Análise: Un-Go

Assim como Gosick, o principal motivo de eu ter decidido acompanhar este anime é o estúdio que produz o anime em questão: Bones. Só que ao contrário do já citado, Un-Go acabou surpreendendo. Jamais que eu iria acompanhar tal anime se fosse só pela sinopse ou pela imagem que a acompanha, que, nesse caso, exibia o horrível character design do Shinjuurou Yuuki, o protagonista.

Seguindo o exemplo de Gosick, Un-Go também é um anime de mistério. O principal diferencial é que Un-Go não quer se passar por uma história de amor, portanto, ele se concentra, embora que de maneira confusa, no enredo e no desenrolar dos casos. Não é um anime que utiliza a fórmula Scooby-Doo. Desta vez, podemos comparar com Sherlock Holmes, Monk e até – mesmo não sendo uma série de mistério – House. Afinal, o próprio personagem acaba tendo que utilizar a lógica para chegar aos diversos diagnósticos, por mais surreais que sejam.

O primeiro caso é o de um assassinato em uma festa onde Shinjuurou se vê forçado a desvendar o assassino. A vítima é um presidente corporativo cuja fama não era das boas. O objeto usado é uma faca e ela aparece convenientemente com uma policial, também encontrada morta no elevador. Todas as pistas apontavam para o assassinato seguido por suicídio por parte da policial, até que surge Inga, o assistente de Shinjuurou cuja forma alternativa é sua chefe (sim, muda até o sexo na transformação). Ela usa seu poder que consiste em ir até ao fundo da alma das pessoas e forçá-las a responder todas as perguntas que lhe são feitas, sem mentir.

Este primeiro episódio é ligeiramente confuso, mas serve bem como apresentação dos personagens principais. Portanto, além de conhecermos Inga e Shinjuurou, também somos apresentados à Rie Kaishou e Rinroku Kaishou. A primeira também está sempre com Shinjuurou e age muitas vezes como sua ajudante. O segundo é pai de Rie e também é um detetive conhecido, além de chefe da empresa JJ Systems. Tende a resolver seus crimes basicamente usando a lógica e seu arsenal de computadores, portanto, nada lhe escapa. Ainda assim, muitas vezes roubou o mérito de Shinjuurou e consequentemente, Shinjuurou recebe a alcunha de “Detetive Fracassado” ou “Detetive Derrotado”. Rinroku Kaishou é alvo de desaprovação de sua filha por ter a mania de ocultar alguns ocorridos, bem como conspirações.

À medida que o enredo se desenrola, novos personagens são apresentados, entre eles, Kazamori Sasa, uma inteligência artificial criada para fins fetichistas (eu falo que japonês adora esse tipo de coisa). Em um dos arcos somos apresentados a um cara chamado apenas de Romancista. Se Shinjuurou é Sherlock Holmes, podemos comparar o romancista ao Moriarty. Utilizando-se de Bettenou – uma entidade da mesma espécie de Inga – ele escreve, de forma ilusória, novos casos para que Shinjuurou teste sua capacidade, da mesma forma que Moriarty fazia.

Existem uma porrada de outros personagens, mas o principal problema do bloco NoitaminA é que ele só exibe, em sua maioria, animes experimentais (embora existam algumas exceções, como Nodame Cantabile e Black★Rock Shooter). Como era apenas uma experimentação, foram sendo testados vários arcos e enredos menores, sem o desenvolvimento de algo grande, o que passa ao anime a imagem de série um pouco mais truncada, por assim dizer. Quando o espectador assiste ao final, acaba ficando com uma sensação de vazio, querendo mais.

Outro ponto importante é que Un-Go foi baseado nos romances de Ango Sakaguchi, influente escritor japonês cujas obras criticavam o Japão no período após a Segunda Gerra Mundial. Ele explorava o fenômeno do crescimento metropolitano exacerbado, bem como a onda de consumismo que recaiu sobre o Japão naquela época. Válido lembrar que, como punição por integrar o Eixo, o Japão foi proibido de desenvolver uma força militar, o que resultou na formação do exército de defesa mais poderoso do mundo e isso é citado em algum momento de Un-Go, bem como é diversas vezes mencionado que o Japão ainda está se reconstruindo de uma Guerra que enfrentou e esperavam que um acontecimento como esse jamais acontecesse de novo. É interessante notar como esses escritores do século XX faziam críticas àquela época e que ainda são atuais, de uma maneira ou de outra (outros exemplos podem ser Aldous Huxley e George Orwell).

Un-Go, apesar de fantástico, ainda teve lá os seus problemas. Além de estar na categoria experimental, impedindo o aprofundamento de um enredo (como já citado), os episódios começavam muitas vezes de forma maçante e confusa e acabavam afastando o espectador, de uma forma ou de outra. Era possível dividir os vinte e quatro minutos de episódio em duas partes: os primeiros doze minutos eram extremamente cansativos enquanto os últimos doze se transformavam em uma das melhores experiências que alguém poderia presenciar em um anime. Na época eu não sabia, mas vim a descobrir que Un-Go segue uma estrutura de enredo baseada em pontos de virada, em que o principal momento de reviravolta é dado sempre no meio da narrativa em questão. Fez um pouco mais de sentido, mas existem muitas outras obras que seguem o mesmo formato e que ainda assim não deixam de ser empolgantes em sua primeira metade.

Outro ponto que acabou me fazendo torcer o nariz no início foi o character design. A primeira impressão era horrível. O Shinjuurou parece um Seto Kaiba que tomou algum tipo de esteroide para crescer e sofreu efeitos colaterais, ficando esticado daquele jeito. O mesmo Seto Kaiba também teria tido problemas com seu cabelereiro, só para constar.

Apesar de tudo, é possível se acostumar rapidamente ao problema do character design, porque o estúdio responsável por Un-Go é o Bones. Isso significa uma animação belíssima, colorida e fluida, bem como a excelente trilha causal que toca ao longo do episódio, com destaque na trilha Light, que toca no momento quando Inga muda de forma. É de causar arrepios na espinha, de tão fabulosa que a cena se torna.

A abertura, How To Go, tocada pelo School Food Punishment foi bem escolhida e a animação é coerente, mas não passa do nível do medíocre enquanto o encerramento rouba todos os holofotes. Fantasy, tocada pela banda Lama é uma das melhores e mais belas canções japonesas que já escutei, bem como a sequência animada dos créditos que se utiliza de uma seleção de cores e iluminação magnífica. Eu gostaria que fizessem mais encerramentos deste tipo, em vez jogarem um J-rock aleatório enquanto são exibidas animações de luta ou algo do gênero, como a própria abertura.

Só lamento o fato de Un-Go ter passado despercebido. Talvez seja porque Guilty Crown estava roubando toda a atenção para si e naquela época era um anime que prestava. Eu me arrependo amargamente de não ter dado mais destaque à Un-Go quando fiz minhas escolhas ao Pony Awards. Foi uma das maiores cagadas que fiz em toda a história do Horny Pony. Un-Go é uma série fabulosa e genial é a palavra que melhor a descreve. Eu sinceramente senti um baita de um vazio depois que acabou. Eu assitia Un-Go durante a manhã de sábado, enquanto tomava meu café. Desde que acabou, minhas manhãs de Sábado nunca mais foram as mesmas.


Informações

  • Produção Original, baseando-se nas obras de Ango Sakaguchi
  • Episódios: 11
  • Ano: 2011
  • Direção: Seiji Mizushima
  • Roteiro: Shō Aikawa
  • Trilha Sonora: Masafumi Mima
  • Estúdio: Bones

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