[PonyExpress] Dando pitaco sobre os indicados ao Oscar 2022

Acharam que o blog tinha morrido, né? Não! Ele não se chama Olavo de Carvalho! E aqui estou eu, finalmente abrindo o ano de 2022 com meus pitacos sem sentido sobre os filmes indicados ao Oscar. Digo, todo ano, eu faço esse tipo comentário a respeito do Oscar de forma particular com os conhecidos, mas dessa vez eu decidi redigir em formato corrido, assim como fiz em 2020.

Notou que eu pulei 2021? Pois é, aquele foi um ano de pandemia e, por algum motivo, a Academia cismou em montar um listão cheio de filme produzido por estudante de cinema e teatro frequentador da praça Roosevelt. A imensa maioria deles me deixou com preguiça, então foi um dos poucos anos que eu acabei pulando a premiação. Dei uma torcidinha de leve para Sound of Metal, Judas and the Black Messiah, Mank e The Father, mas ficou por aí. Também torci contra Tenet e Nomadland e, enquanto o Nolan ficou chupando o dedo, infelizmente o mal que é Nomadland venceu.

Para abrir a rodada, afirmo que em todos os anos existe sempre um vilão que precisa ser impedido de ser eternizado na história do cinema. Em 2021, como constatei, o vilão foi Nomadland. 2020, Coringa. 2019 foi A Star is Born, aquela isca tranqueira com a Lady Gaga, e Roma, um puta filme hipócrita que é uma visão abusivamente colonialista de romantização da relação patrão-empregado — e que é pior, porque ele é um filme que pisa em cima dos valores latinos sendo feito por um, o Cuarón.  Bohemian Rhapsody e Pantera Negra também. Aliás, Oscar de 2019 só não foi derrota porque nenhum desses vilões ganhou.

Pois bem, o vilão absoluto para essa edição de 2022 (a 94ª) com certeza é Licorice Pizza. Acho que é, facilmente, um dos piores a filmes a que já assisti na vida. Passando-se nos em Los Angeles — ambientação que é a maior queridinha da Academia — durante a Guerra do Vietnã, nele é contada a história de uma garota de 25 anos que começa a criar um relacionamento esquisito de não-namoro com um moleque que é uns dez anos mais novo do que ela (sim, faça as contas para entender onde começa a babaquice).

Nada nele presta. As atuações são babacas e forçadas. As linhas de enredo não vão a absolutamente lugar nenhum e não há qualquer justificativa para isso. Os acontecimentos não se ligam e não há relação de causa e consequência. Os personagens aparecem e somem sem motivo. Tudo para, no fim, o moleque perceber que ele deveria amadurecer e a moça abrir mão um pouco de querer ser tão adulta — exceto no que diz respeito a relacionamentos com menores, aí parece estar tudo bem. Além disso, não há nenhum personagem minimamente tragável e o ritmo é terrível. Eu queria ir embora do cinema antes da metade desse tormento de duas horas.

Esse filme só não é mais criticado porque é feito por mais um dos auteurs queridinhos de Hollywood, aquele Paul Thomas Anderson. A meu ver, ele entra no mesmo nível de pretensão amadora que o Christopher Nolan e o Darren Aronofsky. É patético. Provavelmente o lixo mais superestimado de Hollywood desde Moonlight.

Falando de Moonlight, lembra como o seu rival, La La Land, foi supostamente cancelado por gente que não viu ou entendeu o filme e achou que era a história de um “cavaleiro branco” salvando o dia? Pois é, por que Licorice Pizza não foi criticado com a mesma intensidade? Licorice Pizza tem uma cena estupidamente constrangedora de um tiozão fazendo sotaque japonês com o único intuito de fazer piada para a audiência. Não tem como isso ser bom.

Por outro lado, há um filme que eu realmente não acho que vai ganhar, mas ele é também uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida. Falo de Belfast, que nos apresenta um garoto protestante durante os anos de terror do IRA, na Irlanda do Norte. Apesar da ambientação, ele está muito longe de se propor como um filme de época, tratando-se, na verdade, de um filme intimista sobre ser uma criança, pertencer a algum lugar e estar em conflito sobre ter que abandoná-lo.

Sim, de certa forma, é bastante parecido com Roma, só que a diferença é que ele é bom. Aliás, sob determinados pontos de vista, dá para dizer que ele está bem mais próximo de JoJo Rabbit do que Roma, visto o contexto da guerra que é justamente negado e escondido do olhar infantil do protagonista. Além disso, é sobre um filme sobre ter um lar cujo abandono acaba se atrelando à necessidade imediata de crescer. A história é bastante boba, mas é justamente o ponto: sob o ponto de vista de uma criança, muita coisa boba parece ser levada a sério e até mesmo é exagerada ou ficcionalizada, o que realmente torna o filme maravilhosamente lindo.

Belfast ainda é muito isca de Oscar — traz um enredo baseado em fatos reais, puxa saco da “magia do cinema”, tem um ou outro dramalhão besta e uma mensagem até que piegas no final —, mas é uma dessas iscas boas, que a gente se deixa fisgar com gosto. O Kenneth Branagh tem muito acerto como diretor, roteirista e produtor, mas também tem uma pá de cagada na própria filmografia, como Artemis Fowl e o primeiro Thor.

A graça de Belfast, talvez, é que ele serve como identificação para qualquer povo que, por algum motivo infeliz, precisou abandonar suas raízes, como armênios tendo que abrir mão do território de Nagorno-Karabakh por culpa das invasões Azeri ou mesmo de retirantes que tiveram que abandonar o nordeste atrás de melhores condições de vida.

Bom, agora me deixa limpar um pouco do sêmen que ficou perto da minha boca depois de tanto mamar o filme. Sendo pé no chão, como constatei, não acredito que ele leve a estatueta de melhor filme, mas acho que, Belfast leva, pelo menos, o Oscar de melhor atriz coadjuvante para a Judi Dench. Quem não votar nela é porque, infelizmente, nunca teve uma avó na vida.

Aliás, um que é um filme Oscar Bait é aquele King Richard. Você nem precisa assisti-lo para realmente saber o quão isca esse negócio é. Ele praticamente tem uma checklist completamente preenchida com todas as tendências e preferências atuais da Academia, a começar pelo fato de se tratar de uma história biográfica. Belfast também tem essa questão, mas ele parte de uma premissa real para ilustrar a história de um jeito propositalmente fantasioso e alegórico. Não é uma tentativa de recriação histórica. Em comparação, Belfast está para Rocketman da mesma forma que King Richard está para Bohemian Rhapsody.

Amor, Sublime, Amor (West Side Story) eu nem vi para saber a respeito da qualidade factual, mas também sei que é bait pelo simples motivo de terem decidido fazer um remake de um outro filme véio que envolve povos marginalizados. Se ganhar, talvez eu pare e assista, mas vou passar reto desse aí principalmente porque tem pelo menos uns dez anos desde o último acerto do Steven Spielberg como diretor. Eu duvido muito, principalmente porque a estatística está jogando contra ele, já que não foi indicado para melhor roteiro e dificilmente dão o prêmio para algum filme que não ganhou a categoria, muito menos se nem sequer foi indicado nela. Não sou eu que estou falando, é a estatística.

Agora, Duna (Dune) é fácil o filme que mais se superou dentre os indicados. Duna não vai levar o de melhor filme porque simplesmente não tem perfil para isso (quiçá nas sequências, quando o caldo da história engrossar), mas pelo menos os prêmios técnicos ele leva, como o de efeitos especiais. Porque convenhamos, aquele cuzão gigante de areia é infinitamente melhor renderizado do que aquela bagunça que foram os efeitos daquele desastre do Homem-Aranha, com os bonecões de borracha se pendurando na Estátua da Liberdade.

Duna talvez também abocanhe o de fotografia, mas Blade Runner 2049, do mesmo diretor, foi bem melhor e mais interessante nesse quesito.

Falando com o pé no chão, o que eu mais apostaria fichas é o Ataque dos Cães (The Power of the Dog). Negócio fede a um suspense Hitchcockiano e está bem alinhado ao que a Academia anda procurando em um filme para considerar o melhor. Cumberbatch merece o de melhor ator e sei não se Kirsten Dunst não leva o de melhor atriz. Atuação de ambos é o que carrega o filme inteiro. CODA, pelo que vejo, corre por fora mais porque o Ataque dos Cães é da Netflix e os véios votantes da Academia não acham que Netflix seja cinema.

Agora, outro que eu não faço ideia do que está fazendo no meio das indicações é aquele Drive My Car. Não que ele seja ruim — embora tenha lá seus defeitos —, mas é porque ele não tem perfil para ser indicado ao Oscar.

É um longa-metragem que eu consigo visualizar 100% pleiteando uma palma de ouro em Cannes, mas não o Oscar. Se bem que nos últimos anos sempre tem um filme com essa pegada diferenciada que consegue se meter nos indicados — e geralmente é gringo, pode prestar atenção. E, nesse caso, com certeza vai ganhar o de melhor filme estrangeiro. Afinal, não faz nem sentido botar ele como o único filme gringo na categoria principal e não receber essa categoria secundária.

Beco do Pesadelo (Nightmare Alley) eu gostei demais, mas também só está na lista final para fazer volume. Belo filme, mas longe de pensar em ganhar qualquer coisa que não seja figurino e design de produção. E é a mesma coisa de Amor, Sublime, Amor: sem indicação a melhor roteiro, sem prêmio de melhor filme.

Agora, para finalizar, vamos falar da minha implicância quase que anual sobre o Oscar de Melhor Animação? Para variar, é mais um ano para chupar as bolas da Disney que a Academia simplesmente e, com exceção do dinamarquês Flee, ignorou todo e qualquer filme que não seja “uma mágica aventura para todas as idades”. É sempre o mesmo padrão de filme indicado e que acaba levando a estatueta. Tem uma caralhada de animação boa produzida por aí, mas é sempre o filme que os votantes viram com os filhos, sem nem sequer tentar ver mais alguma coisa fora dessa bolha.

Votante #5: Eu só assisto aos filmes que meu filho quer ver, então eu não vi Boxtrolls, mas eu vi Operação Big Hero e vi [Como Treinar o seu] Dragão. Nos dós nos sentimos conectados com Operação Big Hero — foi o que nos deixou mais satisfeito. O maior absurdo para mim foi o Chris Miller e o Phil Lord não terem sido nomeados por [Uma Aventura] Lego. Quando um filme é um sucesso e culturalmente atinge todos acordes certos e ainda conquista aquela bilheteria — para um filme desses não ter entrado e botarem no lugar essas duas porras chinesas que ninguém viu [uma aparente referência ao filme japonês O Conto da Princesa Kaguya e, talvez, do filme irlandês Song of the Sea]? É o que me deixa puto. A maior parte das pessoas nem sequer sabe sobre o que eram. Como isso aconteceu? Para mim, é uma das coisas mais ridículas que já vi.”

Esse ano, especificamente, foram três flops da Disney, um pior do que o outro. Exatamente o que você leu, Luca, Encanto e Raya são uma merda, sendo Raya o menos patético dos três. Com exceção de Coco, a Pixar não solta um filme bom há pelo menos dez anos, o último decente deles foi Toy Story 3. É como se a empresa que começou com Toy Story, decidisse terminar com Toy Story também. Aliás, pode desmontar essa merda de estúdio de uma vez pois, dadas as últimas produções, não vai fazer falta mesmo.

Sim, eu fiquei puto para um caralho que Belle, do Mamoru Hosoda, não entrou na lista final de indicados. Como descobriu?

 

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