“Obituário” ou “Meus pensamentos a respeito do fim da Alliance”

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Hoje, 03/07, escrevo este texto. Eu já havia ponderado a respeito do assunto algumas vezes, mas agora acredito que não tem mais volta. Fechei a Alliance para valer. O post de anúncio diz respeito ao portal. O que está aqui, diz respeito somente a mim, opiniões particulares. Um não tem nada a ver com outro, encare-os de forma separada.

Certo. A verdade é que eu cansei, ok? Quando se vai ficando velho, você simplesmente vai brochando aos poucos dos seus hobbies mais antigos. E bem, eu faço traduções em scan, sei lá, desde 2008. Oito anos desde meu primeiro capítulo. Uma hora, o cansaço bate e você não sente mais o tesão de continuar com isso. E olha que eu tinha um tesão safado. Já virei noites traduzindo, bem como abri mão de várias coisas, dando prioridade a esse hobbie. Nem sempre o trabalho foi efetivamente bom (certo, os capítulos 11 a 25 de Steel Ball Run são fodas, no sentido ruim da coisa), mas eu sempre me dediquei.

Hoje, eu tive que tomar a decisão: ou eu continuo a administrar as paradas no automático, sem paixão alguma, ou eu paro. Optei pela a segunda alternativa porque eu gosto da Alliance, gosto da influência que ela teve na fanbase e quero que a qualidade continue. Se eu fosse em frente com o projeto, talvez ela começasse a decair, então, ao terminar Diamond is Unbreakable, dei o “canto do cisne”, que é uma expressão referente à lenda de que o cisne emite um único som, muito belo, antes de finalmente bater as botas. Até tentei levar Vento Aureo por ser minha parte favorita, mas vi que não ia aguentar o tranco mesmo.

Digo, eu até poderia passar a Alliance para alguém. Não, não fizemos isso. Já tentamos. Tentamos passar para um scan que fazia JoJo, inclusive. No entanto, depois de umas conversas, cheguei à conclusão de que seria fria. Caramba, ouvir que fazer o script primeiro para depois editar é “perda de tempo” é foda. Além disso, eu simplesmente não gosto de scan que tenta ser uma nova versão do scan gringo, bem como scan incapaz de se ater, no mínimo, à questão da gramática normativa.

Também tentei sair da Aliança, com outro colega meu, de confiança, tocando o portal. Não deu certo. Aliás, foi aí o declínio da Alliance, porque foram seis meses sem lançamento algum entre agosto de 2014 e março de 2015. Foi quando encararam que a Alliance tinha morrido e aí deu abertura para outros grupos tomarem a iniciativa. Não que eu esteja criticando ou intimidando, afinal, nós não somos/éramos donos da série. E mesmo os legítimos donos da série não querem que ela seja reproduzida por aí de forma ilegal, né? Mas enfim.

Além de estar cansado, outros fatores também me fizeram tomar essa decisão. Fanbase. Cara, a fanbase de JoJo traçou o seu caminho a ponto de se tornar uma comunidade pior do que a de My Litte Pony. Sério. A série, que era sinônimo de história interessante, tornou-se basicamente um apanhado de memes e referências. E isso é estúpido.

AIN, CREISSON. VOCÊ ESTÁ SENDO MUITO ELITISTA!!!111111ONZE!!!!

Estou, não nego. E digo mais, a nova fanbase é muito mais elitista do que eu. Vamos usar um pouco de metáfora social aqui, ok? Imagine que antes era a Elite e os que não conheciam JoJo. A suposta elite se achava superior por conhecer e a classe baixa, não. Com a expansão da série, há três escalas na equação. A Elite, que continua no seu status imaculado, a classe baixa, que não conhece a série e, a terceira, uma classe média, que é tão bosta quanto a classe baixa, mas se acha elite, superior aos outros, como se conhecessem mais, como se merecessem mais. E sim, essa fanbase faz isso. É só lembrar a ardência que rolou quando Tokyo Ghoul foi o título resultante da enquete da Panini a respeito de qual título a editora deveria publicar. E tem mais, 90% desses “Elites” já se desvincularam de JoJo por desgosto mesmo, eu fui um dos últimos moicanos.

Elitismo? Certamente. E aqui, pela primeira vez, não nego isso. Eu tenho é desgosto. E vai ficando cada vez pior. Já tive algumas encrencas no passado com uma galera aí, mas esses aí eram fichinha perto do que a fanbase se tornou. E ó, dou aqui o braço a torcer pro Admin da JoJo BR que, apesar de não irmos muito com a cara um do outro, merece palmas por continuar firme e forte e fazendo um bom trabalho com a página.

Além do mais, essa nova fanbase aí é folgada. Antes, a gente fazia JoJo numa boa, sem cobrança, lançávamos capítulos, rolava agradecimentos e até mesmo críticas, às quais intentávamos sempre ouvir e seguir. Com a massificação do processo, a impressão era que a Aliança era uma fábrica de traduções e que a gente deveria lançar capítulos atrás de capítulos. E quando decidíamos algo que vá, digamos, contra a vontade popular (tipo não fazer o anime da parte 4, por antecedência), rolou gente espumando em raiva. Ah, vá se foder. E o engraçado era que os anúncios e avisos ninguém queria ler, né?

O mais interessante é que quem acompanhou os lançamentos gringos de JoJo – a “Elite” – nunca reclamou do trabalho. Digo, quem acompanhou JoJo gringo lembra do Duwang – que, na moral, é uma bosta, nem as piadas têm graça mais -, lembra das scans cinzas da parte 3. Lembra que teve um período quando saía um CAPÍTULO de SBR a cada 6 meses e assim vai. Hoje tem parte 4 e 3 refeitas. Hoje tem parte 7 completa. Hoje tem mangazinho colorido. E assim vai. Hoje, é fácil ler Jojo agora, né? E quem é daquela época, se lembra que a Alliance chegou a trazer JoJolion antes dos gringos várias vezes. Lembra-se de que a parte 3 com scans branquinhas era só por nós. E assim vai.

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Já viu um episódio de South Park em que a cidade inteira é infestada por desabrigados? Os desabrigados andavam por South Park feito zumbis enquanto pediam “um trocado”. Um cientista consegue prender um deles e faz uma demonstração. Ao se aproximar, o desabrigado pede uns trocados e o cientista os dá. Logo em seguida, o desabrigado pede mais e o cientista comenta algo do tipo: “Viu só? É como se ele não tivesse percebido o que eu fiz. Ele acabou de receber e ainda assim, pediu por mais”. Eu, na Alliance, sentia-me da mesma forma. Acabávamos de lançar um volume e já vinham pedindo mais. E, como eu já citei, eles não liam avisos. Não olham a data do último lançamento. Simplesmente iam lá e perguntavam a mesma pergunta já feita por todos, a toda hora, todos os dias. E isso cansa.

E não é como se eu não aceitasse críticas, eu só me cansei delas, também. Sabe, críticas, numa boa, valem. Eu sempre fiz questão de aprovar todos os comentários e, se algum não passou, foi provavelmente por distração. Só que vem gente encher o saco sem moral, entende? Gente que faz a crítica, mas não termina uma frase sem um erro de português. Eu li em um grupo aí “Ain, traduzir secchan é inaceitável e amadorismo”, “A Alliance fica mudando a tradução” e até mesmo “Ain, não gosto dessa fonte”.

Puta merda, né, garotinho? Qualquer tradutor realmente bom sabe que mudar a fala é o mínimo a se fazer numa tradução. Eu faço muita tradução do inglês, mas não é como se eu não estivesse com o original em japonês do lado para conferência com meu japonês básico. Qualquer estudante de primeiro semestre de comunicação sabe que a mensagem a ser transmitida que é importante. Se for necessário alterar o código ou o canal, para que a mesma faça sentido, não deixe de fazê-la. Tradução ao pé da letra o Google Tradutor faz muito bem. Uma frase como “Josuke, eu não gosto desse tipo de alimento! Eu prefiro comer carne!” (essa citação saiu de uma conversa que tive com um mioqs meu) é ipsis litteris do inglês, mas é estúpida. Quem fala “alimento” no dia a dia, principalmente se é alguém do cast da parte 4, por exemplo? Sem medo algum, eu traduziria “Josuke, eu não gosto desse tipo de comida, não! Eu prefiro um bom bifão!”.

E cacete. Reclamando da fonte, velho? A gente sempre usou NOSSAS FONTES porque não dá para fazer uma versão em português dos scans gringos. Isso é escrotice. Identidade própria, conhece? A gente se preocupou em usar fontes que condissessem com o teor da parte a ser traduzida. Uma mais brincalhona na parte 4, devido à natureza zoeira dos protagonistas; uma meio marginal na parte 6, por causa da temática presidiária; uma de velho oeste para a parte 7; e assim vai. É certamente algo mais atencioso do que usar mais uma fonte genérica de HQ no título.

Aliás, se fôssemos ser fiéis, ao pé da letra, com o original, o mangá seria todo em Times New Roman ou Arial, porque lá no Japão eles estão pouco se fodendo com isso.

Foi quando eu notei que a base de fãs está é preocupada com ler. Pode pouco se foder com a ortografia, com o capricho. Eles querem é ler. Pode sair um volume por dia em qualidade de bosta, mas se sair, está bom, né? Foi quando caiu a ficha: Se tem uma galera aí fazendo com as coxas (e digo isso não só para JoJo, mas para qualquer mangá) e o pessoal não reclama, para que o otário aqui vai continuar se esforçando? Essa mesma galera que reclama da falta de velocidade e de capricho, mas que comete uns erros nojentos como “viajem” – a palavra substantivada – e “cusão” – o certo é Z, porque é aumentativo de “cu”, e aumentativo é com Z.

E tem também a fofoquinha, de que a Aliança é empresa, que trata quem ajuda feito escravo e etc, etc, etc. Nunca gastei um tostão com a Aliança e ela nunca me rendeu um tostão, nem nunca a usei para autopromoção. Sempre tratei os colaboradores numa boa. Aliás, os capítulos penavam a sair porque, apesar de cobrar, eu sempre deixei o cara fazer no tempo que ele precisasse.

A verdade é que eu cansei. Ainda adoro JoJo. Eu só não me sinto mais confortável em ceder o meu tempo para esse tipo de coisa.  Não sou de fazer desabafos, mas achei que o momento exigia. Quem quiser me acompanhar, vou ficar aqui com o Horny Pony e sabe que eu faço zoeiras no Youtube. No máximo, vou fazer alguma coisa por fora, como Baoh, que traduzi o primeiro volume ainda na Anime Nostalgia e gostaria de terminar.

E sabe, eu olho para trás, não é como se eu tivesse ódio ou arrependimentos. Não me arrependo de nada. Mudaria algumas coisas, mas não me arrependo delas. Eu fiz muitos amigos e colegas nessa brincadeira de traduzir mangá. Aprendi muitas coisas também, como editar arquivos de legendas e encodar formatos de vídeo, por exemplo. Nunca vou me esquecer de várias aulas na faculdade que gastei editando o mangá. Eu sou muito satisfeito por tudo o que esse período com a Jojo’s Bizarre Alliance me proporcionou. Na verdade, a única lamentação mesmo que eu tenho é não conseguir traduzir a parte cinco, que é a minha favorita, e foi isso bem quando chegou na hora de fazê-lo. Paciência, né?

O lado bom é que eu posso fazer outras coisas agora. Antes, qualquer coisa que eu fosse fazer, eu lembrava que tinha afazeres com relação à Alliance. Responsabilidades, ou coisa do tipo. Se eu queria traduzir, sei lá, Magishounen BT, não poderia porque era prioridade fazer JoJo. Agora, eu posso fazer que porra eu quiser. Rola uma sensação de liberdade.

Pensei também em falar sobre minha visão a respeito dos scans no Brasil, que eles estão morrendo aos poucos, mas isso é papo para outro dia.

Texto Relacionado: [Por Trás de um Scanlator]

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6 respostas para ““Obituário” ou “Meus pensamentos a respeito do fim da Alliance”

  • C.C

    Ótimo texto, Creisson. Chega a ser triste a fanbase de JoJo…. E o pior é que a maioria é assim mesmo. Eu ainda me pergunto se um ou outro vai ficar com rabo entre as pernas e perceber que trocou uma mina de ouro por ouro de tolo. E se for fazer scans de Baoh vai postar aqui ou em outro lugar? Estive procurando scans boas do mesmo mas infelizmente só encontrei uns DUWANGS dahora.

  • Bruno

    Não tenho o que reclamar, só a agradecer, obrigado por ter tomado a iniciativa com a tradução de JoJo, foi um ótimo trabalho, mts não se esquecerão disso. Boa sorte aí com seus próximos projetos.

  • Cristiano Pontes

    “Cara, a fanbase de JoJo traçou o seu caminho a ponto de se tornar uma comunidade pior do que a de My Litte Pony. Sério.”

    Quando eu li essa parte eu tive que levantar da cadeira e começar a aplaudir. Eu não sei se tu viu o último tumulto da dita cuja fanbase, o pessoal começando a fazer tempestade em copo d’água porque a nova abertura é “muito Shounen”, e qual é o problema disso? Só porque é pra Jojo tem que ser uma abertura underground e descolada pro pessoal ficar enchendo o saco em cima disso? Na verdade, isso já começou desde que não rolou o 3D na mesma (que era bonito, eu admito, mas são só detalhes). Enfim, gostava pra caramba do teu trabalho e gostava de trocar uma ideia contigo no grupo do Face. Abraços.

  • Anne Rodrigues

    Creisson, eu soube meio tarde por um colega de faculdade que vocês tinham terminado a Alliance. Na verdade, eu não fiquei surpressa com a notícia. Assim como cê disse, tô notando os scans morrerem aos poucos. Parte porque os mangás “populacho” estão sendo lançados aqui no país com mais facilidade pelas editoras que a alguns anos atrás. Outra parte é porque sinto que toda essa coisa otaku/weaboo está em baixa. Cada vez menos encontro pessoas que assistem anime, e sendo bem sincera, os lançamentos de animes de 2013 para cá raramente tem trazido series realmente interessantes dignos de se dar atenção (aqui você pode discordar de mim, mas cansei de acompanhar os lançamentos).
    E tem toda essa coisa da “nova geração” que é mimadinha demais, acha que tudo é motivo pra comoção ou pra fazer graça, e tem os antigos problemas de sempre de nego achar que o scanlator é obrigado a trabalhar 24 horas, sendo que o trabalho é voluntário, como você disse bem. Tem uma hora que isso cansa. Eu cansei das discussões, das brigas, de explicar porque “não pode” e “não dá certo” mais de 100% vezes e o cara não entender, não sei, eu também me sinto envelhecendo, então entendo totalmente porque tá todo o mundo parando, fora os projetos que sumiram do mapa sem explicação.
    Enfim, queria mais te elogiar e agradecer por todo seu trabalho e dos voluntários da Alliance, eu esperava pela tradução mais por preguiça mesmo, a barreira da segunda lingua nunca foi um problema pra mim, e gostava da qualidade do trabalho. Mas é isso, as pessoas são assim. Você dá a mão e ai eles já querem o braço, a perna e o resto do corpo…

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