Análise: Promare

Só para constar, eu contei o filme praticamente inteiro aí. Se for comentar, LEIA o texto primeiro antes de falar qualquer asneira que o texto já tenha respondido por si só.

Quem está bem habituado com Todo Mundo Odeia o Chris vai se lembrar de um episódio em que o Julius compra quilos e quilos de linguiça em promoção prestes a vencer, o que força Rochelle a produzir uma série considerável de pratos sem noção como uma forma de desovar tamanha quantidade do embutido. A despeito de serem pratos diferentes, o ingrediente era o mesmo e a família logo ficou de saco cheio de tanta carne de porco. Dito isso, Promare é o Macarrão com Linguiça do estúdio Trigger. É, tranquilamente a obra suprema do estúdio em questão — e isso não é necessariamente um elogio.

Promare conta a história de Galo Thymos, um bombeiro de uma Terra alternativa cuja principal atuação é resolver os problemas causados por parte da população que desenvolveu poderes pirocinéticos de maneira espontânea por conta de uma calamidade que aconteceu trinta anos antes dos acontecimentos do longa. O começo do filme se dá com um combate alucinante entre o protagonista, que é um Clone do Kamina, contra Lio Fotia, um líder terrorista pirocinético que mais parece uma cria bastarda do Kyo Kusanagi, de The King of Fighters, com a Byleth, de Fire Emblem Three Houses.

Depois de uma baita sequência de ação que dura aproximadamente meia hora sem qualquer interrupção, Lio é levado sob a custódia de uma força governamental daquele lugar, chamado Promepolis. A questão é que ele logo consegue escapar e, de quebra, é o principal responsável por organizar uma fuga em massa, quando liderou para a liberdade outros Burnish — o nome dado aos pirocinéticos daquele mundo.

Considerando que o protagonista de Promare é um desses heróis impulsivos de anime que não deixam barato, levam tudo para o pessoal e agem como se fosse um desígnio de nascença carregar todas as responsabilidades do mundo em suas costas, Galo assume para si a tarefa de reconduzir Lio ao cárcere. Quando os dois finalmente se encontram, o Clone do Kamina descobre que os Burnish não são maus e que eles, na verdade, eram cobaias de uma experiência conduzida por Kray Foresight, o ricaço metido a filantropo que provavelmente se elegeu chefe do governo de Promepolis depois de se vender como um outsider da política.

Galo, então, decide ir tirar satisfação com aquele que sempre tinha sido seu herói de infância — afinal, todos nós, em algum momento, passamos pela desilusão de descobrir que as pessoas que admiramos são, na verdade, uns baitas de uns escrotos. Durante esse confronto verbal entre ambos, o personagem principal descobre que o mundo estava prestes a explodir e que as experiências conduzidas por Kray eram mandar uma parcela da população para um outro planeta habitável, salvando-a desse cataclisma.

O protagonista não concorda com isso e acaba se metendo em uma briga direta — agora com porradaria de verdade — contra Kray. Ao mesmo tempo, Lio Kyo Kusanagi também aparece para ir às forras contra o vilão, que, por sua vez, parece um clone de Geese Howard. A questão é que ambos não são páreos para o sujeito e acabam fugindo para o esconderijo dos Burnish, que está próximo a um lago congelado. Eles logo descobrem que lá havia um laboratório submerso secreto, onde descobrem toda a verdade daquele mundo.

Uma inteligência artificial remanescente de um senhor chamado Deus Prometh — e ele é idêntico ao Professor de Darling in the Franxx que, por sua vez, é igualzinho ao pai da Ryuko em Kill la Kill — conta que seu corpo físico foi morto por Kray, seu antigo pupilo e assistente, que roubou todas as patentes que tinha criado e, assim, tornou-se muito influente em Promepolis. Além disso, o véio explica que os Burnish surgiram como um efeito colateral do cruzamento daquele universo com uma dimensão paralela chamada Promare, em que as chamas são seres dessa outra realidade se manifestando na forma de energia. Ou seja, aquela era uma força alienígena.

Considerando que a decolagem da nave espacial de Kray utilizava a energia gerada dos Burnish e isso aumentava a instabilidade do núcleo terrestre (o epicentro daquela polimerização dimensional), o destino do planeta era explodir. Para impedir isso, Deus Prometh tinha um às na manga: um robô gigante convenientemente chamando Deus ex Machina — o que é uma sátira ao próprio estúdio e um grande deboche do público que está consumindo pela enésima vez o mesmo roteiro deles.

Assim, Lio e Galo se unem para pilotar o robozão gigante contra o poder crescente do vilão. Durante a treta, a situação se complica e há um pouco de ironia dramática quando é revelado que Kray também era um Burnish, o que nada mais foi do que uma falha crítica social ao mostrar que o antagonista era um membro daquela raça contra a qual ele promovia genocídio. O filme acaba quando os dois heróis finalmente conseguem derrotar seu inimigo. Fim.

Há algum tempo, formei a opinião de que o estúdio Trigger era uma grande enganação que precisava ser desmascarada, uma vez que ele nasceu com o mérito do que a equipe tinha feito na Gainax — Gurren Lagann — e até estreou com os dois pés na porta ao produzir Kill la Kill, mas logo em seguida engatilhou uma série de produções de qualidade mediana ou supremos cocôs, como Darling in the Franxx.

Eu me via como um baita fã do estilo do estúdio e, por vezes, considerei-o a PlatinumGames da indústria de anime, só que essa comparação, aos meus olhos de hoje, é completamente descabida. Em suas respectivas áreas, a Platinum é, em todos os aspectos, anos-luz à frente do Trigger. Primeiro porque a proporção de bons games em relação aos ruins é muito mais favorável do que o histórico de qualidade das animações do Trigger, pois até licenciados meia-boca, como The Legend of Korra e Transformers, podem carecer de execução a nível técnico, embora sejam minimamente divertidos.

O segundo motivo é que a Platinum, apesar de todos os seus jogos carregarem um DNA específico, se permite ousar. É um estúdio que tem no currículo um leque considerável de produções. Astral Chain é completamente diferente de Bayonetta que, por sua vez, não tem absolutamente nada a ver com NieR: Automata — e todos estão muito longe de The Wonderful 101, por exemplo.

O estúdio Trigger é o completo oposto disso, uma vez que ele se mostra extremamente limitado por ser incapaz de fugir da própria zona de conforto. Retomamos aqui a anedota da linguiça, que nada mais é do que uma alegoria que decidi trazer para mostrar o quão embuste é esse tão saturado e cansativo meta-enredo deles. Desde a época da Gainax, com Tengen Toppa Gurren Lagann, a Kill la Kill, Darling in the Franxx e SSSS. Gridman. É exatamente a mesma merda de roteiro que envolve sempre os mesmos arquétipos narrativos. Eles utilizados com várias roupagens diferentes, mas o que importa é que a porra da linguiça continua lá. Para se ter uma noção, você vai ver os elementos de sempre até na abertura do OK, K.O.!, que tem vinte segundos apenas e se trata de uma produção outsourced, encomendada.

Para quem se lembra do episódio do seriado, ironicamente, o último prato que a Rochelle fez foi, de fato, o único que trazia uma combinação minimamente decente e clássica para o ingrediente — macarrão com salsicha. Promare tem tudo para ser o macarrão com salsicha do Trigger. É por isso que eu falei que essa é — ou ao menos deveria ser — a Magnum Opus do estúdio. Afinal, é a mesma história esburacada, só que, pela primeira vez, com uma qualidade técnica e visual que faça jus às cenas de ação realmente bacanas que eles sempre foram excelentes em conceber, mas inaptos de colocá-las em prática com alguma maestria.

A estética poligonal aqui trazida é um negócio incrível e a animação em computação gráfica, mesclada com a tradicional, só mostra cada vez mais que essa é uma técnica já completamente inserida e normalizada na indústria de animação japonesa. O character design é edificante e serve justamente para compensar a carência de desenvolvimento dos personagens, bem como conseguem agir como uma visualização gráfica da unidimensionalidade de suas personalidades — o que não é lá um defeito, visto que se trata de um filme e, consequentemente, há pouco tempo para um desenvolvimento profundo (algo que não é impossível nesse tipo de produção, assim como não é bem uma exigência).

Outro aspecto que chama atenção é que a introdução explica o básico do mundo de Promare de uma maneira imagética, sem praticamente nenhuma narração. A sequência de quadros iniciais, que mostra a pirocinese sendo descoberta pelos Burnish, quase não tem falas, embora ainda consiga situar muito bem a informação para o espectador, que logo vai entender que o incêndio causado no prédio, com os bombeiros tentando resolvê-lo, se deu por obra deles.

De forma ampla, esse apelo estético com base no estilo é bastante característico do estúdio. O problema é que isso também acaba pesando negativamente contra Promare uma vez que o longa traz todas as impressões digitais do Trigger elevadas ao quadrado. É tanta magnitude que eles forçadamente injetaram em Promare que ele se torna uma experiência exaustiva ao extremo. Não há pausas para respirar e deixar que o espectador processe o que está acontecendo.

Para se ter uma ideia, dos vários meios que um ser humano consegue processar a informação, uma delas é a chamada memória de trabalho, responsável por segurar os dados recebidos naquele mesmo momento, a curto prazo. Dito isso, ela funciona como a memória RAM de um computador, que segura todos os programas rodando concomitantemente enquanto ele está ligado.

O que acontece quando você abre noventa abas diferentes no navegador? O PC enguiça, já que o browser passa a exigir mais da RAM do que ela consegue lidar. Promare é, literalmente, o navegador que trava o seu processamento. Chega em determinado ponto em que o espectador simplesmente desliga e só começa a ver as luzinhas contrastantes no ecrã entrando em conflito uma com a outra, dada a intensidade da ação na tela. Na minha sincera e humilde (pffff) opinião, se você não enxerga um problema nisso, não pode reclamar dos filmes do Michael Bay.

O filme quer ser grandioso o tempo todo. Isso cansa. A história, apesar de contar com um worldbuilding muito inteligente, não passa de um roteiro tosco que foi carregado de adrenalina para parecer que passa uma mensagem forte. Trata-se de uma maquiagem extremamente carregada que tira a naturalidade do negócio. Eu não estou aqui pedindo um comentário social denso sobre racismo e genocídio tendo os Burnish como metáforas, mas as coisas poderiam ser muito menos previsíveis do que realmente são — lembrando sempre que a situação nesse aspecto piora quando você já tem noção do histórico narrativo do estúdio Trigger.

Quando assisti ao filme e comecei a escrever essa análise, eu estava em dúvida se detestei e achei o filme bom ou se tinha achado o filme absurdamente ruim, a despeito de ter gostado dele. Desenvolvendo um pouco minhas ideias, percebi que não gostei nem um pouco dessa bomba porque ela não passa de uma fraude que engana demais por causa da qualidade visual que ela exibe como uma forma de jogar o roteiro bosta para baixo do tapete. Independentemente de seus defeitos, o worldbuilding poderia ser muito interessante, ainda que, no fundo, não passe de um Fire Force com esteroides e mechas, a questão é que todo o potencial foi desperdiçado pela preguiça de sair da zona de conforto e decidir apostar nos vícios de enredo de sempre.

Só que ele é bonitão, né? Exatamente o mesmo mal de Dragon Ball FighterZ — as pessoas se deixam levar por esse aspecto, se iludem com força e ignoram que o produto em si é uma porcaria. É aquela questão de sempre: colocar um diamante no topo e borrifar perfume num monte de merda não vai fazer com que aquilo deixe de ser merda. Promare é um belo exemplar de um produto com muito estilo, mas com pouquíssima substância. É a obra suprema do estúdio, quintessencial, uma vez que absolutamente todos os arquétipos comuns que ele trouxe pela enésima vez e os flanderiza à nona potencia.

Para encerrar, não vou ser desonesto: a única vez em que o Trigger tentou fazer alguma coisa diferente foi com Little Witch Academia. Kiznaiver também, só que esse ficou uma bosta.


Informações

  • Produção Original
  • Duração: 110 minutos
  • Ano: 2019
  • Direção: Hiroyuki Imaishi
  • Roteiro: Kazuki Nakashima
  • Trilha Sonora: Hiroyuki Sawano
  • Estúdio: Trigger


3 respostas para “Análise: Promare

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