Análise: Labirinto: A Magia do Tempo

Há um tempo, quando o Horny Pony ainda estava no início, pediram para que eu escrevesse sobre o filme “Labirinto: A Magia do Tempo”, antagonizado pelo David Bowie. Bom, quem foi que pediu (eu não lembro quem), acabou ganhando. E faço isso como uma mera homenagem a nosso amigo David Robert Jones, que hoje (dia 8) completa 65 anos.

Labirinto, dirigido por Jim Henson e produzido por ninguém menos que George Lucas, é um filme, acima de tudo, com uma premissa infantil. Ele narra a saga de Sarah (Jennifer Connelly), uma garota de quinze anos metida a atriz que entoava em público as linhas de um livro chamado “Labirinto”, até que o relógio badala e ela percebe que perdeu a hora. Quando chega, sobra para Sarah ter que cuidar de seu meio-irmão Toby.

Dando falta de seu ursinho de pelúcia, Sarah segue em direção ao quarto de Toby e lá encontra seu brinquedo. Num acesso de raiva, ela começa novamente a entoar algumas linhas do Labirinto, especificamente uma que deseja que a criança fosse levada pelos duendes. Ela então sai do quarto e o choro da criança que antes lhe incomodava parou de repente. Sarah foi ao quarto conferir e não encontra Toby. Nesse instante, pela janela do quarto, entra uma coruja que se transforma em Jareth (David Bowie), explicando que ele havia levado o menino.

Sarah compreende a burrada que fez e implora por seu irmão de volta. Jareth então propõe que ela resolva seu labirinto em treze horas, caso contrário, Toby pertenceria aos duendes e se tornaria um deles. A menina então sai em direção a um labirinto que eu juraria que, se não fosse um filme infantil, acreditaria que é uma referência aos efeitos do LSD. Aliás, tem inclusive uma cena bem psicodélica em que nela é retratado um baile de máscaras, cujo objetivo é fazer Jareth ganhar tempo – ou fazer Sarah perdê-lo – e então ficar com a criança.

O Castelo de Jareth é bastante peculiar. Digamos que Jareth já brincava de “Inception” antes disso cair no gosto popular. É um complexo de escadaria aleatória que remete à arquitetura bizarra de Escher e a pintura surreal de Salvador Dalí.  Sarah só consegue vencer esse complexo quando ela recita a última linha de “Labirinto”, o livro que estava lendo no começo do filme. A construção começa a ruir e Sarah se encontra novamente em sua casa.

A cena final se resume a Sarah vendo os amigos que ela fez na jornada num espelho se despedindo, até que ela expressa a necessidade deles e os mesmos se materializam no quarto. Aí vem a PARTY HARD e a câmera corta para o lado de fora da casa, com uma coruja observando tudo; então ela voa.

Este filme pode não querer dizer absolutamente nada em seu início e desenvolvimento, mas tudo fica claro na cena do complexo da escadaria psicodélica. A frase final entoada por Sarah afirmava que Jareth não tinha controle sobre ela, implicando no autoconhecimento. Conclui-se que o indivíduo só poderá vencer suas dificuldades quando eles mesmos têm consciência de si mesmos. Cada um é dono do próprio destino.

Outra coisa importante é que o filme alerta ao espectador sobre a existência de coisas que nem sempre são o que parecem. Portas que não são portas, por exemplo. Fadas tinham como o conceito original curar, e não morder (fadas mordentes é um conceito muito pós-moderno). Isso entra na categoria de controle mental. Muito de uma imagem é maquiada pelos meios de comunicação. Vemos aqui outra semelhança com uma obra fantasiosa: O Mágico de Oz, onde o tão temido mago se reduzia a um frágil homem de trás da cortina.

Ao fim, a cena do espelho é a partir de quando sustentaria uma hipótese de que tudo que aconteceu a Sarah não aconteceu de verdade. Ela estaria presa em seu subconsciente, de uma forma similar à Alice no País das Maravilhas. Lembra-se que citei Salvador Dalí. Pois bem, Dalí era um artista Surrealista. Trabalhava com a inventividade da própria mente humana. É por isso que o foco principal é um labirinto em si: um complexo que, ao mesmo tempo em que leva para todos os lugares, não leva a lugar algum. A mente de Sarah era confusa. Ela tinha problemas familiares. Ao fim da viagem, atinge a maturidade. A PARTY HARD do final consistia de personagens amigos e inimigos, assim chegou-se à conclusão que o bem e o mal também são apenas as manifestações de sua própria personalidade que antes entrava em conflito. Uma vez que atinge-se a maturidade, encerraram-se também os conflitos internos. A destruição do psicodélico castelo de Jareth também põe um fim nessa confusão.

Já os amigos que Sarah fez de seu subconsciente imaturo permaneceram. Isso significa que não é preciso jogar fora qualquer coisa que seja considerado imaturo pela sociedade à volta para poder ser considerado maduro. Apenas tenha consciência do que se é de verdade.

Falaremos de Jareth agora. Ainda no surrealismo, encontramos os estudos psicanalíticos de Freud, que colocava o inconsciente composto por três partes: Ego, Id e Superego. O superego é a consciência moral e ética. Id é o estado primitivo do ser-humano, em que se enquadra o comportamento sexual. O ego é a alternância entre essas duas características, assumindo cada uma no momento que lhe for propício. Jareth é a personificação do Id. Enquanto Sarah saía em busca de seu superego, sua maturidade, Jareth agia como antagonista, o id. Válido lembrar que aquele que o representa é David Bowie, um símbolo sexual e da androginia. O próprio labirinto, planejado por Jareth, ostentava diversos obeliscos, símbolo fálico utilizado na antiguidade para representar a virilidade.

Gostaria agora de esclarecer um ponto. Enquanto pesquisava para escrever esta análise – nada pode ser escrito sem prévia pesquisa – encontrei alguns sites implicando que este seria um filme conspiratório. A verdade é que essas interpretações não fazem o mínimo sentido. Os Iluministas – Illuminati é só um nome para fazer parecer mais macabro, misterioso e oculto – foram apenas uma organização de intelectuais burgueses que desencadeariam a revolução francesa e nada mais. Se essa suposta organização existisse ainda hoje, ela, em teoria, seria secreta. E quem quer ser secreto, não ficaria colocando mensagem cifrada que, quando resolvida, exporia toda a verdade para um público que ela mesma tenta manipular em seus filmes. E tem mais, os Iluministas foram dissolvidos pela igreja católica em 1784. Fim da história e do distanciamento do assunto.

Um fato curioso é que nesse filme aparecem apenas cinco personagens interpretados por humanos, todos os outros são marionetes, talvez uma herança dos Muppets, também criado por Jim Henson. Os cenários são fantásticos e ao mesmo tempo, um tanto perturbadores. A trilha sonora, composta em parte por Bowie, pode não ser algo que seja fabulosa ou algo do gênero, mas se adequa bem ao filme, mesmo produzindo hits como a divertida “Magic Dance” e a balada “As The World Falls Down”.

Labirinto: A Magia do Tempo é um filme que ganha minha aprovação. Assim como Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz, Labirinto é um mundo de problemas lógicos num mundo ilógico (essa frase não foi minha, só para constar) e merece sim ser considerado um clássico, tanto da fantasia moderna quanto cult.


Informações

  • Produção Original
  • Duração:101 Min.
  • Ano:1986
  • Direção:Jim Henson
  • Roteiro:Denis Lee; Jim Hensin
  • Trilha Sonora:David Bowie; Trevor Jones
  • País: Inglaterra; Estados Unidos
  • Gênero: Fantasia
  • Estrelando: Jennifer Connelly; David Bowie.