Análise: The Next Day – David Bowie

Eu escuto David Bowie desde criança. Se não me engano, era ninado com Life On Mars?. Só que ele nunca me interessou como artista até mais ou menos uns quinze ou dezesseis anos. Sei lá, simplesmente não me chamava atenção. Curiosamente, uma época logo antes eu comecei a dar mais atenção ao Prince também. Aí eu comecei a empreitada de saber tudo sobre ele, escutar toda sua discografia, ver todos os filmes e assim vai.

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Análise: The Rise and Fall of Ziggy Stardust – David Bowie

David Bowie é um cara que, infelizmente, não recebe sequer um terço de todo o crédito que merece. No último dia 6, seu álbum mais icônico, The Fall and Rise of Ziggy Stardust, completou quarenta anos.

Ziggy Stardust é um álbum conceitual. Ele conta a saga do artista homônimo que Bowie personificou durante o período da promoção de seu álbum. Tal personagem é inspirada em diversos outros ídolos do rock, como Iggy Pop, Jimi Hendrix, Vince Taylor e várias outras, além de ser a entidade perfeita, o ponto máximo da androginia. Tal extraterrestre é também um ícone na cultura popular.

O contexto se dá cinco anos antes de o mundo, de fato, acabar. Tal etapa é retratada pela música de abertura do álbum, Five Years, que descreve uma Terra desolada e escassa de recursos naturais. Tudo isso numa balada depressiva e melancólica que retrata a agonia de perder tudo que a humanidade já conquistara até então.

Em seguida, Ziggy reflete sobre a ausência dos diferentes tipos de amor nessa sociedade fria e triste em Soul Love, indo desde o amor materno ao amor que as pessoas deveriam ter por Deus. É uma canção sobre como o amor é cada vez mais escasso e como as pessoas vão se tornando mais e mais solitárias.  Ele coloca também a questão do amor físico e do amor verdadeiro, amor espiritual, aquele que é claramente visível e aquele que não é demonstrado, mas sabe-se que existe, de uma maneira ou outra.

Moonage Daydream é quando Ziggy começa a ser explorado. Num contexto sideral, ele demonstra que Ziggy é o alienígena Messias que viria a salvar a humanidade na forma de um rockstar em sua forma mais pura. Moonage Daydream é nada mais que uma alucinação causada por drogas alucinógenas, talvez?

Ziggy então, em sonho, tem uma visão sobre a vinda de um homem das estrelas. Starman pregava que as crianças, antes tristes e desinteressadas no Rock ‘N’ Roll por não haver energia elétrica, devessem aproveitar e se divertir da maneira que fosse possível. Ziggy então escreve uma canção sobre e passa a acreditar que ele é uma espécie de mensageiro deste homem das estrelas, um profeta, um Messias.

Começa a ascensão de Ziggy Stardust. As faixas a seguir tratam da peregrinação artística de Ziggy. It Ain’t Easy fala sobre suas dificuldades em seu caminho, bem como Lady Stardust que retrata um pouco do seu lado andrógino e feminino. Star retrata sua consagração como um ídolo enquanto Hang On To Yourself é sobre a vida na banda, como as apresentações e as tietes de camarim.

Suffragete City retrata o vício nas drogas, como a vida de estrela acaba por ser cansativa e os famosos recorrem às drogas para escapar da realidade. Henry, na música, é um apelido dado à heroína, bem como Suffragete City é o estado psicológico aonde ele vai parar quando está chapado. Na mesma canção há uma provável referência à Laranja Mecânica, quando ele se refere usando a palavra “droogie”, fazendo alusão ao lactobar Korova, onde eram vendidos os leites alucinógenos.

Rock ‘N’ Roll Suicide é a vinda, de Starman. É quando Ziggy Stardust morre para dar lugar ao deus que lhe enviara a visão. Starmen são na verdade, várias entidades feitas de antimatéria que surgem em pleno palco a partir de um buraco negro. Ziggy morre dilacerado, pois a antimatéria precisava assumir alguma forma para permanecer estável. Dá-se a queda de Ziggy Stardust, eternizando-o.

À medida que fui descrevendo o álbum, eu acabei pulando uma faixa que talvez seja a mais importante delas. A própria canção Ziggy Stadust é sob o ponto de vista de um dos integrantes de sua banda. É uma música que resume toda sua trajetória e seu ser. A partir dela, sabe-se que Ziggy era canhoto e tinha um visual exótico. É mostrado também que Ziggy tem sua crise de estrelismo e a banda não o aguentava mais, mas precisavam dele, porque cara, ele tocava muita guitarra. A última estrofe retrata Ziggy no auge de seu egocentrismo como um messias leproso, uma alusão às entidades de infinito que eram Starmen arrancando os pedaços de seu corpo.

The Rise and Fall of Ziggy Stardust é uma obra de ficção científica. A personagem é construída de forma completa, dentro de um contexto, o que a transforma em algo tão magnífico. É uma saga com começo, meio e fim. Ziggy é um ícone do Rock ‘n’ Roll e Bowie é um nome que deveria ser tão grande e ter tanto prestígio quanto os Beatles, Elvis Presley ou Michael Jackson. Apesar de começar numa vertente mais roqueira, o lado visual do pop hoje se deve inteiramente a ele. Chamar o Kiss de pioneiro é simplesmente um insulto ao Glam Rock. Tudo vem de Bowie e tudo vai de Bowie. Eu me pergunto o motivo de nunca ter existido um filme narrando a saga de Ziggy Stardust a partir do conceito do disco, igual foi feito com o The Wall, do Pink Floyd. O Filho do Bowie é cineasta, quem sabe um dia.

A verdade é que hoje, graças à The Rise and Fall of Ziggy Stardust, tudo, absolutamente tudo vem de Bowie. Ele não é uma simples bicha louca. Ele é o que faz a sua Lady Gaga ser o que é hoje. O álbum pode não ser composto de faixas de gêneros variados como Purple Rain, é até um pouco repetitivo e monótono em algumas partes, mas absolutamente nada tira o crédito deste disco.


Lista de Faixas

  1. “Five Years” – 4:44
  2. “Soul Love” – 3:33
  3. “Moonage Daydream” – 4:35
  4. “Starman” – 4:13
  5. “It Ain’t Easy” – 3:00
  6. “Lady Stardust”  – 3:20
  7. “Star” – 2:50
  8. “Hang On To Yourself” – 2:40
  9. “Ziggy Stardust” – 3:13
  10. “Suffragete City” – 3:25
  11. “Rock ‘n’ Roll Suicide” – 3:38

Análise: Labirinto: A Magia do Tempo

Há um tempo, quando o Horny Pony ainda estava no início, pediram para que eu escrevesse sobre o filme “Labirinto: A Magia do Tempo”, antagonizado pelo David Bowie. Bom, quem foi que pediu (eu não lembro quem), acabou ganhando. E faço isso como uma mera homenagem a nosso amigo David Robert Jones, que hoje (dia 8) completa 65 anos.

Labirinto, dirigido por Jim Henson e produzido por ninguém menos que George Lucas, é um filme, acima de tudo, com uma premissa infantil. Ele narra a saga de Sarah (Jennifer Connelly), uma garota de quinze anos metida a atriz que entoava em público as linhas de um livro chamado “Labirinto”, até que o relógio badala e ela percebe que perdeu a hora. Quando chega, sobra para Sarah ter que cuidar de seu meio-irmão Toby.

Dando falta de seu ursinho de pelúcia, Sarah segue em direção ao quarto de Toby e lá encontra seu brinquedo. Num acesso de raiva, ela começa novamente a entoar algumas linhas do Labirinto, especificamente uma que deseja que a criança fosse levada pelos duendes. Ela então sai do quarto e o choro da criança que antes lhe incomodava parou de repente. Sarah foi ao quarto conferir e não encontra Toby. Nesse instante, pela janela do quarto, entra uma coruja que se transforma em Jareth (David Bowie), explicando que ele havia levado o menino.

Sarah compreende a burrada que fez e implora por seu irmão de volta. Jareth então propõe que ela resolva seu labirinto em treze horas, caso contrário, Toby pertenceria aos duendes e se tornaria um deles. A menina então sai em direção a um labirinto que eu juraria que, se não fosse um filme infantil, acreditaria que é uma referência aos efeitos do LSD. Aliás, tem inclusive uma cena bem psicodélica em que nela é retratado um baile de máscaras, cujo objetivo é fazer Jareth ganhar tempo – ou fazer Sarah perdê-lo – e então ficar com a criança.

O Castelo de Jareth é bastante peculiar. Digamos que Jareth já brincava de “Inception” antes disso cair no gosto popular. É um complexo de escadaria aleatória que remete à arquitetura bizarra de Escher e a pintura surreal de Salvador Dalí.  Sarah só consegue vencer esse complexo quando ela recita a última linha de “Labirinto”, o livro que estava lendo no começo do filme. A construção começa a ruir e Sarah se encontra novamente em sua casa.

A cena final se resume a Sarah vendo os amigos que ela fez na jornada num espelho se despedindo, até que ela expressa a necessidade deles e os mesmos se materializam no quarto. Aí vem a PARTY HARD e a câmera corta para o lado de fora da casa, com uma coruja observando tudo; então ela voa.

Este filme pode não querer dizer absolutamente nada em seu início e desenvolvimento, mas tudo fica claro na cena do complexo da escadaria psicodélica. A frase final entoada por Sarah afirmava que Jareth não tinha controle sobre ela, implicando no autoconhecimento. Conclui-se que o indivíduo só poderá vencer suas dificuldades quando eles mesmos têm consciência de si mesmos. Cada um é dono do próprio destino.

Outra coisa importante é que o filme alerta ao espectador sobre a existência de coisas que nem sempre são o que parecem. Portas que não são portas, por exemplo. Fadas tinham como o conceito original curar, e não morder (fadas mordentes é um conceito muito pós-moderno). Isso entra na categoria de controle mental. Muito de uma imagem é maquiada pelos meios de comunicação. Vemos aqui outra semelhança com uma obra fantasiosa: O Mágico de Oz, onde o tão temido mago se reduzia a um frágil homem de trás da cortina.

Ao fim, a cena do espelho é a partir de quando sustentaria uma hipótese de que tudo que aconteceu a Sarah não aconteceu de verdade. Ela estaria presa em seu subconsciente, de uma forma similar à Alice no País das Maravilhas. Lembra-se que citei Salvador Dalí. Pois bem, Dalí era um artista Surrealista. Trabalhava com a inventividade da própria mente humana. É por isso que o foco principal é um labirinto em si: um complexo que, ao mesmo tempo em que leva para todos os lugares, não leva a lugar algum. A mente de Sarah era confusa. Ela tinha problemas familiares. Ao fim da viagem, atinge a maturidade. A PARTY HARD do final consistia de personagens amigos e inimigos, assim chegou-se à conclusão que o bem e o mal também são apenas as manifestações de sua própria personalidade que antes entrava em conflito. Uma vez que atinge-se a maturidade, encerraram-se também os conflitos internos. A destruição do psicodélico castelo de Jareth também põe um fim nessa confusão.

Já os amigos que Sarah fez de seu subconsciente imaturo permaneceram. Isso significa que não é preciso jogar fora qualquer coisa que seja considerado imaturo pela sociedade à volta para poder ser considerado maduro. Apenas tenha consciência do que se é de verdade.

Falaremos de Jareth agora. Ainda no surrealismo, encontramos os estudos psicanalíticos de Freud, que colocava o inconsciente composto por três partes: Ego, Id e Superego. O superego é a consciência moral e ética. Id é o estado primitivo do ser-humano, em que se enquadra o comportamento sexual. O ego é a alternância entre essas duas características, assumindo cada uma no momento que lhe for propício. Jareth é a personificação do Id. Enquanto Sarah saía em busca de seu superego, sua maturidade, Jareth agia como antagonista, o id. Válido lembrar que aquele que o representa é David Bowie, um símbolo sexual e da androginia. O próprio labirinto, planejado por Jareth, ostentava diversos obeliscos, símbolo fálico utilizado na antiguidade para representar a virilidade.

Gostaria agora de esclarecer um ponto. Enquanto pesquisava para escrever esta análise – nada pode ser escrito sem prévia pesquisa – encontrei alguns sites implicando que este seria um filme conspiratório. A verdade é que essas interpretações não fazem o mínimo sentido. Os Iluministas – Illuminati é só um nome para fazer parecer mais macabro, misterioso e oculto – foram apenas uma organização de intelectuais burgueses que desencadeariam a revolução francesa e nada mais. Se essa suposta organização existisse ainda hoje, ela, em teoria, seria secreta. E quem quer ser secreto, não ficaria colocando mensagem cifrada que, quando resolvida, exporia toda a verdade para um público que ela mesma tenta manipular em seus filmes. E tem mais, os Iluministas foram dissolvidos pela igreja católica em 1784. Fim da história e do distanciamento do assunto.

Um fato curioso é que nesse filme aparecem apenas cinco personagens interpretados por humanos, todos os outros são marionetes, talvez uma herança dos Muppets, também criado por Jim Henson. Os cenários são fantásticos e ao mesmo tempo, um tanto perturbadores. A trilha sonora, composta em parte por Bowie, pode não ser algo que seja fabulosa ou algo do gênero, mas se adequa bem ao filme, mesmo produzindo hits como a divertida “Magic Dance” e a balada “As The World Falls Down”.

Labirinto: A Magia do Tempo é um filme que ganha minha aprovação. Assim como Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz, Labirinto é um mundo de problemas lógicos num mundo ilógico (essa frase não foi minha, só para constar) e merece sim ser considerado um clássico, tanto da fantasia moderna quanto cult.


Informações

  • Produção Original
  • Duração:101 Min.
  • Ano:1986
  • Direção:Jim Henson
  • Roteiro:Denis Lee; Jim Hensin
  • Trilha Sonora:David Bowie; Trevor Jones
  • País: Inglaterra; Estados Unidos
  • Gênero: Fantasia
  • Estrelando: Jennifer Connelly; David Bowie.