem palma para as merdas que ele faz.

Ah, é nesse finalzinho também que o Bruce presencia pela 16843ª vez a morte de seus pais em um filme. O filme acaba com o Arthur no sanatório e não precisa mais trabalhar em um emprego ingrato para se sustentar. Fim.

Pois é. De um modo geral, o filme é bem competente nos aspectos visuais e o próprio Joaquin faz uma interpretação coerente dentro do que o filme e o roteiro se propõem — mas acaba por aí. O principal problema desse enredo sem pé nem cabeça é que ele não processa uma linha cronológica com sentido, mas acaba apenas dispondo uma série de acontecimentos cuja relação entre si é muito frágil. Entretanto, o público acaba não percebendo esse tipo de inconsistência porque é facilmente impressionado com o aspecto técnico e visual do filme, que invoca o cinema dos anos 70 — como o Taxi Driver, do Scorcese. Laranja Mecânica, do Kubrick, também se faz presente em uma série de momentos.

Nisso, o mérito vai para o Todd Phillips, que é um bom diretor operário. Digo diretor operário porque ele não é mais do que isso. Ele não merece mais do que isso. O maior trabalho dele até então, para se ter uma ideia, é Se Beber, Não Case — que é muito bem filmado e trabalhado, mas acaba por aí. Diretor operário nada mais é do que aquele contratado para dirigir um projeto do qual ele não tem influência direta na criação, sendo as decisões finais pertinentes apenas aos produtores dos filmes. A maioria dos filmes da Marvel são assim, aliás, visto que o único indivíduo que realmente manda alguma coisa lá é o Kevin Feige.

O entrave principal, contudo, é conceitual. O próprio Coringa tem um problema muito sério como personagem, visto que ele é absolutamente dependente da mitologia do Batman ou, no máximo, do universo de heróis da DC Comics. Isto é, tire todo esse contexto dele, o que resta? Apenas um palhaço fanfarrão, excêntrico, terrorista e criminoso. Se você pintasse o rosto do Alex, do Laranja Mecânica, você não teria um personagem muito diferente daquele interpretado pelo Joaquin Phoenix, por exemplo. A questão não é nem em relação à sua nebulosa história de origem, mas na sua existência extremamente dependente do herói que ele se faz de antagonista.

Assim, o Coringa é, por definição, intrinsecamente ligado ao Batman. Logo se mostrou acertado algo que sempre bati na tecla desde o anúncio do filme: Coringa não sustenta filme próprio. A existência dele é de antagonismo ao protagonismo do Batman. Os roteiristas sabiam disso. Assim, logo trataram de inserir referências à mitologia da DC Comics — Gotham, os Wayne, o Asilo Arkham — e todas ficaram forçadas, inconsistentes, mesmo que sejam elas as responsáveis as pontas nessa questão cravar o personagem como o palhaço cujo pinto não sobe mais e precisa fazer alguma coisa para se divertir.

Fazendo um parênteses, aqui vai curso rápido para entender o Coringa: a simples existência do Coringa é um paradoxo à do próprio Bátima. O Coringa ri porque o Bátchima é incapaz de fazer isso, com aquela pose de bonachão dele. O Coringa é aleatório porque o Batz tem sempre um plano para tudo já feito de antemão guardado no bat-cu. O Coringa só quer fazer algo para se divertir — algo que o Batman abnega porque se sente um justiceiro solitário messiânico em sua busca paladínica para acabar com a criminalidade de Gotham. O Ethos de um é estritamente oposto ao de outro.

Contraditoriamente, Coringa (o filme) tenta se vender como uma obra solo e individual, detentora de sua própria luz. Ao mesmo tempo em que ele se vende como o Coringa do Batz, ele foge disso tentando se meter a algo individual, com vergonha de ser um filme de gibi. Essa pretensão escrota acabou fomentando um produto com uma personalidade tão esquizofrênica quanto a de seu personagem principal. É um Coringa de Schrödinger, porque ele é e não é o vilão que conhecemos, vai depender de qual furo do filme estaremos criticando no momento. O longa-metragem seria até aprazível (embora não muito) se, desde o começo, fosse apenas a história de um cara cujas faculdades mentais foram detonadas pela própria vida de merda, mas havia a necessidade patológica de torná-lo o icônico vilão dos gibis e, para isso, precisavam colocar todas as referências à mitologia, visto que é o universo que o deixa tão reconhecido. Percebe como é uma cagada cíclica em que não há uma rota de fuga? Isso faz parecer q a ideia de Coringa foi só para fins promocionais, já que o personagem acaba se vendendo sozinho.

Isso tudo sem falar na sua pretensão esdrúxula que o força como uma obra superficialmente inteligente. Digo isso num sentido similar ao que acontece com Death Note: ela é incrivelmente explícita em todas as suas mensagens, mas o espectador médio pensa que ele as deduziu sozinhas e, portanto, se acredita mais inteligente por tê-las supostamente decifrado. Os filmes do Nolan são assim. A crítica social desse filme é rasa, óbvia e clichê, mas como ela é mastigadinha, todo mundo se acha mais esperto depois dela.

Afinal, é tudo para mostrar que o Coringa incel é uma vítima da sociedade ruim, não é? Pior, ele é vítima da sociedade e o filme humaniza esse vilão ao ponto de aplaudir todas as cagadas que ele acaba cometendo, como se o meio em que ele vive, suas experiências passadas, os distúrbios psicológicos que ele apresenta e suas ações consequentes fossem as responsáveis por justiça social, mesmo que extremamente deturpadas. A ideia correta seria que ele é uma vítima da sociedade à qual, em tal condição, acaba provocando ainda mais danos, numa espécie de espiral. Isso não ocorre.

O próprio diretor, que tanto fala da ambiguidade do longa, foi um cretino nesse aspecto e nem sabe direito o que gerou. A única ambiguidade presente aqui é justamente nos crimes cometidos pelo personagem que o possivelmente caracterizariam imediatamente como o filho da puta que ele é. Isso rola com a dúvida deixada a respeito da reação dele quando descobriu que a namorada não passava de um devaneio escroto, um verdadeiro sonho de verão. Com a morte da mãe. Com a terapeuta. Com a cenas dele cometendo outras atrocidades que decidiram cortar do filme. Esse tipo de coisa. A ausência da violência gráfica presente nesses acontecimentos hediondos e a presença em outros com motivação mais justificável — como as do metrô — acabam isentando o Coringa do Phoenix do estigma de psicopata assassino de tendências imprevisíveis, pois nosso subconsciente só processa essas que nós presenciamos.

O filme trabalha simplesmente na vitimização do personagem e pronto, como se todo o caos não tivesse sido ele o responsável direto. Não estamos nem falando aqui de uma ordem punitiva, mas de uma ordem compreensiva que ainda assim não o isenta de seus crimes. Aí novamente retomamos o Laranja Mecânica. Pelo Kubrick, levamos em conta que a maldade do ser humano é intrínseca e irremediável. Pela obra original, a escrita pelo Burgess, a ideia é que essa maldade não será corrigida de uma forma estritamente condicionadora (como o tratamento Ludovico), mas através de um processo de compreensão e crescimento social, de autorreflexão.

Sob esse ponto de vista, é como se o filme fosse uma representação da concepção que a parcela conservadora tem sobre a  outra parcela progressista, que erroneamente seria a protetora dos bandidos por acreditarem que eles não passam de vítimas, quando na verdade a ideia é apenas a de compreensão social para que haja mudanças profundas em sua estrutura e impeçam o crescimento da criminalidade. Em termos diretos, é como se o filme fosse uma paródia da visão errônea que os conservadores têm da ala progressista sobre a bandidagem.

Esse sentimento só se acentua quando o roteiro acaba satirizando — jocosamente, devo incluir — a ideia (correta) de que a desigualdade social é provocada pela concentração da riqueza e, portanto, seriam os Wayne aqueles responsáveis pelo alto índice de criminalidade em Gotham. Essa não é uma ideia surreal, visto que uma quantidade considerável dos vilões do Batman surgiu justamente das ações do próprio vigilante, que começou apenas batendo em ladrãozinho de beco escuro e ladrão de xampu. Pense que é justamente o Coringa aquele a incitar o movimento contra essa classe alta dominante. No instante em que colocam um vilão, um bandido, representando esses ideais, você logo observa qual é a mensagem subtextual que acaba ficando na mente do espectador de forma inconsciente. Por que diabos essa revolta é causada justamente pela insanidade e falta de razão?

E é claro que não vamos deixar de fazer comparações com encarnações anteriores do personagem. A mais próxima, como era de se esperar, é a do Coringa Mendigo do Ledger. Embora ambas sejam muito próximas, essa representação do filme solo consegue ser dois dedos melhor por um motivo simples: Joaquin é um bom ator, Ledger nunca foi. Entretanto, é notável como o Coringa do Phoenix carece de referência que o tornem o icônico personagem individualmente. O que há de mais próximo com gibis e outras iterações mais caricatas é o gestual desengonçado em poucas cenas específicas. Isso é uma pena, porque muito do personagem também está na aparência física — e aí ele fica aquém até mesmo do Jack Nicholson, que nem biótipo para o personagem tinha.

Aliás, de quem foi a ideia de pintar o rosto dele como um palhaço genérico de festa infantil? Tudo bem ele passar por uma transformação, mas, na altura do clímax, tudo o que deveria restar a ele é a cara branca, o lábio vermelho e o cabelo verde. É quando retornamos àquele papo de que é a mitologia que faz o personagem. Com uma aparência de palhaço comum e pintura pouco característica, o que o diferencia de um psicopata aleatório qualquer? Nesse aspecto, até o tão criticado Coringa do Jared Leto, com tatuagens e próteses dentárias metálicas, ainda entregava um visual imediatamente reconhecível.

De um modo geral, o “Filme do Coringa” é uma obra medíocre. É uma rasa experiência incel de um personagem que não se sustenta por conta própria em um filme solo, mas que foi feito de forma forçada porque o público tem um inexplicável fascínio pelo papel. O roteiro é capenga, mas sua aura pretensiosamente cult, bem como um serviço de fotografia competente (e nem é tão exemplar assim, o Snyder dá de dez a zero pelo menos nesse serviço), acabam por iludir e enganar um espectador que não consegue se dar conta da ausência de profundidade da película. Existe até mesmo uma emulação de Lars von Trier, visto que a atmosfera melancólica consegue agir de gatilho para o desencadeamento de crises de ansiedade para aqueles que são propícios, mas o von Trier ao menos tem conteúdo que justifique essa irresponsabilidade psicológica.

O que se prometia como um grandioso estudo de personagem, no fim das contas, não prova nada. Só prova que o Coringa é um grande filho da puta.


Informações

  • Duração: 123 Min.
  • Ano: 2019
  • Direção: Todd Phillips
  • Roteiro:Todd Phillips & Scott Silver
  • Trilha Sonora: Hildur Guðnadóttir
  • País: Estados Unidos
  • Gênero: Cocô pretensioso, E-X-P-E-R-I-Ê-N-C-I-A
  • Estrelando: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy

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